Inflação: A Revanche

12 de março de 2015

Dólar: Mini-bolha?

Em 2012 eu fui convidado para proferir uma palestra no IFC - Instituto de Formação de Líderes, o tema que escolhi foi: "No mundo das bolhas". Caso queira ver os slides dessa apresentação, acesse o link IFC - 11/2012. Ao estudar o assunto, identifiquei algumas características que as bolhas têm em comum. Porém, mesmo que estas condições se verifiquem, nunca se sabe de ante mão, se é ou não uma bolha .

O ex-Presidente do FED, Alan Grenspan, foi muito criticado por não ter agido com antecedência, quando da bolha da internet. Ele argumentava que uma bolha só se sabe a posteriori, depois que acontece, assim, qualquer ação preventiva pode ocasionar danos econômicos. Ele está certo, porém, não fazer nada também pode causar danos até maiores.

O slide abaixo, faz parte da apresentação citada acima, e identifica às características que mencionei.

Vejamos se o dólar contra o real poderia se encaixar nestes critérios:

  • Quem está comprando dólares para liquidação futura, espera um ganho sobre o valor acordado, Por exemplo, com a cotação agora a R$ 3,10, uma operação de swap para daqui há um ano fixaria o preço deste contrato em R$ 3,50. Assim, mesmo com uma cotação 13% acima das atuais, quem compra espera ganhar, satisfazendo o critério, onde o VE (valor esperado) é superior ao NPV(valor futuro), ambos trazidos a valor presente.
  • Uma operação de swap é bem diferente da compra de dólares no mercado à vista. No primeiro caso, você deixa em garantia algo como 20% do valor envolvido, enquanto no segundo caso é necessário 100% em cash. Assim, é possível uma alavancagem de 5 vezes sem a necessidade de usar o caixa, somente garantias.
  • Da forma como o dólar vem subindo, as pessoas são inclinadas a acreditarem que o preço só pode subir, basta ver sua evolução recente, onde a cada dia a cotação é superior ao dia anterior.
  • Neste item, o real se encaixa na última categoria, racionalidade. As pessoas encontram agora muitas razões para justificar que o dólar deve subir. Como acabei de ouvir de um leitor dizendo que, R$ 3,25 é o nível necessário para trazer o déficit da balança de pagamentos de 4% para 3% do PIB.
  • E por último, se há um mercado onde os analistas se consideram especialistas, é o câmbio. Existe sempre um estudo que pode justificar os movimentos.
O tema do Mosca deste ano, está se mostrando muito adequado, afinal o dólar é o motivo da maioria dos artigos recém-publicados, localmente e internacionalmente. Como comentei recentemente, no post o-anti-marketing, o DXY caminha para o nível de 106 e quiçá 118. Então esta vertente ainda é de pressão.

Não consigo saber quais as políticas traçadas em cada um dos países que passam por essa desvalorização cambial, porém sabemos que tanto o Japão onde BOJ injeta yens, quanto a Europa que injeta euros na compra de títulos, existe um movimento no mercado á vista destas moedas.

No caso brasileiro a situação é diferente, o BC vem atuando no mercado através de contratos de swap, sem que haja a troca efetiva entre o real e o dólar. Para que vocês entendam meu raciocínio, imaginem o seguinte exemplo teórico. Um estrangeiro resolve investir U$ 1.000,00 no país. Para converter em moeda local, o BRL encontra-se cotado a R$ 1,00. Os títulos pagam um juro módico de 10% a.a. Esse estrangeiro, resolve comprar um título com vencimento em um ano.

Passado um tempo ele ouve um zoom, zoom, zoom que o pais vai mal das pernas e fica preocupado, pois seu papel ainda não venceu. Liga á um banco e pede a cotação para um contrato de compra futura de dólares. Lhe é oferecido a um custo de 10% a.a., igual a da sua aplicação. Esse banco para cobrir sua posição pede ao BC um contrato de swap inverso, para mesma data e valor.

Independente de como estará a cotação do BRL, no vencimento, 3 situações poderão acontecer:

1) O investidor não quer saber de mais nada com o país e no vencimento do título compra os dólares e vai embora. Veja que a cotação do BRL naquele momento não importa, pois o swap fixou o preço de conversão.

2) O investidor quer ficar, afinal onde vai encontrar um taxa de juros como esta? A cotação da moeda está a R$ 1,20. Porém, ele ainda continua com receio, e quer renovar o swap. O problema surge se o BC não quiser renovar este contrato, e não tenha nenhum especulador disposto a assumir esse risco. Não vai restar outra alternativa para esse investidor, ou sai do país, ou fica sem cobertura.

3) O investidor não quer sair, afinal com a cotação a R$ 1,50, é uma barbada, e resolve não renovar o swap. Acontece que do outro lado, o BC quer rolar o contrato, afinal teve um prejuízo grande e acredita que a cotação está num nível muito alto. Neste caso, se não tiver nenhum especulador para apostar que o dólar continua subindo, a cotação do BRL cai instantaneamente para $ 1,00.

Lógico que o mundo não é assim, mas o que eu quis mostrar é que somente no caso 1, onde existe a saída efetiva da moeda o câmbio permanece onde estava, nos outros dois, o que os comprados e o BC decidem, podem ter uma grande influencia na cotação.

Voltando ao planeta Terra, ontem foi publicado o fluxo cambial do mês de fevereiro. Adivinhem o que aconteceu?  Foi positivo! Depois de tudo que nós presenciamos nestes últimos 30 dias, os gringos não puseram a mão na carteira para comprar dólares? E não venha me dizer que o motivo foi a repatriação dos dólares do lava jato! Hahahah ....


Assim as seguintes dúvidas pairam no ar:

O que os estrangeiros estão querendo: Um nível mais elevado para desfazer seu hedge? Ou, esperando que seja instituído um pânico e em breve haja uma debanda geral? 

O que o Banco Central está querendo: Continuar oferecendo o hedge até que a cotação se estabilize, ou caia? Ou, começar a diminuir gradativamente o volume de swap independente do nível em que o dólar está? 

A resposta a estas perguntas valem uma fortuna, agora só existe uma situação onde os preços não vão sofrer grandes variações quando a demanda por contratos de swap comprados, se equilibre como o volume oferecido pelo BC. Fora isso, só uma saída líquida de reservas confirmaria os níveis da taxa cambial.

Conclusão: Até o momento estou inclinado a acreditar que o dólar encontra-se numa mini-bolha, afinal a elevação das cotações deve-se basicamente a maior procura de hedge, e não pela queda do nível de reservas. 

Por quê uma mini-bolha? Porque uma bolha para as moedas, somente acontece se ela entra em colapso. Diferentemente das bolhas clássicas onde os preços retornam, neste caso isso não acontece.

- David, se é assim, por quê você não sugere a venda do dólar?
Por uma razão simples, você pode estar certo, e mesmo assim quebrar. Numa bolha, nunca se sabe onde será o ponto de reversão. Eu escolhi um gráfico de um bolha conhecida com das Tulipas, ocorrida em 1634.

Como você poderia saber em 1636, onde seria o pico deste movimento? Só depois que ele aconteceu.

No post o-compromisso-e-sempre-com-o-bolso, eu fiz os seguintes comentários sobre o SP 500 ... O objetivo, a ser melhor calculado adiante, é de aproximadamente 2.200 ... Agora não resta nada a fazer, a não ser acompanhar de camarote esse índice chegar naquele nível ...Acontece que o índice desde então, recou levemente, vale a pena comprara agora?

Não é um bom risco x retorno, pois ao comprar nos níveis atuais de 2.050, colocaria um stop a 1.970 (- 4%), para buscar um retorno esperado de 2.200 (+ 7%). Não tenho muita convicção, e seria um trade de curto prazo, prefiro voltar minhas atenções aos outros mercados, onde poderemos fazer apostas melhores.

O SP500 fechou a 2.065, com alta de 1,26%; o USDBRL a R$ 3,1647, com alta de 1,26%; o EURUSD a 1,0635, com alta de 0,83%; e o ouro a US$ 1.153, sem variação.
Fique ligado!

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