Nunca se apaixone por um investimento #IBOVESPA

 


Ao longo de décadas acompanhando os mercados, aprendi que as piores decisões financeiras raramente nascem da ignorância — nascem da emoção. Lembro de situações em que me deixei conduzir por entusiasmo, por uma narrativa sedutora, por aquele sentimento de que "dessa vez é diferente". Em todas elas, sem exceção, a conta foi paga com prejuízo. Quando o mercado se voltava contra minha posição, em vez de acionar um "stop" e encerrar a história, eu buscava justificativas para permanecer. A tese original já não existia mais, mas eu insistia — estágio clássico da negação.

Joe Wiggins, do blog Behavioural Investment, comentou recentemente um estudo acadêmico de enorme relevância para qualquer investidor que se leve a sério. A pesquisa, conduzida por Elroy Dimson, Kuntara Pukthuanthong e Blair Vorsatz, analisou o desempenho de 13 categorias de ativos colecionáveis ao longo de até 110 anos, comparando-os com portfólios líquidos de risco equivalente. O resultado é inequívoco: os colecionáveis ficaram, em média, 2,5% ao ano abaixo dos ativos financeiros tradicionais. A explicação dos pesquisadores está no conceito de "rendimento emocional" — o prazer ou o prestígio social que o ativo proporciona ao seu dono. Quem o possui aceita, consciente ou não, um retorno financeiro menor em troca dessa satisfação não monetária.

O gráfico abaixo, extraído do estudo, ilustra a volatilidade do rendimento emocional ao longo do tempo em diversas categorias — de vinhos finos a selos britânicos, de violinos a pinturas. A linha azul representa a média: positiva, porém modesta, e insuficiente para compensar o custo de oportunidade frente a ativos líquidos.

 

Rendimento emocional (%) por categoria de colecionável ao longo do tempo — Fonte: Dimson, Pukthuanthong e Vorsatz

O raciocínio é elegante: se um ativo me proporciona prazer — seja contemplar uma tela na parede da sala, seja exibir um carro clássico na garagem — naturalmente exijo menos retorno financeiro dele. O problema é que a maioria dos investidores não faz esse cálculo conscientemente. Compram acreditando que obterão tanto o prazer quanto o ganho, quando na prática pagam pelo primeiro com a ausência do segundo.

O estudo também toca em uma questão que merece atenção: os objetos de coleção perdem ainda mais sentido quando fracionados digitalmente. Se um quadro valioso é tokenizado e passa a ser detido em frações, o investidor suporta o ônus do retorno inferior sem desfrutar do benefício emocional — afinal, a tela não está na sua parede. Paga-se o preço sem receber a contrapartida. É a pior das combinações.

Wiggins vai além dos colecionáveis e questiona se o mesmo princípio se aplica ao investimento com critérios ambientais, sociais e de governança, que dominou o noticiário financeiro por alguns anos. Quem ainda se lembra dessa onda? Empresas "politicamente corretas" em relação ao meio ambiente captavam recursos a custos menores, justamente porque os investidores aceitavam rentabilidades reduzidas em troca de se sentir bem com suas escolhas. Hoje, o tema praticamente desapareceu dos portfólios e das conversas. O rendimento emocional se dissipou — e o retorno financeiro baixo ficou.

Há ainda o lado inverso da moeda: os ativos que o investidor simplesmente se recusa a ter em carteira, por aversão emocional ou por convicção ideológica. Wiggins sugere que esses ativos podem embutir um prêmio de risco adicional, justamente por serem evitados por parte do mercado. Quando li essa reflexão, fui honesto comigo mesmo: acreditava não ter restrição alguma, pois me considero aberto ao que os números mostram. Mas logo veio à mente o bitcoin. Tenho um racional estruturado sobre criptomoedas que exponho aqui, e meus leitores sabem que não faço sua defesa. Mesmo assim, me disponho a analisá-lo tecnicamente — porque a disciplina precisa ser maior do que a preferência pessoal.

É exatamente esse ponto que considero central: depois de meio século nessa área — sendo os últimos 25 anos dedicados à análise técnica sistemática de ativos — essa disciplina passou a funcionar como um filtro contra o encantamento. Antes de entrar em qualquer investimento de maior risco, quero ver o gráfico. Se ele não existe, se os dados são inconsistentes ou se o comportamento do ativo contraria o que busco, simplesmente não entro. Não importa quão boa seja a narrativa, quão convincente seja quem está "vendendo" a ideia.

E quem está vendendo tem sempre bons argumentos. Esse é o ponto de alerta. Narrativas sedutoras existem para todos os gostos — tecnologia disruptiva, ativos alternativos, modelos de negócio revolucionários. O problema não está na inovação em si, mas na disposição de aceitar retornos menores — ou riscos maiores — sem perceber que se está sendo conduzido pela emoção.

O conselho que fica, destilado de décadas de observação e de alguns erros que custaram caro: não se apaixone por nenhum investimento. Aprecie a obra de arte na parede, o vinho na taça, a narrativa bem construída — mas mantenha o racional separado do emocional na hora de alocar capital. O mercado cobra caro por qualquer confusão entre os dois.

 

Análise Técnica

No post "a-ilusão-do-crescimento", fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

"Nesta última semana, a bolsa ficou na defensiva, sem indicar, contudo, que houve reversão de tendência. O gráfico abaixo, com janela diária, ainda aponta a possibilidade de novas altas no curto prazo, rompendo a barreira dos 200 mil."



Ao reler aquele comentário, percebi que algum leitor poderia ter interpretado que eu acreditava em nova alta imediata — embora tenha enfatizado o "pode haver" e a necessidade de romper a barreira dos 200 mil, o que não ocorreu. Tampouco sugeri qualquer operação de compra.

Ao analisar a bolsa nesta última semana, fiquei na dúvida entre duas hipóteses: se a contagem está correta e estamos entrando num longo período de correção da onda 4 verde, ou se seria necessário considerar mais uma subdivisão das ondas de menor grau para encaixar uma nova alta da onda 3 verde, que ainda estaria em andamento.



No momento, não é possível afirmar em qual das opções estamos — as duas são plausíveis. Optei por manter a contagem que vinha seguindo. Os argumentos:

A onda 5 azul foi exatamente até onde deveria ir — a "tecnicidade" se confirmou. No gráfico são visíveis dois objetivos: 198,6 mil e 203,7 mil; o primeiro é o mais relevante e foi precisamente onde essa onda parou.

Na segunda hipótese, a onda 4 azul teria de ser deslocada mais para a direita, ficando excessivamente alongada em termos de tempo em relação à onda 2 azul — o que mostro com as duas elipses laranja no gráfico.

A onda 4 verde pode oscilar na área demarcada pela elipse, configurando um triângulo — mas, nesse caso, deverá permanecer ali por um bom tempo. Em Elliott Wave, o tempo não é bem definido; uso esse critério com parcimônia, mas existe o "right look", segundo o qual as ondas 2 e 4 tendem a ter durações semelhantes — o que nem sempre se verifica na prática.

Saberemos nos próximos dias qual das duas hipóteses irá prevalecer. Se, nesse ínterim, o índice ultrapassar a máxima de 200 mil, a segunda opção se confirmará com segurança.

O S&P 500 fechou a 7.136, sem variação. Como havia comentado ontem resolvi liquidar a posição no fechamento e manter a da na nasdaq100 subindo o stop loss para o nível de entrada; o USDBRL a R$ 5,0226, com alta de 0,52%; o EURUSD a € 1,1675, com queda de 0,32%; e o ouro a U$ 4.544, com queda de 1,12%.

Fique ligado!

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