Inflação: A Revanche

25 de fevereiro de 2015

O Compromisso é sempre com o bolso

Honestamente eu fiquei surpreso, com alguns leitores que me enviaram ontem à noite, a informação que a Petrobrás tinha perdido o grau de investimento. Esperavam que hoje seria um dia horrível no mercado de câmbio e bolsa. Eu respondi com os seguintes comentários: ..."Puxa até que enfim" ... "quem não esperava que isso fosse acontecer" ... "Eu acredito que já está no preço"... Para quem acompanha os mercados internacionais, já sabe que, os títulos dessa Companhia eram negociados com taxas de 9% a.a., em dólares, antes desse anuncio. Assim, eventuais emissões de títulos da Petrobras estão fechadas por enquanto, e o rebaixamento confirma o que o mercado já sabe há um bom tempo.

Não estou vendo desastre nenhum por enquanto, afinal o mercado assume que a Petrobras é quase um risco soberano, e que o governo interviria numa situação de stress. E não me entendam mal, não estou defendendo a Companhia, nem acho que é uma boa notícia. Se não existisse essa assunção pelo mercado, ela já teria quebrado. Por enquanto, na margem ela melhorou quando comparada há dois meses, primeiro que mudou a equipe, que pode não ser a ideal, mas é sangue novo; segundo que com a queda do preço internacional do petróleo seu caixa e resultados estão subindo.

Vale lembrar os eventos corridos em 2008, onde várias empresas tiveram problemas muito sérios, algumas até quebraram, como o Banco Lehman Brothers, e as agências de risco rebaixavam os créditos das mesmas tarde demais.

Todo mês, quando são publicados os dados cambias, eu faço uma análise, afinal é aí que todas as atenções devem-se voltar, pois dependemos muito do fluxo internacional de recursos. Como vêm acontecendo desde de 2008, o Brasil apresenta déficit em suas transações correntes e em janeiro não foi diferente, com um resultado de US$ 10,7 bilhões, acumulando em 12 meses US$ 90,4 bilhões. Para financiar, destaca-se a entrada de US$ 9,7 bilhões em investimentos em carteira, notadamente em renda fixa. Já os investimentos diretos sofreram um pequeno recuo para US$ 4,0 bilhões, acumulando US$ 61,3 bilhões em 12 meses.


A balança comercial, que no passado longínquo era superavitária, vem registrando deficit seguidos, e pior, crescentes. No mês de janeiro atingiu US$ 3,2 bilhões. A conta de serviços teve uma elevação frente ao mês anterior para U$ 3,6 bilhões, não apresentando nenhuma melhora no item viagens internacionais, que mesmo com a alta do dólar continuou subindo, atingindo US$ 1,7 bilhão. A conta de rendas, apresentou uma leve diminuição para US$ 4,0 bilhões, basicamente pelo recuo da Remessa de lucros e dividendos.

Quando estava lendo pela primeira vez este relatório, tive a confirmação que a situação cambial brasileira continua ruim, e não vejo como pode melhorar no curto prazo. Imaginei que o balanço de pagamentos, que é o resultado final de entradas menos saídas, desta vez seria negativo, mas não foi! Com um saldo marginal positivo de US$ 562 milhões. É verdade que as reservas internacionais recuaram US$ 1,7 bilhão totalizando agora US$ 372 bilhões, muito mais por variações na paridade do estoque de ativos, provavelmente espelhando a queda do euro, do que de saídas.

E agora José, quem pode me dar uma boa explicação do porque nossas reservas não recuam?
Resposta: O bolso, entenda-se os juros que estamos pagando!

Fiquei pensando como poderá ser a liquidação desta montanha de swaps cambiais que se encontram na mão de investidores que compraram, ou buscando um seguro contra seus compromissos em dólares, ou os "especuladores". Uma coisa eu não tenho dúvidas, se não houver saídas de dólares, todo esse pessoal está na mão do BC, e para saírem, terão que se sujeitar ao preço que ele definir.

Vamos trabalhar com algumas hipóteses e inicialmente assumir que o BC vai continuar rolando a cada vencimento, os swaps.

Hoje acredito que todo mundo já sabe que o "dólar - dólar" virou a coqueluche do momento, afinal In God we Trust"!  Se o mundo não degringolar, em algum momento este movimento vai se estabilizar. Nesta hora um dos vetores que turbinaram a desvalorização do real cessará.

Nossa moeda ainda sofre o efeito que denominei de "Dilma", onde não faltou gasolina para a queda do real. Não vou nem elencar esses argumentos, pois congestionaria o Google! Hahahah .... Venho repetindo que, na margem as coisas estão melhorando, temos um Ministro "salvador da pátria", que vem implementando de forma cartesiana seu programa. Se vai conseguir, ou não atingir sua meta, ninguém sabe, mas que é muito melhor que o Mantega e Cia., não tenho dúvidas. Assim, é razoável supor, que a derivada segunda é positiva.

- David, aula de cálculo diferencial? 
Desculpe, extrapolei! Mas este conceito encaixa-se perfeitamente em meu raciocínio, e significa que, embora o movimento de uma variável ainda siga o seu rumo, na margem está desacelerando, e é uma questão de tempo para que reverta segunda derivada.

Continuando com meu pensamento, em algum momento o "dólar - dólar" vai parar e aqui dentro, do ponto de vista econômico, a situação para de se deteriorar. Veja, não estou nem assumindo que melhora. Do ponto de vista de fluxo internacional, se com tanta coisa ruim não houve saída, porque haveria daqui em diante, considerando o que expus acima? Vou considerar que ficará igual.

Aí vem a pergunta que todos, que estão comprados em dólar, devem se fazer? Para quem eu vou vender estes contratos?

Lembrei de dois momentos da minha vida profissional, um que eu já relatei no post 1989-quando-um-megaespeculador-quebrou, quando a Bolsa de Valores teve que fechar e intervir, para que não ocorresse uma quebradeira geral; e a outra quando Ibraim Eris era o Presidente do BC.

Naquela ocasião um grande Banco resolveu "peitar" o BC, na expectativa de elevar a cotação do dólar através do mercado de ouro. Eu já comentei anteriormente que, era o veiculo que existia na época para se proteger. O ouro seguia a cotação do câmbio negro e O BC tinha um estoque enorme de ouro. Esse Banco assumiu que conseguiria influenciar as cotações para cima e quando estivessem suficientemente elevadas, sairia da operação com um grande lucro. Porém não considerou que do outro lado, tinha um economista brilhante, e um "operador" astuto.

O BC usou uma estratégia pragmática, não vendeu o ouro de uma só vez, foi vendendo, conforme o preço subia, assim continuava com bala na agulha, enquanto o Banco tinha que todo dia comprar ouro de todos que queriam vender. Seu estoque foi subindo a níveis elevadíssimos com um custo alto para carregar suas posições. Acontece que o cenário que o Banco estava esperando, de deterioração interna, não aconteceu, e percebeu que estava encilhado, pois para sair da posição, faria o ouro derreter literalmente. Não teve jeito, foi pedir "pinico" ao BC que comprou sua posição por um preço módico, de liquidação!

Poderemos viver uma situação similar, embora neste caso algumas considerações se façam necessárias: primeiro que o "salvador da pátria" disse que não quer deixar o dólar artificialmente baixo; e não existe um único Banco que está comprado em dólares, são vários investidores. Mas tem um fator que é muito negativo para quem está comprado, não tem ninguém vendido em dólares, com exceção do BC, assim só ele pode dar liquidez.

É verdade que várias ponderações podem ser feitas em meu raciocínio, e pode ser que de repente os estrangeiros resolvam cair fora daqui, o que daria a liquidez desejada a esse grupo. Mas por enquanto o argumento de faturar 12,25% a.a. de juros está prevalecendo. A conferir!

E o SP500 nem nos deu uma chance de compra! No post métodos-inconvencionais, eu comentei: ... Se você quiser se aventurar num trade oportunístico, sugiro uma compra do SP500 entre 2.000/2.010, com um stop a 1.970. O objetivo, a ser melhor calculado adiante, é de aproximadamente 2.200 ...O que aconteceu depois desse dia? Nem deu bola para meu desejo e continuou a subir, conforme gráfico a seguir.
Agora não resta nada a fazer, a não ser acompanhar de camarote esse índice chegar naquele nível.


O SP500 fechou a 2.113, sem variação; o USDBRL a R$ 28745, com alta de 1,48%; o EURUSD a 1,1362, com alta de 0,20%; e o ouro a US$ 1.203, com alta de 0,33%.
Fique ligado!

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