O novo "patrão" do Fed #OURO #GOLD #S&P 500

 


O presidente Trump tem um padrão de comportamento que já se tornou previsível: escolhe alguém de fora do sistema, com perfil de executivo agressivo, e aposta que essa figura vai dobrar uma instituição que, na prática, não se dobra facilmente. Aconteceu com Elon Musk no Departamento de Eficiência Governamental — prometeu cortar um trilhão de dólares, saiu pela culatra, e a experiência mostrou que máquinas públicas têm sua própria inércia. Agora é a vez de Kevin Warsh no Federal Reserve.

A ideia de Trump é simples: colocar um aliado na cadeira de presidente do banco central americano e forçar uma queda de juros, independentemente do que os dados econômicos recomendem. Aprendeu no mercado imobiliário que juro baixo é bom para negócios — e generalizou essa lição para toda a política monetária de uma das maiores economias do mundo. Acontece que o Fed não é uma incorporadora.

Warsh é, sem dúvida, um perfil incomum para a cadeira. Declarou patrimônio de cerca de 100 milhões de dólares e é casado com a herdeira do grupo Estée Lauder. Os demais membros do comitê, em sua maioria economistas com trajetória acadêmica, acumulam fortunas estimadas entre um e dez milhões de dólares — uma fração disso. Essa disparidade não é irrelevante: ela cria uma dinâmica psicológica que poucos têm analisado com a devida profundidade.

Minha experiência de meio século no mercado financeiro me leva a uma leitura que ainda não vi circular nos grandes veículos: Warsh provavelmente acredita que pode conduzir o comitê pela força de sua posição, como um executivo que dita diretrizes a uma equipe hierarquicamente subordinada. Esse modelo funciona em empresas. No Fed, não. Os membros do comitê têm mandatos independentes, são pessoas que construíram reputações técnicas ao longo de décadas e não devem lealdade política a ninguém. Warsh vai se deparar com um ambiente onde o argumento técnico vale mais do que o título.



A reunião de ontem do Comitê Federal de Mercado Aberto já antecipou o ambiente que espera Warsh. Quatro dissidências — o maior número desde 1992 — num único encontro. Powell confirmou que permanecerá como membro do conselho de governadores por prazo indefinido, invocando os ataques legais sem precedente que o governo Trump promoveu contra a instituição: investigações criminais sobre reformas no prédio do banco, tentativa de demissão de um governador que agora está no Supremo Tribunal. Powell foi direto: ficou porque, nas suas palavras, não tinha escolha diante da ameaça ao funcionamento independente da política monetária.

Três presidentes regionais — Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas) — votaram para remover o chamado viés de afrouxamento da declaração do comitê, sinalizando que a próxima movimentação de juros pode ser tanto uma alta quanto um corte. No outro extremo, o governador Stephen Miran, indicado por Trump, votou por uma redução imediata. Seu mandato vai apenas até o final deste ano — e com Powell permanecendo no conselho, o governo perde a vaga que contava usar para nomear um substituto simpático à sua agenda



O pano de fundo que torna tudo isso ainda mais complexo é o choque energético em curso. O Estreito de Ormuz permanece fechado. O petróleo Brent ultrapassou 120 dólares por barril — o nível mais alto desde o início do conflito. Os rendimentos dos títulos de dez anos subiram, os gilts britânicos romperam 5% pela primeira vez desde 2008, o iene japonês chegou a 160 por dólar. São sinais clássicos de alarme inflacionário. O mercado passou dois meses precificando três cortes de juros para 2026; hoje os contratos futuros já não esperam nenhum. 



Nesse cenário, Warsh herda um comitê dividido, pressionado por um choque de oferta que empurra a inflação para cima e o crescimento para baixo ao mesmo tempo — a combinação mais difícil para qualquer banco central administrar. A inflação subjacente ainda corre perto de 3%, os efeitos das tarifas do ano passado continuam se propagando pelos preços ao consumidor, e agora a energia joga mais combustível na fogueira.

Para complicar ainda mais, a economista Claudia Sahm levantou uma questão que merece atenção: Warsh é um crítico vocal da forma como o Fed trata o mandato de pleno emprego, mas nunca apresentou sua própria definição do que seria esse pleno emprego. Sabe-se o que ele é contra; ignora-se o que é a favor. Num momento em que a oferta de trabalho encolhe por conta de imigração reduzida e envelhecimento populacional, e a inteligência artificial ameaça remodelar estruturalmente o mercado de trabalho, essa lacuna é preocupante.



Há ainda o argumento que Warsh tem repetido para justificar cortes: a inteligência artificial aumentará a produtividade e pressionará a inflação para baixo, portanto, o Fed deveria agir de forma antecipada. O ex-presidente do Fed de Nova York, Bill Dudley, desmontou esse raciocínio com precisão cirúrgica: o boom de investimento em inteligência artificial, até agora, teve efeito oposto — turbinou a demanda por trabalhadores de construção, por semicondutores, por infraestrutura. Cerca de quatro em cada cinco economistas consultados preferem esperar os efeitos se materializarem antes de alterar a política monetária.

O mercado de ações, curiosamente, parece ter feito as pazes com o conflito. Desde que o petróleo atingiu seu pico anterior em março, o S&P 500 avançou 13%, mesmo com o Brent voltando ao mesmo nível. As medidas de volatilidade de ações e títulos retornaram aos patamares pré-guerra. Pode ser maturidade dos investidores. Pode ser excesso de confiança. Tenho minhas dúvidas sobre qual das duas hipóteses prevalece.



Warsh vai entrar num ambiente que não conhece. O Fed não é uma empresa onde o presidente define a estratégia e a equipe executa. É uma democracia técnica — com votos, mandatos, reputações construídas ao longo de décadas e total independência em relação ao poder político. Construir consenso nesse ambiente exige paciência, argumentação sólida e, acima de tudo, humildade intelectual.

Vamos ver quanto tempo ele aguenta ser um peixe fora da água.


Análise Técnica

No post “Fed sob nova direção”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

“Formações em triângulo são chatas mesmo — vai para cá, vai para lá e parece que não sai do lugar. A título informativo, a onda B laranja deveria alcançar US$ 4.968 / US$ 5.234 para, em seguida, voltar a cair na onda C laranja.”



A hipótese de o ouro estar formando um triângulo segue dentro do esperado. Como mencionado, formações de triângulo são particularmente desafiadoras — e testam a paciência de qualquer operador.

— David, fiz uma conta por cima e, se o ouro ficar dentro dessa área, há pelo menos 10%, podendo chegar a 15% de ganho nos extremos. Não vale uma aposta?

Sua afirmação é verdadeira, desde que seja mesmo um triângulo. Em todo caso, anotei o comentário — quem sabe...



Em relação ao euro, comentei:

“A cotação atual está abaixo de € 1,17 e, para que a estratégia de alta seja confirmada, precisaria reagir de imediato. Caso € 1,1628 seja rompido, vai por água abaixo a minha hipótese.”



Passada uma semana, a cotação se encontra praticamente no mesmo nível, deixando pouco a acrescentar. O que se pode dizer é que houve uma pequena janela para subir — e o euro não conseguiu aproveitá-la, o que torna a hipótese de alta um pouco mais frágil.

Se o euro romper € 1,1628 e, principalmente, € 1,1404, pode-se dar adeus aos objetivos de alta.



Ontem saí da posição no S&P 500 por dois motivos: a preocupação com os resultados concentrados de quatro grandes empresas e os possíveis resquícios da reunião do Fed. Como nenhum dos dois fatores se mostrou um problema, reentrei na posição pela manhã — o mercado me deu a oportunidade de voltar no mesmo preço.

— Epa, David, virou day trader?

Nem de longe. Quando o mercado oferece a chance de corrigir uma saída precipitada — seja por arrependimento, seja para dissipar uma dúvida — o operador experiente não hesita em voltar. Perder o ponto de reentrada por pudor é um erro tão grande quanto ter saído sem motivo. Não se esqueça: meu cenário para a bolsa continua sendo de alta.

O S&P 500 fechou a 7.209, com alta de 1,02%; o USDBRL a R$ 4,9734, com queda de 0,94%; o EURUSD a € 1,1731, com alta de 0,49%; e o ouro a U$ 4.6161, com alta de 1,61%.

Fique ligado!

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