Inflação: A Revanche

27 de janeiro de 2017

Nunca dependa muito de um cliente


Durante minha vida profissional, já presencie inúmeras guinadas no comércio exterior. Na verdade, antes do Governo Collor era praticamente impossível importar algum bem; as alíquotas eram extremamente elevadas além dos entraves burocráticos. Esse mesmo governo implementou a maior abertura comercial da história e, desde então, permanecemos com essa política. Agora, pergunte se os empresários brasileiros ficaram felizes? Tenho vários amigos do setor têxtil que lamentam constantemente a concorrência chinesa.

Os EUA sempre foi, até então, um país que incentiva o aumento do comércio exterior; sua estratégia era a de importar produtos de pouco valor agregado e exportar principalmente serviços de alta tecnologia. E a China passou a ser seu maior parceiro comercial. Vários acordos entre grupos de países foram firmados, porém a estratégia era sempre nesse sentido. No caso mexicano, que é baseado sobre o acordo do NAFTA, a relação era mais vantajosa para esse país, pois, pela sua proximidade, inúmeras empresas principalmente do setor automobilístico aproveitaram para construir fábricas que poderiam se aproveitar do baixo custo da sua mão de obra. O gráfico a seguir não deixa dúvida.


Ainda em relação ao México, sua balança comercial é positiva, visto que, sendo um país emergente, não demanda tantos serviços dos americanos. Entretanto, a situação pode ficar horrível, pois uma recessão no México poderá ter consequências nos EUA – inclusive trazendo mais imigrantes mexicanos, que o muro está tentando prevenir. A cadeia de fornecedores para as fábricas mexicanas é extremamente complexa e pode resultar em perturbações e aumento de preços em áreas inesperadas.

Das promessas feitas por Trump, em relação ao comércio exterior, ele escolheu o país vizinho para começar. Quem tinha dúvidas se seu discurso era somente uma jogada de marketing, deve estar refazendo sua crença. Disse que vai construir o muro e para financiar vai instituir uma taxa de importação para todos os produtos mexicanos de 20%, já que o México se recusa a pagar.

O gráfico a seguir mostra que o grande problema do deslocamento da mão de obra não se deve ao México mais sim a China quando aderiu ao WTO. Trump escolheu o primeiro para atacar pois acredita que terá ótimas condições de negociação, dado a fragilidade e dependência do México. Ele sabe que com os chineses o jogo será bem diferente.

 
Se essa ação tomada por Trump for estendida a todos seus parceiros com os quais tem déficit comercial, onde os principais são: China, Alemanha e México, haverá no curto prazo um deslocamento de preços dos produtos que são trocados entre esses países. Uma forma imediata de compensar essa alíquota seria a desvalorização da moeda desses países. Das 3 nações apontados, somente o peso mexicano se desvalorizou significativamente.

Nos dois próximos gráficos podemos verificar o movimento contrário entre o peso mexicano e o real. Segundo esse método o peso mexicano está subvalorizado enquanto o real sobre valorizado.


A seguir, o real encontra-se em situação inversa, dado a recente valorização de nossa moeda, impulsionada por fatores internos e também externos. Desta forma, em termos relativos, os produtos brasileiros ficaram muito caro para os mexicanos enquanto os produtos mexicanos ficaram muito barato para os brasileiros. Esse é um subproduto da guerra travada pelos EUA com o México.

 
Se Trump resolver levar a ferro e fogo suas promessas de impor tarifas aos países que “roubaram” os empregos dos americanos, pode-se esperar uma elevação da volatilidade nos mercados de câmbio, pois é por onde se pode ter um alívio dos futuros aumentos de alíquotas de importação. Ou seja, é pelo câmbio que os exportadores poderão manter parte de suas margens.

Agora, e se esses países resolveram adotar a mesma política e aumentar suas alíquotas de importação para os produtos americanos? Dependendo da importância e da elasticidade desses produtos, poderá haver um movimento cambial em sentido contrário. Meio confuso, não é? Bastante, mas essa é a personalidade de Trump, uma pessoa levada pela emoção e que, independente de quaisquer consequências, quer ganhar a batalha.

Se essa política míope de acreditar que agindo assim irá aumentar o emprego nos EUA, o que não necessariamente é verdade, uma coisa é clara, a inflação vai subir ao redor do mundo, e não era essa a inflação que os bancos centrais estão querendo.

Os países que mergulharam de cabeça em projetos para buscar a expansão de suas exportações baseada em fundamentos válidos do ponto de vista econômico, a regra simples que deveriam seguir é a de não depender de um só cliente, nesse caso, de um só país. A China se apercebeu disso e nos últimos anos diversificou bastante seus mercados, inclusive, hoje, a Europa é mais importante que os EUA.

No post jogando-na-defesa, fiz os seguintes comentários sobre o euro: ...” No momento não tenho nada a sugerir, e apenas indicativamente, se o euro ultrapassar 1,09, o processo de queda será postergado. Por outro lado, uma queda abaixo de 1,05 deverá desta vez levar o euro para a paridade, ou quem sabe, abaixo disso” .... Desde essa última atualização, a moeda única vem subindo de forma lenta.


Eu destaquei esse último movimento de alta que é típico de uma correção “chata”, dá 2 passos para frente e 1 a 1 ½ passo para trás, ficando difícil qualquer estratégia ganhadora. Os níveis apontados no gráfico merecem uma tentativa de trade. Proponho a venda de ½ a 1,0825 e a outra metade a 1,0935, com um stoploss a 1,105.


É uma tentativa sem um alto grau de convicção, principalmente no stoploss, que deveria ser colocado no nível de 1,13. Mas, não estou disposto a arriscar tanto. Por outro lado, pode ser que nem chegue lá. Caso esse último cenário aconteça, não vou ter nenhum problema de vender o euro a níveis inferiores; mas claro, terei um grau de convicção maior.


O SP500 fechou a 2,294, sem variação; o USDBRL a 3,14, com queda de 1,18%; o EURUSD a 1,0694, com alta de 0,13%; e o ouro a US$ 1.191, com alta de 0,23%.
Fique ligado!

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