Inflação: A Revanche

29 de junho de 2017

A moleza está acabando


Quantos não foram os posts que escrevi comentando sobre os helicópteros repletos de moeda que circulavam ao redor do mundo gerando um oceano de liquidez. Só para relembrar: EUA, Europa, Japão, Suíça, Suécia e Inglaterra; esses, de forma explicita. De forma implícita, ou seja, através da atuação de seus bancos centrais que compram dólares para evitar uma maior valorização de suas moedas: China, Taiwan, Coréia do Sul, Brasil, Rússia, dentre outros.

Agora essa fase de “sem juros” parece estar terminando. Primeiro foi o FED que começou a elevar os juros no ano passado e vem seguindo suas projeções. Esta semana foi a vez de alguns bancos centrais indicarem que estão prontos para fazer o mesmo. O “só” Mario fez uma declaração que com a economia europeia recuperando, com a política monetária estável é uma forma de deixa-la frouxa; traduzindo: o gato subiu no telhado. Depois, foi a vez do presidente do BOE, Mark Carney, dizendo que uma alta se tornará necessária caso a economia continue crescendo e, por último, o banco central do Canadá comentou na mesma direção.

No caso do FED, nos últimos dias, diversos membros do Comitê de Investimentos reforçaram a ideia que seguirão com seus planos de subir os juros mais uma vez esse ano. Reforçaram que nem a inflação mais baixa que foi publicada recentemente, nem inferências de uma retração nos indicadores recentes mudaria seus planos. O principal motivo para enfatizar tanto, é a enorme diferença entre as projeções de juros publicadas pelo FED e as taxas futuras esperada pelo mercado.

Tenho visto uma serie de emissões de bonds internacionais de diversas companhias localizadas por toda parte e os resultados são demandas 4 a 5 vezes superiores as ofertas. Tem de tudo, papéis de empresas de primeira alinha; o que se denomina de high yield; títulos soberanos de países emergentes e até papéis de países que raramente se ouve falar. É uma busca desenfreada por juros. Mas, será que esse pessoal não acordou que os juros não é mais 0%, pelo menos nos EUA?

Eu resolvi fazer alguns cálculos partindo do pressuposto que o FED vai subir os juros de acordo com a média publicada na sua última reunião. A ideia é saber qual a taxa mínima que deveria render um título com vencimento em 1, 2, 3, 4 e 5 anos, a partir de hoje. Veja os resultados a seguir.


É importante frisar que essa seria a taxa mínima para qualquer título, pois leva em consideração um risco equivalente aos papéis do tesouro. Para quem não acompanha esse mercado, a título de informação, a taxa de juros de um bond do tesouro americano está cotada a 1,87% a.a., muito abaixo a que aponta na tabela cima – 2,67% a.a.

Farei o mesmo exercício para que possam comparar qual deveria ser a taxa mínima dos títulos de empresas brasileiras, considerando as taxas acima e acrescentando o risco Brasil que hoje se encontra em 240 pontos.

Quero enfatizar que essa deveria ser a taxa para os títulos soberanos brasileiros. Empresas como os bancos Itaú, Bradesco, Votoratim etc.. é necessário agregar um risco implícito dessas companhias, o que elevaria as taxas para um vencimento em 5 anos, ao nível aproximado de 6% a.a.

Uma pesquisa dos títulos no mercado secundário vai mostrar que os papéis brasileiros estão muito caros, ou seja, não compensam o risco.

Tenho a impressão que os investidores ainda estão fixados com a ideia que perdurou nestes últimos anos, onde a cada ameaça de alta de juros por algum banco central era frustrada logo em seguida.  É verdade que os bancos centrais, e em especial o FED, colaboraram muito com essa imagem, pois erraram sistematicamente nesse período.

Entretanto, tudo leva crer que houve uma mudança, não só nos EUA como também no resto do mundo: as economias estão saindo da letargia e começam a crescer lentamente. O mercado não está acreditando, prefere apostar que o FED e seu parceiros ou irão rever suas intenções, ou pior, daqui algum tempo terão que baixar novamente. Se essa é sua crença, talvez minhas contas acima não se provarão corretas. Por outro lado, desta vez o grito da história de criança, “ O lobo está chegando”, pode ser verdadeira.

No curto prazo, como os juros fora dos EUA estão muito mais deprimidos estão se ajustando mais. Por essa razão, o dólar está se depreciando em relação a essas moedas. Mas não sei por quanto tempo irá perdurar, pois o movimento dos juros de 10 anos americano pode ter terminado seu ciclo de baixa - vide abaixo.

No post inflação-de-primeiro-mundo, fiz as seguintes observações sobre os juros de 10 anos: ...”eu trabalho agora com 2 hipóteses marcadas no gráfico abaixo. A primeira seria que o movimento de alta já está em curso ou, na pior das hipóteses, uma correção da queda recente; a segunda, que uma nova mínima aconteceria ao redor de 2% a.a. para, em seguida, reverter e voltar a subir” ...


As reações do mercado nesses últimos 3 dias sugerem que o cenário 1 acima poderá estar em curso. Desta forma, vou sugerir um trade de alta de juros no nível atual de 2,27%, com um stoploss a 2,10%.


- David, você não vai viajar neste final de semana? Como fica a gestão dessa posição?
Parece um pouco irresponsável, pois naturalmente minhas ferramentas de análise não estarão disponíveis. Por outro lado, estou esperando a reversão desse mercado, porque acredito que os juros subirão, veja o tema do Mosca esse ano. O mercado não vai esperar eu voltar de férias para se movimentar, seria muita presunção, então acredito que essa posição está bem protegida pelo stoploss.

Por outro lado, se estiver certo, o máximo necessário será um ajuste no stoploss, e isso eu consigo fazer a distância. Tomará que eu tenha esse trabalho!

Não quero traçar os próximos passo, pois como bem disse Garrincha ao treinador Feola, eu também não combinei com os Russos! Mas quero enfatizar que acima de 2,45% reforça minha tese, em seguida 2,50%, e, se ultrapassado, 2,65% acontece a grande batalha. Acima disso, caminhamos para 2,90% - 3%.

- Puxa David, seria uma bela alta!
Pense bem, analise minha tabela acima e você vai se convencer que ainda é uma taxa baixa, pois é praticamente igual aos juros de 5 anos. Conforme o tempo passa, e considerando que a taxa terminal anunciada pelo FED é de 3,25%, porque um título de 10 anos teria que render abaixo disso?

O SP500 fechou a 2.419, com queda de 0,86%; o USDBRL a R$ 3,3020, com alta de 0,69%; o EURUSD a 1,1441, com alta de 0,55%; e o ouro a US$ 1.245, com queda de 0,30%.
Fique ligado!

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