Inflação: A Revanche

11 de dezembro de 2015

A "put" de Levy

Quando foi nomeado Ministro das Finanças pela Presidente Dilma, eu chamei Joaquim Levy de "Salvador da Pátria". O motivo, naquele momento, era muito claro, ele seria o único que poderia dar alguma credibilidade na área econômica. Entretanto, a deterioração política em curso é tão grande, que muito pouco do que ele propôs foi aprovado. Sendo assim, foi perdendo sua motivação e esperança de colocar a economia no rumo certo.

Ontem, ao ser questionado sobre o possível rebaixamento de nossa dívida, por duas agências de risco, declarou que esse rebaixamento, é o que a realidade aponta. Nitidamente, jogou a toalha! Também acrescentou que, caso o governo não implemente o superávit fiscal de 0,7% do PIB, que propôs para 2016, pediria demissão.

No mercado usou se por muito tempo o termo "Greespan call" e depois "Bernanke call". Entendia-se que, ambos os Presidentes dos FED, tomariam ações de política monetária, caso as bolsas americanas caíssem de forma mais perigosa, ameaçando o crescimento americano. Assim, os investidores poderiam aquirir ações que o FED "garantia".

Acredito que vocês conheçam a diferença entre uma call - opção de compra, e uma put - opção de venda. No primeiro caso o comprador tem direito a comprar uma determinada ação por um preço combinado, enquanto no segundo ele direito de vender esta ação por um preço determinado.

O meu ex-sócio, Ibrahim Eris, que foi Presidente do BCB, diz que é muito mais fácil entrar no governo do que sair, não depende muito de você e sim do Presidente permitir. O ex-"Salvador da Pátria" usou a tática de qualquer funcionário que deseja sair, pede algo que é impossível de conseguir, e aí não resta o que fazer senão ser demitido. Por isso denominei o seu pedido de aprovação do superávit fiscal, de "Levy put", questão de dias a sua permanência. Poderia ir no vácuo do impeachment! Hahaha...

Nas últimas reuniões da Rosenberg já não fiquei tão chocado, pois não vejo uma solução para os problemas econômicos no curto prazo. Nem a substituição da Dilma pelo Temer, que o mercado enxerga como positiva, não será suficiente para resolver definitivamente, seria apenas uma alívio de curto prazo. Vejamos a seguir alguns slides selecionados, que até nem foi tão difícil, pois mesmo numa escolha aleatória, mostraria o desastre em que nos encontramos. Inicialmente a produção Industrial

Em seguida a mediana da projeção do PIB, e não esqueçam que existe aqui o "efeito BFB" que comento mais abaixo.
Resultado primário e déficit nominal.
- David, chega dessa tortura!
Está bem, vou finalizar com as projeções de inflação, mas antes disso deixe eu explicar o "efeito BFB".

Nos anos 80, quando a inflação estava alta, todo final de ano me era pedido que fizesse o orçamento da minha área para os três próximos anos. Era fundamental assumir um determinado nível de inflação futura. A título apenas ilustrativo, veja no quadro abaixo, o que acabava acontecendo.
A cada ano partia-se da inflação atual e que como era elevada, estimava-se que a inflação futura só poderia cair. Mas no ano seguinte, não só a inflação não caia como terminava superior ao do ano anterior. Isso se sucedeu por alguns anos. Até que em 1983 eu disse ao meu chefe, que não iria mais perder meu tempo, projetando sonhos. Lógico com outras palavras! Hahaha...

Isso é o que chamo de "efeito BFB", lógico que o nome do BFB,  deve-se exclusivamente pelo fato, de ter ocorrido durante o período que eu estava lá.

Na reunião de novembro da Rosenberg, comentei que havia uma disputa entre a jovem guarda e a velha guarda sobre a inflação projetada. Nesta reunião de ontem, a jovem guarda veio preparada. Os jovens dissecaram item a item, os subitens que compõem o IPCA, e mostraram que em sua maioria eles tem uma indexação com a inflação passada.

Com projeções relativamente otimistas, chegaram a um nível de 8,1% para 2016, o que é muito superior à mediana do mercado, que se encontra em 6,8%.
Foi nesse momento que me veio a memória o "efeito BFB" e disse: ..."Quero ver se no final de 2016, a inflação for 13% ao invés 8%, e estaremos aqui projetando 10% e 7% para os anos seguintes. Me parece que o "efeito BFB" voltou!"... Mas os leitores do Mosca podem ficar tranquilos, pois se isso realmente acontecer, só vou mandar para aquele lugar em 2018! Hahaha...

Bottom line, podem esperar novas altas da SELIC. Que tal 16% para 2016? Not good!

No post Nietzsche-estaria-morrendo-de-rir, fiz os seguintes comentários sobre os juros de 10 anos: ...Quero chamar a atenção para dois fatores interessantes do ponto de vista técnico, observem que a mínima foi atingida exatamente na reta em azul que foi rompida em outubro; e segundo que foi no encontro das médias móveis. Tudo isso, dá mais força para a alta, caso o nível de 2,40% a.a. seja ultrapassado...
Desde esta última atualização, os juros caíram lentamente, talvez esperando para ver nem tanto o que o FED vai fazer, mas o que eles irão dizer. 

Tem muita gente achando que as altas de juros subsequentes serão do tipo: eleva, para, eleva, para. Mais ou menos como anda uma tartaruga. Boa ideia vou chamar este cenário de "tartaruga". Eu não acredito que será assim, faz mais sentido elevar três vezes colocando os juros em 0,75% e ai sim parar. Esse vou chamar de "Mosca". Sobram ainda duas hipóteses pouco prováveis, uma "macho" 0,75% de uma única vez, e a outra "brochou" que não requer explicações! Hahaha...

O juros de 10 anos, está tecnicamente contido entre 2,40% - 2,13%, este último coincidente com nosso stoploss. Nosso trade está nas mãos da Yellen e sua turma. 

Tudo ia bem até que no começo da tarde, a China postou no seu website, que o yuan seria melhor medido contra uma cesta de moedas ao invés de somente contra o dólar. Como em situações semelhantes, eles não deixaram claro qual seria esta cesta e nem quando começaria a valer. Parece que eles também estão lendo o Mosca! Hahaha... No post de ontem publiquei: ...Parece que chegou a hora da China, "na moita", aderir a esse movimento generalizado (alta do dólar), em que a moeda americana vem passando...

Depois desta notícia, as bolsas e os juros começaram a cair. Veja no gráfico abaixo, como ficaram os juros no fechamento.
Talvez nem a Yellen possa nos salvar, o stoploss está por um triz. Ou recupera na segunda, ou vamos realizar um prejuízo de 1%.

Pois é, para quem acha que o ano está acabando e pode relaxar, aconselho tirar o cavalo da chuva, muita coisa pode acontecer.

O SP500 fechou a 2.012, com queda de 1,94%; o USDBRL a R$ 3,8715, com alta de 1,58%; o EURUSD a 1,0992, com alta de 0,48%; e o ouro a US$ 1.074, com alta de 0,35%.
Fique ligado!

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