Juventude for ever #IBOVESPA
Meu pai, na minha
idade, já não tinha nenhuma atividade profissional. Não que ele fosse diferente
dos outros — o mundo era assim naquela época. Alguém com cinquenta anos era
velho na acepção da palavra, ponto final. Se eu me transportasse para aquela
data, vocês não teriam o Mosca. No máximo me encontrariam num bar, contando
histórias de mercado para quem quisesse ouvir.
Mas a evolução
nessa área surpreendeu qualquer previsão. Não só ficamos mais jovens — parecemos
mais jovens. É verdade que muita coisa contribuiu para isso: os tratamentos
para melhorar a aparência, o cuidado com a saúde e os avanços da medicina
fizeram a sua parte. O resultado, porém, vai além da estética. É funcional,
cognitivo e econômico.
A tese central é
simples e contraintuitiva: viver mais não é sinônimo de trabalhar menos. Desde
2000, a expectativa de vida nas economias desenvolvidas cresceu 5% — de 78 para
82 anos. No mesmo período, a vida útil efetiva no mercado de trabalho cresceu o
dobro: 12%, de 34 para 38 anos. O índice de dependência, aquele que mede a
proporção de inativos sobre o total da população, não subiu. Caiu.
É um resultado
que contradiz décadas de projeções pessimistas e que, curiosamente, ocorreu sem
que os governos precisassem forçar a mão — a extensão das carreiras está
acontecendo de forma espontânea, como resposta adaptativa à longevidade, e tem
muito mais correlação com o aumento da expectativa de vida do que com mudanças
nas leis de aposentadoria.
E tem mais. Um
estudo do FMI baseado em quase um milhão de observações de indivíduos com mais
de 50 anos em 41 países chegou a uma conclusão que vale repetir com calma: uma
pessoa de 70 anos em 2022 tinha a mesma capacidade cognitiva de um indivíduo de
53 anos em 2000. Do ponto de vista físico, a equivalência era com alguém de 56
anos. Em outras palavras, não estamos apenas vivendo mais — estamos
envelhecendo mais devagar.
Essa distinção
importa mais do que parece. A maioria dos estudos sobre o impacto econômico do
envelhecimento assume que os anos extras de vida são acrescidos no final, como
uma extensão da velhice. O que os dados mostram é diferente: todas as fases da
vida estão se alongando — a juventude, a maturidade e a terceira idade. Não é
uma fila maior no caixa da previdência. É uma vida inteira redistribuída no
tempo.
Vale registrar
que a fronteira da longevidade — o país com maior expectativa de vida em cada
época — segue uma tendência linear há mais de 150 anos, ganhando cerca de 0,25
anos por ano sem sinais de desaceleração. Em 1925 era a Austrália, com 63 anos.
Em 1975, a Islândia, com 75. Hoje é Hong Kong, com 86. Cada geração que previu
um teto para a vida humana foi desmentida pela seguinte.
Mas o Yardeni
Research acrescenta uma camada que o Goldman não explora diretamente: o que
essa longevidade produtiva faz com o consumo. Os chamados Baby Boomers — a
geração que hoje comanda o maior estoque de riqueza privada da história,
estimado em quase 90 trilhões de dólares só nos Estados Unidos — não pararam de
gastar quando se aposentaram. Pelo contrário. Gastam em viagens, em saúde, em
restaurantes, em reformas de casa. E quando não conseguem arcar com os filhos
adultos que voltaram a morar com eles, transferem parte dessa riqueza para
baixo, sustentando o consumo das gerações mais jovens que enfrentam uma crise
real de acessibilidade.
A narrativa da
economia em "K" — onde só os ricos consomem — não se sustenta diante
dos dados. O que existe é uma economia em "G", onde os mais velhos e
abastados funcionam como âncora de todo o sistema. Eles gastam de cima. E
transferem recursos para que os de baixo também gastem. Isso explica a
resiliência do consumo nos países desenvolvidos diante de cenários que, na
teoria, deveriam ter provocado recessão.
Por ora, posso
dizer com alguma autoridade que a remodelagem foi impressionante — mas, para
ser completa, ainda faltam algumas peças de reposição: um coração
zero-quilômetro, um joelho novo em folha, uma troca de pele. Porque o taxímetro
anda, e a biologia, por enquanto, ainda não leu o relatório do Goldman Sachs.
Mas pensando bem,
talvez a biologia não precise ler o relatório. Recentemente o Wall Street
Journal trouxe uma reportagem sobre executivos que já resolveram o problema de
outra forma: criaram réplicas digitais de si mesmos — alimentadas com anos de
produção escrita, voz e estilo — para continuar representando-os em reuniões,
apresentações e decisões de rotina. Um gêmeo que não precisa de joelho novo nem
de troca de pele.
Se um dia o
taxímetro parar de vez, o Mosca pode continuar. Só não me perguntem se ainda
vai ter opinião própria.
Análise Técnica
No post "5%-onde-o-fantasma-vira-pesadelo" fiz os seguintes comentários sobre o
IBOVESPA:
"Do ponto de
vista técnico, com a mínima nessa queda atingindo 173,5 mil, pode ser a mínima
("pode" grifado). Pode a onda 4 verde ter terminado? Muito
pouco provável. Se minha opção de triângulo se confirmar — e isso só saberemos
com o passar do tempo — esperem oscilações para cima e para baixo dentro do
intervalo entre 173,5 mil e 200 mil: um intervalo de 15%"
Essencialmente,
se os mercados emergentes forem desmembrados de seus três principais
indicadores de IA, o grupo retorna ao ponto em que estava imediatamente após o
Dia da Libertação, no ano passado. Não há como prever até onde o mercado de IA
ainda pode crescer. Ainda assim, a dependência dessa narrativa ressalta o
quanto os mercados emergentes passaram a depender da tecnologia. As ações de
semicondutores e equipamentos para chips são compreensivelmente populares e
superaram em muito até mesmo os EUA, com a ajuda de empresas como a Taiwan Semicondutor
Manufacturing Co. (TSMC).
Outro assunto
referente ao Lula, que me foi relatado por um amigo com penetração no PT: diz
que ele está muito doente. Se se lembrarem, alguns anos atrás foi identificado
um câncer na laringe do qual ele se recusou a fazer tratamento. Segundo a
fonte, esse câncer está avançando e vai debilitá-lo na campanha — somado à
radioterapia anunciada, que terá um efeito ainda maior. A conferir.
Tecnicamente, o
Ibovespa se encontra em situação perigosa. Como podem observar no gráfico a
seguir, as ondas identificadas em laranja estão prestes a completar 5 ondas.
Caso complete, deveria terminar ao redor de 160 mil ou mais abaixo,
aproximadamente em 152 mil.
Qual a implicação
dessa hipótese? Significa que a correção será demorada — vários meses — e
profunda. Isso na melhor das hipóteses, pois na pior a alta que vem desde 2015
terá que ser reestudada e um longo período de baixa se inicia. Nessa opção mais
negativa, o nível de 120 mil deve ser rompido. Para a opção acima se manter, a
bolsa deveria subir e ultrapassar 184,5 mil.
Você mais do que ninguém sabe das minhas restrições ao Ibovespa: sempre frisei que as ondas nesse ativo tinham mais a característica de correções do que impulsivas em janelas maiores. Em janelas menores podemos até ficar esperançosos, mas não se pode perder essa observação. Por enquanto não mudei nada — só apontei os riscos que existem caso continue caindo.
Let The Market Speak
O S&P 500
fechou a 7.519, sem alteração; o USDBRL a R$ 5,0744, com alta de 0,59%; o
EURUSD a € 1,1627, sem variação; e o ouro a U$ 4.449, com queda de 1,28%.
Fique ligado!
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