Inflação: A Revanche

13 de outubro de 2016

Quando o receio prevalece


Eu já comentei algumas vezes a importância da nova teoria em finanças denominada Financial Behaviour – Finanças Comportamentais. Desde que retornei a frequentar a FEA recentemente, percebo que essa escola ainda é dirigida pela velha economia, ou seja, modelos matemáticos para precificar os ativos, raríssimos são os cursos que contemplam essa nova teoria. Eu acredito bastante nesse novo conceito, pois nem sempre o ser humano age de forma racional e quando isso acontece os modelos matemáticos são de pouca valia.

Desde a recessão de 2008 os bancos centrais embarcaram na teoria Keneysiana, de injetar recursos e baixar as taxas de juros. Considerando que o consumidor é racional, essa atitude faria com que eles aumentassem seu consumo através de assunção de novos créditos, ou deixassem de poupar para consumir. Desta forma, a economia se recuperaria e depois de um tempo as condições poderiam voltar à normalidade.

Porém isso não vem acontecendo, e parece que o FED reconheceu que os efeitos dessa política podem gerar um efeito contrário.

Nas minutas do FED referentes a última reunião do Comitê de setembro, um membro do FED deu a entender, que a política de taxas de juro historicamente baixa estava fazendo mais mal do que bem para a economia prejudicando os fundos de pensão e aposentadorias, e que isso estaria danificando a economia: ...”Finally, one participant expressed the view that prolonged periods of low interest rates could encourage pension funds, endowments, and investors with fixed future payout obligations to save more, depressing economic growth and adding to downward pressure on the neutral real interest rate."…

Isto é semelhante ao argumento contra as taxas de juros negativas. Essencialmente, as pessoas estão muito preocupadas com o fato de que as economias que têm, não estarem rendendo muito através dos juros, assim eles têm que economizar uma quantia nominal maior, a fim de cumprir suas metas de aposentadoria.

Alguns membros pensam que as taxas de juros são tão baixas, que o FED estaria prestes a deixar a inflação ficar fora de controle. Assim teriam de agir tão rápido que comprometeria a recuperação econômica: ..."In contrast, a few other members were concerned that, without a prompt resumption of gradual increases in the target range for the federal funds rate, labor market conditions could tighten well beyond normal levels over the next few years, potentially necessitating a subsequent sharp tightening of monetary policy that could shorten the economic expansion”…

Embora apenas um membro tenha apontado o risco de os juros baixos estarem comprometendo as poupanças, outro trabalho feito na Europa aponta nessa direção. Uma pesquisa feita pelo Banco ING com 12.000 consumidores europeus, perguntando o que fariam se recebessem 200 euros por mês, durante um ano, sem nenhuma restrição, apontou que somente 26% gastariam esse dinheiro, enquanto 52% deixariam em suas poupanças.


Os resultados dessa pesquisa resultam em decisão mais imbuída de fatores psicológicos do que racionais. Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de economia em 1991, apresentou em sua tese que o impacto de uma perda de 5% em um portfólio, tem um impacto muito superior a um ganho de igual valor. E parece que é em função da característica humana, de ter menor tolerância a perda que prevalece na sua atitude.

No post – quebrando a banca--- mostrei um modelo simplificado a fim de calcular qual seria a poupança necessária a se acumular para um determinado gasto anual: ...

P = GA/i
Onde:
P = Valor atual de sua poupança
GA = Gastos anuais
i = Taxa de juros reais ao ano” ...

Construí também um exemplo para o caso brasileiro, agora imaginem para um cidadão europeu cujas taxas de juros estão negativas ou próximas de zero. Se usar a fórmula acima com juros de 0%, o valor do patrimônio seria infinito. Mas vamos ser mais generosos e trabalhar com 1% a.a. Se uma pessoa precisa de 100.000 euros por ano para seus gastos, o valor atual de sua poupança teria que ser a substancial cifra de 10.000.000, enquanto que, 5 anos atrás esse valor era por volta de 2.000.000.

Para fazer face à nova realidade, os europeus terão que trabalhar mais, poupar mais e gastar menos no futuro, exatamente o contrário que os bancos centrais estão buscando.

Mesmo assim, não credito que haverá alguma mudança por parte das autoridades monetárias, pois compraram a ideia que é esse modelo que funciona e continuarão com ele. Veja na figura abaixo que o volume de recursos injetados continua aumentando.


O Mosca tem se colocado como grande crítico da maneira que a política monetária tem sido implementada pelos bancos centrais ao redor do mundo. Eles ainda sugerem que os juros permanecerão baixos por muito tempo. Essas atitudes observadas pelos cidadãos, são consistentes com o receio de não poderem no futuro suportar seus gastos. Quanto mais tempo demorar para que haja uma normalização das políticas econômicas, maior será a chance de haver uma deflação muito mais danosa e grave.

No post os-juros-cairão-pelo-motivo-certo, fiz os seguintes comentários sobre os juros de 10 anos: ...” se as taxas subirem acima de 1,75% eu projeto um primeiro objetivo de 1,80% / 1,85% e se superado 1,95%/ 2,00%” ...


Ontem o mercado atingiu o primeiro objetivo marcado acima e grifado no gráfico ao atingir 1,80%. Mas eu frisei algo muito importante no post, ao colocar as razões do por que não queria me envolver nesse trade: ...” esse ainda deve ser um movimento de correção de curto prazo, no longo prazo, a tendência ainda é de baixa de juros. Somente após o longínquo 2,45%/ 2,50% poderia indicar que o movimento de longo prazo reverteu” ...


Vou acompanhar nos próximos dias a fim de verificar se 1,80% bastou, fazendo com que a queda dos juros prevaleça novamente, ou ainda se pode esperar que atinja o segundo patamar por volta de 2% a.a.

O SP500 fechou a 2.132, com baixa de 0,31%; o USDBRL a R$ 3,1804, com queda de 0,64%; o EURUSD a 1,1055, com alta de 0,45%; e o ouro a US$ 1.257, com alat de 0,22%.
Fique ligado!

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