Inflação: A Revanche

24 de março de 2015

Mercados X FED

Se existe algo que o mercado sabe fazer muito bem, é arbitragem. A definição clássica é a compra e venda de ativos, com o objetivo de ganhar com a diferença entre eles, Arbitragem. Eu lembro de uma, que originou ganhos expressivos para a Planibanc, quando eu era diretor daquela Corretora. Em 1986 foi lançado o contrato futuro do Ibovespa e poucas instituições sabiam como precificar esse ativo, lembrem-se não tinha internet, Bloomberg e muito menos qualquer ligação das mesas de operações locais com as internacionais.

Como eu sempre tive um viés "jurista", depois de alguns dias de negociação, resolvi calcular quais eram os juros implícitos naquele contrato. Confesso que levei um susto, 80% no período de 60 dias, ou seja, um taxa anual de "apenas" 3.300% a.a.! Vale lembrar que os juros, naquela época de plano cruzado, eram de 18% a.a. Fui a meu colega que cuidava de bolsa e perguntei como poderíamos ganhar dinheiro com essa diferença. Naquela época o índice era composto de 80 ações e montar uma carteira com todas elas era trabalhoso, adotamos o famoso critério ABC, 11 ações representavam 70% do Ibovespa.

Assim, nosso operador do mercado a vista comprava uma carteira de ações proporcionais a seu peso no Ibovespa, enquanto o operador da BMF vendia os contratos financeiros, de tal forma que, no vencimento os financeiros deveriam ter um valor semelhante.

Foi uma época divertida, e porque não rentável, a cada vez que nosso operador entrava na roda do índice, os outros operadores cochichavam " ih, lá vem o pessoal da Planibanc vender mais!", caía 5% só pela nossa presença. O mais interessante é que a maioria do mercado não tinha a menor ideia do porque estávamos vendendo, achavam que nossa expectativa era de queda da bolsa, e não era, pois no mercado a vista éramos grandes compradores.

Sabem quem estava na outra ponta? Nagi Nahas! Essa história não terminou bem para ele, pois pouco a pouco outras instituições foram percebendo e replicando esse conceito. Passados 60 dias, essa arbitragem passou para algo em torno de 5% no mesmo período, mesmo assim continuamos, mas mais cautelosamente, aumentando o número de ações. Como dizia um colega: "essa operação era um massacre"!

Para terminar o assunto, no início dos anos 90, fui fazer uma visita a alguns Bancos em Nova York, e uma delas ao Morgan Stanley, que era conhecido como o especialista na arbitragem de índices de bolsa. Ao chegar lá, uma mesa com dezenas de operadores faziam só isso. Eu perguntei, qual a taxa de juros implícita no índice para montar uma carteira? Respondeu seco : "8,5% a.a". Engoli seco, pois os juros do FED funds era 8% a.a. (que saudades! Hahahah ...). O índice SP500 chama-se desta forma porque é composto por 500 ações. Perguntei, quantas ações vocês compram para fazer essa arbitragem? Resposta; "500!". Fui embora, e fiquei convencido que, o final da moleza no Brasil estava próximo, bastava os gringos aterrizarem por aqui, o que acabou acontecendo.

Essa introdução de hoje é para mostrar uma diferença que vem ocorrendo no mercado de juros nos USA. Depois da última reunião do FED, seus membros resolveram diminuir um pouco sua expectativa sobre o que esperam da evolução dos juros, mas pouco. Os mercados se movimentaram por conta disso, ocasionando uma queda do dólar.

Mas o mercado espera algo bem diferente, veja a seguir.

Para 2015 parece existir uma concordância entre ambos, o FED vai começar a subir os juros. Porém nos anos seguintes é que aparece a grande distorção, pois enquanto a autoridade monetária espera uma normalização dos juros, o mercado aposta que os mesmos subirão a passos de tartaruga.

Uma pesquisa feita pelo Twitter com 135 pessoas do mercado financeiro, perguntando qual será a taxa de juros daqui há três anos, obteve como resultado médio 1,75% a.a.

A diferença é expressiva em 1,5%, pois para 2017 o FED espera 3,25%. Pela leitura desses dados pode-se imaginar dois cenários, primeiro que o mercado aposta numa recuperação pequena da economia americana, e que daqui a três anos não estará normalizada; ou que a inflação estará ao redor de 0%.

É importante também ressaltar que os economistas dos Bancos, em sua maioria, tem a visão do FED. Ou seja, esperam que a recuperação seja boa, e que a inflação, dentro em breve, estará nos objetivos do FED.

Em quem você aposta? Tem uma diferença muito sútil entre esses dois grupos, o mercado "põe na reta", se estiver errado perde dinheiro, enquanto o outro grupo se errar, pede um I´m sorry, e refaz suas previsões com o seguinte comentário: "Afinal aconteceu ... %&(()*¨¨R%¨&*()_++" ....

Vocês não acham que o pessoal da agência Standard & Poors me ligou na sexta-feira, dando um inside information, que não iriam rebaixar a nota do Brasil, não é? No post déjà-vu, eu fiz os seguintes comentários sobre o real: ...Por enquanto não dá para ter alguma confiança que o nível de R$ 3,30 pode ser considerado um topo... Como o mercado está extremamente posicionado em dólares, reversões tendem a acontecer de forma violenta ... caso o dólar recue abaixo de R$ 3,22. Mas o mais importante é a região dentro do retângulo em verde, que corresponde à R$ 3,18 - R$ 3,05, abaixo disso, serão grandes as chances de uma correção mais profunda...Veja a seguir a evolução das cotações.


Por enquanto eu não me atrevo a nenhuma previsão mais assertiva, pode ser que seja somente uma correção para voltar a subir em seguida, ou como eu havia comentado, algo mais profundo, que levaria o dólar para R$ 2,90 - R$ 2,75. Para que este último cenário tenha mais chance, é necessário o rompimento dos R$ 3,07 apontados acima.  Por enquanto, vamos observar o movimento do real e o "dólar - dólar", sem posição.

O SP500 fechou a 2.091, com queda de 0,61%; o USDBRL a R$ 3,1394, com queda de 0,20% o EURUSD a 1,0924, com queda de 0,24%; e o ouro a US$ 1.192, com alta de 0,16%.
Fique ligado!

Nenhum comentário:

Postar um comentário