2020: O risco vai compensar?

10 de dezembro de 2019

"Escadas de risco"



Os investidores demoram para efetuar mudanças estruturais em seus investimentos, normalmente se acostumam com a oscilação de seu portfolio e convivem bem desta forma. Em situações de elevação da volatilidade, alguns pulam fora do barco, o que pode ser uma ação correta. O que acaba não acontecendo na maioria das vezes, é que cessado o efeito, deveriam retornar.

O Mosca vem enfatizando nos últimos dois anos que a moleza do ganho no CDI estava terminando. Porém, principalmente em 2019, fui mais enfático sugerindo que novos caminhos precisam ser enfrentados pelos investidores. Como comentou um leitor do Mosca o retorno da renda fixa caiu a 1/3 do que era no passado.

No passado mais longínquo ocorreram momentos semelhantes ao atual, porém, depois de algum tempo, as taxas de juros voltaram a subir, fazendo que não fosse necessárias grandes mudanças. Agora parece ser diferente, com uma gestão voltada a resolver os problemas financeiros do governo, a equipe econômica está no caminho de tornar esse novo momento mais definitivo. Sendo assim, é desejável que uma reconstrução do portfólio seja executada, e para tanto, os investidores terão que optar por novos caminhos.

Eu sugiro que cada um faça esse movimento de forma gradual para que possa se aclimatar e conhecer as várias classes de investimento. A esse movimento eu denomino a galgada da pirâmide do risco, onde da base (mais conservador) siga-se por etapas, como se fossem “escadas do risco”. Cada perfil deverá parar numa altura correspondente a sua tolerância a perda, é essa a pergunta que você deve fazer ao profissional que acompanha seus investimentos. Não se leve por quanto você pode ganhar, mas quanto pode perder.

Todo final de ano o Mosca busca um Tema para o ano seguinte. Para 2020 não vou usar as grandes questões do mercado das quais poderia enumerar: O que Fed vai fazer com os juros?; quem será o novo Presidente dos EUA; A China e o EUA chegarão num acordo? A Europa vai se recuperar? A tão temida recessão vai acontecer? A economia brasileira vai crescer mais que 2%; A Argentina vai entrar em moratória? O Irã vai atrapalhar nossas vidas? E diversos outros. Não que esses assuntos nãos sejam importantes, são é muito, mas vamos trata-los conforme o ano decorre. Minha dúvida em relação aos investimentos é se os mercados de risco irão compensar o retorno, sendo assim, optei pelo Tema: O risco vai compensar?

O investimento de parte dos recursos na bolsa será inevitável na carteira de todos os brasileiros, a dúvida é se a alocação será de 1% ou 90%, que vai depender do perfil de cada um, e do tempo, pois, conforme as condições econômicas e financeiras do país permanecem estáveis, maior essa parcela.

Como alocar na bolsa será uma jornada, quanto mais informações e vivencias acontecerem maior a chance de sucesso de cada um. O mercado americano é bastante maduro, sendo assim, recomendo que os leitores acompanhem o que acontece por lá, pois aqui, em algum momento irá ocorrer também. Um artigo publicado pela Bloomberg aponta para resultados impressionantes quando se compara o retorno da ação de uma empresa em relação ao índice mais divulgado do mercado americano, o SP500.

Nos últimos dois anos, apenas uma em cada cinco ações conseguiu superar o S&P 500. Esse gráfico foi elaborado pelo estrategista chefe, Andrew Lapthorne, do Banco Societe Generale.


Isso deixa brutalmente claro as dificuldades dos gestores de fundos ativos, julgados hoje em dia contra a crescente maré de dinheiro que flui para os fundos de índice passivos. Como apontou Lapthorne, as ações do SP 500 têm a vantagem de poder ser protegido com facilidade usando derivativos, além da proteção do Federal Reserve, que parece determinado a não permitir uma grande queda.

Herndrick Bessembinder, professor as Caery School of Business, também publicou algumas pesquisas sobre as chances de ações individuais vencerem o SP 500 e, a longo prazo, mostra que o fenômeno é ainda mais agudo. Vencer o SP 500 é o menor dos problemas deles. Das ações disponíveis para compra e, desde 1990, 56% das ações dos EUA e 61% das ações do resto do mundo não conseguiram superar o retorno da renda fixa - como representado pelo retorno dos títulos do Tesouro de um mês. Enquanto isso, os 1,3% de empresas com melhor desempenho representaram todos os US $ 44,7 trilhões na criação de riqueza no mercado de ações global de 1990 a 2018. Fora dos EUA, menos de 1% das empresas representam US $ 16 trilhões em criação de riqueza líquida durante esse período.

O fenômeno remonta ainda mais. Para os EUA, Bessembinder e seus colegas analisaram quantas ações venceram as letras do tesouro ao longo da vida, a partir de 1926. Eles descobriram que quatro em cada sete ações comuns no banco de dados do Chicago Center for Research, desde 1926, não conseguem ultrapassar o retorno do título americano, o equivalente ao nosso CDI. Em outras palavras, os 4% com melhor desempenho das empresas listadas explicaram todo o ganho líquido do mercado de ações dos EUA desde 1926. Todos os outros entre eles não fizeram mais do que igualar a retorno das letras do tesouro (CDI americano).

De uma maneira mais técnica, os gestores enfrentavam uma distribuição clássica difícil, com caudas muito grossas - grandes proporções de seus investimentos em potencial se saindo muito melhor ou muito pior do que a média.


Peter Lynch, o lendário gestor de fundos, costumava falar em procurar “ten-baggers” - empresas que multiplicaram 10 vezes. Este gráfico mostra que foi sensato. Há um grande número de “ten-baggers” a serem encontrados, mesmo sendo uma pequena proporção do universo de oportunidades. Mas não é tanto que encontrar uma “ten-baggers” o fará rico, é que, a única maneira de obter um desempenho significativamente melhor do que o dinheiro (CDI) é encontrar alguns “ten-baggers”.

Esses resultados sugerem que o investimento ativo é um trabalho terrivelmente difícil.

Se pensássemos nos gestores ativos como jogando dardos para escolher suas ações, muito mais de 90% daqueles que eles poderiam acertar aleatoriamente deixariam de dar um retorno melhor do que os títulos do governo. Gestores ativos que até conseguiram ganhar dinheiro com o tempo fizeram um trabalho decente.

Não conheço nem trabalho semelhante da bolsa brasileira, mas imagino que algo semelhante deve ter acontecido, ou irá acontecer no futuro.

O que podemos tirar de ensinamento deste estudo: Primeiro que os gestores ativos dificilmente conseguem retornos com consistência superiores ao seu benchmark; se você não entende muito de bolsa e quer ter exposição é melhor investir num fundo passivo (ex: BOVA11), do que buscar a tacada da vida. Se mesmo assim pretende ser ativo na bolsa, tenha em mente que para cada um acerto, irão existir 9 erros. Desta forma, use stoploss para preservar seu capital no longo prazo.

No post bom-para-os-dois fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa: ... “Conforme indiquei acima, no intervalo contido entre 105.000 e 109.500, a bolsa pode estar negociando (corrigindo) para iniciar um novo movimento de alta, é nesse cenário que estamos acreditando em nossa posição” ...

Na semana passada a bolsa rompeu o nível de 110 mil e agora caminha para seu novo objetivo ao redor de 120 mil. Se tudo correr bem, isso deverá ocorrer dentro de algumas semanas. De maneira preventiva, vamos subir o stoploss para 105.500.

Amanhã tanto o Fed como o BCB se reúnem para definir sobre taxa de juros. Nos EUA é aguardado uma manutenção dos níveis atuais enquanto aqui no Brasil uma queda de 0,50% na taxa SELIC. Em ambos os casos, o comunicado será aguardado com expectativa.

O SP500 fechou a 3.132, com queda de 0,10%; o USDBRL a R$ 4,1467, com alta de 0,11%; o EURUSD a 1,1094, com alta de 0,30%; e o ouro a U$ 1.461, com alta de 0,17%.

Fique ligado!

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