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Vamos sentir saudades da inflação baixa #S&P 500

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Saudade é uma palavra que carrega uma ambiguidade peculiar. Quando algo bom ficou no passado, sua lembrança traz um breve conforto, seguido imediatamente pela frustração de saber que aquela situação não voltará. O problema é que o reconhecimento daquele momento feliz quase sempre ocorre somente depois que ele passou — exatamente o que o título de hoje quer dizer. Vivemos por mais de uma década num ambiente de inflação excepcionalmente baixa, que induziu os bancos centrais a adotar políticas monetárias extraordinariamente frouxas. O exemplo mais emblemático desse excesso foi a emissão, em 2020, de um título do governo austríaco com vencimento em 100 anos e cupom de apenas 0,85% ao ano. O volume captado foi de 4,6 bilhões de euros — e havia fila para comprar. Cinco anos depois, aquele papel vale aproximadamente metade do preço de emissão. É o risco de duração na sua expressão mais brutal: um título soberano com classificação AA+, desvalorizado pela metade, sem que o emissor tenha dado um...

Nunca diga nunca #Bitcoin #MicroStrategy #USDBRL

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Há alguns meses escrevi aqui que Michael Saylor era, acima de tudo, um especulador — e que a estratégia da Strategy tinha um ponto cego fundamental: a ausência de uma saída organizada. Na época, a tese era contestada por muitos. O que aconteceu na última semana confirma o diagnóstico: quando a realidade aperta, a narrativa cede. Na divulgação de resultados do primeiro trimestre, os executivos da Strategy admitiram que podem vender Bitcoin. O CEO Phong Le foi direto — a empresa não vai simplesmente cruzar os braços e dizer que jamais venderá suas reservas. E Saylor, o próprio arquiteto da tese, sugeriu que a companhia pode até vender Bitcoin com prejuízo, apenas para aproveitar um crédito fiscal de 2,2 bilhões de dólares que, nas palavras dele, está jogado no chão. Isso não é detalhe operacional. É uma mudança de postura estrutural — e talvez seja o primeiro passo para desmontar toda a parafernália que construiu. Começa com justificativas fiscais, depois vem a necessidade de honrar ...

Você vai comprar chips da Nvidia no supermercado #nasdaq100 # NVDA

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A pergunta soa absurda. Mas é exatamente essa lógica que está começando a se insinuar nos corredores de Wall Street e nas salas de reunião das maiores empresas de tecnologia do planeta. A Nvidia, cujas unidades de processamento gráfico dominam com folga o mercado de inteligência artificial, enfrenta hoje uma narrativa crescente de que seu reinado pode estar com os dias contados. Discordo. E vou explicar por quê. A tese dos pessimistas tem fundamento aparente. A ação da empresa recuou 7% desde o pico histórico de 27 de abril, tornando-se uma das piores performances no índice Philadelphia Semiconductor, que avançou cerca de 60% no mesmo período. Os grandes clientes — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — anunciaram planos de desenvolver seus próprios chips dedicados à inteligência artificial. A Anthropic firmou contrato de US$ 200 bilhões com o Google para uso dos chips TPU ao longo de cinco anos. A Amazon declarou US$ 225 bilhões em compromissos com sua linha Trainium. São números que im...

Rasgando os livros de economia #OURO #GOLD #EURUSD

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Sou engenheiro, não economista. Aprendi economia na marra, pelo trabalho — décadas de mercado financeiro são um laboratório que nenhuma sala de aula reproduz. E aprendi a distinguir o que importa do que é enfeite acadêmico. Os conceitos fundamentais são simples. Tão simples que, conta-se, um deputado indignado com a inflação propôs ao plenário revogar a lei da oferta e da procura, afinal, estava atrapalhando sua intenção. O episódio diz tudo sobre a distância entre a política e a realidade. O livro-texto de economia ensina há séculos que existem três fatores de produção: Terra, Trabalho e Capital. Ideia sólida, lógica, testada. Ninguém havia sugerido nada diferente em toda a história da disciplina. Até agora. Acompanho com atenção o trabalho do economista Ed Yardeni — raiz, criterioso, com um banco de dados que poucos possuem e uma veia levemente sarcástica que aprecio. Em seu relatório desta semana, ele fez uma afirmação que me parou: propôs a inclusão de um quarto fator de produção. ...

O maior cliente manda #IBOVESPA

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Acordei esta manhã com uma notícia que, para quem acompanha mercados há décadas, tem o cheiro inconfundível de ponto de virada: o Irã estaria avaliando uma proposta norte-americana para encerrar quase dez semanas de guerra. Trump, fiel ao seu estilo, não perdeu tempo e declarou vitória nas redes sociais antes mesmo de qualquer acordo ser assinado. Mas há um terceiro personagem nessa história — e, na minha avaliação, o mais decisivo de todos: a China. Para entender o que está acontecendo, é preciso compreender uma estatística que resume tudo: a China compra em torno de 90% do petróleo exportado pelo Irã. Não é parceria — é dependência estrutural. E dependência estrutural, como qualquer empresário experiente sabe, é uma faca de dois gumes. Nas últimas semanas, os Estados Unidos vinham tentando sufocar as finanças iranianas pelo bloqueio naval e pela ameaça de sanções secundárias a quem comprasse o petróleo iraniano — leia-se, a China. Robin Brooks, em análise cirúrgica publicada na seman...

A batata quente (pelando?) #S&P500

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Este ano temos a escolha de um novo presidente da república. As pesquisas recentes mostram perda de popularidade do presidente atual. Se Lula for reeleito, já sabemos o que esperar: nada de resolver as contas públicas mas continuar gastando sem controle. Se for um outro candidato com melhores intenções, pode ser um pouco diferente — mas por que um pouco? Vão entender no decorrer deste post. Existe uma possibilidade de difícil solução — quem quer que  ganhe a eleição. E aposto que nenhum dos candidatos está sequer pensando nisso, embora o tema seja intensamente debatido lá fora. Estou falando do risco de demissões em massa provocadas pela inteligência artificial. Se for o Lula, conhecendo seu histórico intervencionista, vai querer expulsar a IA da economia — convoca os amigos do STF e proíbe seu uso. Lógico que isso é impossível na prática, mas a tentação estaria lá. Se for um candidato de outro perfil, seria ele obrigado a expandir ainda mais o Bolsa Família para absorver os desloc...

O mercado não deixa dinheiro na mesa #USDBRL

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O mercado de ações dispõe de inúmeras métricas para avaliar empresas, mas todas elas têm um denominador comum inescapável: o preço. Seja pelo Preço/Lucro, pelo Preço/Vendas ou pelo valor patrimonial, o preço está em toda parte. A pergunta que raramente se faz, porém, é a mais importante: por que determinada ação ficou barata? Qual foi o gatilho? Seria o tamanho da empresa, que a exclui dos índices mais difundidos? Um novo concorrente capaz de oferecer produtos mais baratos? A deterioração da gestão? Perspectivas sombrias para o setor? As causas são muitas — mas identificá-las faz toda a diferença entre uma oportunidade real e uma armadilha disfarçada de pechincha. Certa vez, tive a oportunidade de visitar a mesa de operações da Merrill Lynch, quando a instituição ainda existia. De uma janela em andar superior, a cena era impactante: aproximadamente 500 operadores, cada um diante de seus terminais e telefones, formavam uma multidão densa e disciplinada. A pessoa que me acompanhava fez q...