Inflação: A Revanche

19 de outubro de 2015

Indigestão creditícia

Tenho notado que a cada vez que me ausento do país, na volta me deparo com notícias e ambiente nada prazeroso. Nos dias atuais, uma mistura de mau humor com desesperança toma conta de nós. A situação política é propensa a centenas de especulações como: demissão do Ministro "salvador da Pátria"; impeachment do Presidente; fila de espera nas delações premiadas; e a dúvida se os Presidentes do Congresso e do Senado amanhecerão em seus cargos. Você poderia se perguntar como a economia entrará nos trilhos.

Existe um termo em inglês que define bem este momento "gridlock", ou encruzilhada, só que esta não é a tradicional de quatro vias, mas de uma dezena delas. Se alguém disser que sabe como isso vai terminar, não acredite. Agora, o que se pode projetar, é que quanto mais tempo a situação permanecer desta forma, maior será o empobrecimento do povo brasileiro e maiores as chances de manifestações populares. Entretanto, parece que o sofrimento não chegou ao auge.

Já nos mercados internacionais, quando se olha a recente dramática mudança no mercado. Com a queda dos ativos dos países emergentes, tornou-se evidente que os bancos centrais estão num processo de perda de credibilidade. A fé de uma geração de traders, cuja única estratégia era comprar na queda dos mercados, está se deparando com uma nova realidade onde o crédito atingiu o seu limite.

A primeira razão é que, mesmo que os bancos centrais continuem injetando montantes recordes de liquidez nos mercados, a resposta tem sido cada vez mais instável - em grande parte pela alta do dólar e a crise na dívida dos mercados emergentes. Segundo um analista do Citibank, Matt King, "os modelos que ligam os QE para os mercados parecem ter quebrado".
O segundo problema, é de longe o mais importante, é que o mundo enfrenta o que o FED e os seus colegas dos bancos centrais tem lutado o tempo todo, muita dívida global, acumulando num ritmo cada vez maior, enquanto o crescimento mundial está estagnado, e de fato, em declínio.
Há muito tempo se "atravessou o Rubicão (*)"- que significa ultrapassar fronteiras, defrontando-se com um caminho duvidoso e potencialmente perigoso. O normal é que um incremento adicional de dívida resulte num incremento adicional de crescimento. Os níveis de endividamento atuais estão numa situação sem precedentes, onde os livros textos não funcionam mais, e contrariamente tem levado a uma queda do PIB.

Parece que a conclusão é clara, segundo esse analista a nível macro, o mundo está fora de limites, e não existe virtualmente nenhum recurso para criação de crédito no nível consolidado, entre pessoas físicas, empresas, dívida financeira e governos.

Hoje foi publicado o PIB na China e pela primeira vez desde 2009, ficou em 6,9% a.a., abaixo do número mágico de 7% a.a. Se essa diferença fosse a principal dúvida, não seria suficiente para gerar mais preocupações, acontece que vários analistas questionam esses dados, sugerindo que o PIB "real"é muito inferior.
Essa polêmica deverá perdurar enquanto o mundo tenta voltar a níveis de crescimento maiores. Caso contrário, se o crescimento decepcionar, os analistas continuarão a levantar essa dúvida, sem que nunca saibamos ao certo, quanto cresce a segunda economia do planeta.

Escolhi o real para analisar hoje, pois acredito ser de maior interesse dos leitores. Antes disso, como temos uma posição comprada em ouro, o novo stop passa a ser US$ 1.130, aguardem maiores detalhes amanhã.

No post o-fed-mostra-as-cartas, fiz os seguintes comentários: ...é esperado uma alta do dólar no curto prazo, até pelo menos R$ 4,05,.. ...Eu frisei também que esses eram movimentos de curto prazo, pois a médio prazo, espero dois níveis de importância, O primeiro intervalo - cujo objetivo é de R$ 3,40/3,50, e o segundo - R$ 3,10/3,20...Durante a última semana, o dólar ficou sujeito as pressões políticas, que não foram poucas, subindo aproximadamente 6% entre a mínima e máxima.
Não teria muitas observações a fazer dentro do que já escrevi, uma alta do dólar no curto prazo até R$ 3,98/4,05, seguido de um novo movimento de queda, levando as cotações aos níveis apontados acima (no médio prazo). O que parece ter mudado de forma definitiva é a volatilidade. Oscilações de 1% - 2% por dia devem fazer parte do novo cenário do real, e isso leva a uma incerteza nos setores que dependem do dólar em seus negócios.

O SP500 fechou a 2.033, sem variação; o USDBRL a R$ 3,8842, com baixa de 0,85%; o EURUSD a 1,1324, com queda de 0,20%; e o ouro a US$ 1.170, com queda de 0,56%.
Fique ligado!

(*) Quando Júlio César em 49 a.c., ao ser perseguido, tomou a decisão de atravessar o rio Rubicão. Seguido pelo seu exército, transgredindo claramente a lei do Senado que determinava o licenciamento das tropas todas as vezes que o general de Roma entrasse na Itália pelo Norte. Isso precipitou uma guerra civil, que conduziu ao estabelecimento do Império Romano.


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