A China está sem munição #SP500

 


O Mosca vem chamando a atenção de seus leitores para o fato de que a economia chinesa não se encontra em boas condições. Até acredito que seus últimos movimentos de tentar se aproximar de países além dos ocidentais, incluindo o Brasil, são função dessa piora. Existia uma crença de que a liberação do lockdown pela Covid-19 imposto anteriormente pelo governo seria suficiente para compensar a queda observada em suas exportações, principalmente para os EUA e Europa.

De uma forma resumida, poderia elencar os seguintes pontos que levaram a essa situação:

1.     Mercado Imobiliário: No ano passado inúmeras empresas nesse setor estiveram próximas de quebrar em virtude de excesso de oferta. O governo acabou demorando para intervir, o que ocasionou uma desconfiança dos compradores de que não iriam receber suas unidades em construção. Os bonds dessas empresas, que também faziam parte da carteira dos poupadores, eram negociados em centavos de dólar.

2.     Posicionamento na guerra da Ucrânia: Ao se posicionar do lado da Rússia, permitindo que as transações externas desse país se materializassem em yuans, gerou uma reação por parte dos países ocidentais, que buscaram se afastar da China. O fato de comprar com desconto commodities oferecidas pela Rússia não amenizou a queda de demanda.

3.      Restrições impostas pelo EUA (e aliados): Desde a era Trump, que resolveu impor tarifas a produtos chineses, diversas empresas americanas com fábricas na China foram levadas a deslocar essas unidades para outros países. Acrescente-se mais recentemente imposições inversas para exportações de produtos dos EUA com o objetivo de limitar a produção chinesa de artigos, principalmente de alta tecnologia.

4.      Mão de obra menos atrativa: Desde que a China resolveu se tornar a fábrica do mundo nos anos 90, os salários nesse país subiram de tal forma que o país perdeu essa atratividade, sendo mais uma razão para as empresas buscarem outros locais como o Vietnã, a Índia e mais recentemente o México — no caso dos EUA.

Para uma economia cujo PIB depende em 20% de suas exportações, não é de se estranhar que um excesso de produtos se acumule nas fábricas, uma vez que a demanda interna, acostumada a poupar 40% da renda, não se dispôs a substituir os estrangeiros e aumentar seu consumo. Conclusão: a inflação, um problema mundial, lá está beirando a deflação, como relata a Bloomberg.

A taxa de inflação ao consumidor da China ficou estável em junho, enquanto os preços nas portas de fábrica caíram ainda mais, alimentando preocupações sobre riscos de deflação e aumentando a especulação sobre potenciais estímulos econômicos.

O índice de preços no consumidor ficou inalterado no mês passado em relação ao ano anterior, de acordo com dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas nesta segunda-feira. Essa foi a taxa mais fraca desde fevereiro de 2021, quando a queda dos custos da carne suína arrastou o índice.

O núcleo da inflação, que exclui os voláteis custos de alimentos e energia, desacelerou de 0,6% para 0,4%. Os preços ao produtor caíram 5,4% em relação ao ano anterior, o ritmo mais alto desde dezembro de 2015.

"O risco de deflação é muito real", disse Zhang Zhiwei, economista-chefe da Pinpoint Asset Management.

 



Ambos os indicadores aumentam as evidências de que a recuperação está enfraquecendo, com preocupações com a deflação pesando sobre a confiança. Isso provavelmente estimulará mais especulações sobre quais estímulos potenciais podem estar nas cartas para fortalecer a economia.

"Os dados de hoje certamente defendem mais flexibilização da política, o que os formuladores de políticas já estão fazendo, mas apenas de forma comedida", disse Michelle Lam, economista para a Grande China do Société Générale.

Os produtores já passaram meses lutando com preços mais baixos das commodities e demanda fraca no país e no exterior. Se os consumidores e as empresas continuarem a segurar os gastos ou investimentos na esperança de que os preços fiquem mais baixos, isso pode levar a uma espiral de queda de preços autorrealizável.

Um dos principais entraves para os preços ao consumidor no mês passado foram os preços da carne suína. O custo da carne - um item básico na dieta chinesa - caiu 7,2% em junho em relação ao ano anterior. Isso foi mais do que a queda de 3,2% de maio.

O governo tem tentado colocar um piso na queda dos preços da  carne suína, dizendo na semana passada que compraria mais carne suína para reservas estatais a fim de impulsionar a demanda.  

A deflação dos preços ao produtor foi impulsionada por quedas prolongadas nos preços internacionais das commodities. Em comunicado, o estatístico do NBS, Dong Lijuan, citou uma queda contínua nos custos do petróleo e do carvão, bem como uma alta base de comparação com o ano passado.

Além de um breve período de deflação no início de 2021, a China não experimenta deflação prolongada dos preços ao consumidor desde 2009 em meio à crise financeira global.

Naquela época, Pequim introduziu um pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans (US$ 553 bilhões) focado em infraestrutura e modernização da indústria. Embora esse plano tenha impulsionado o crescimento na época, também levou os governos locais a contraírem empréstimos mais do que o permitido legalmente, fazendo com que a dívida aumentasse.

O espaço para a política conter a ameaça de deflação é mais limitado desta vez, em parte devido às preocupações com os riscos da dívida.

O que diz a Bloomberg Economics

"A inflação zero de preços ao consumidor e quedas mais profundas nos preços ao produtor em junho sugerem que a recuperação pós-covid da China perdeu mais força. A queda do ímpeto na frente de preços é um sinal de demanda fraca que enfraquece as perspectivas de crescimento. A necessidade de mais estímulos do Banco Popular da China está aumentando."

A maioria das medidas de apoio à economia foi limitada, com o banco central cortando a taxa básica de juros no mês passado em apenas um pequeno valor. O governo também estendeu incentivos fiscais para compradores de carros elétricos.

"É muito improvável que o governo introduza políticas macro extraordinariamente fortes", disse Bruce Pang, economista-chefe da Jones Lang Lasalle. Ele acrescentou que os líderes estão enfatizando "um crescimento de alta qualidade que seja estável e encontre um equilíbrio entre o ajuste estrutural econômico e a prevenção de riscos".

O primeiro-ministro Li Qiang conversou na semana passada com alguns economistas chineses sobre a potencial ajuda, embora tenha enfatizado que as políticas seriam "direcionadas, abrangentes e bem coordenadas" - reforçando as expectativas de  que os estímulos não seriam maciços.

O governo precisa mudar seu foco de políticas do lado da oferta para medidas que abordem os problemas de demanda, disse Xing Zhaopeng, estrategista sênior para a China do Australia and New Zealand Banking Group.

As autoridades chinesas há muito apoiam as empresas usando ferramentas de empréstimo direcionadas, como as destinadas a ajudar os setores de manufatura e energia renovável. Enquanto isso, as autoridades muitas vezes evitaram políticas destinadas a dar ajuda direta aos consumidores, como subsídios.

"A China está enfrentando excesso de oferta agora", disse Xing, alertando para a intensificação do "ciclo deflação-recessão".

Em termos de inflação, o gráfico a seguir pode dar uma boa ideia como os preços estão reagindo de forma diversa na China em relação ao mundo todo. Mesmo com a alta generalizada das commodities e do custo da mão de obra, na China nada disso ocorreu.




O mercado acionário desse país, tido como uma oportunidade de investimento há bem pouco tempo, tem se mostrado apático, perdendo para seus vizinhos, como comenta Dave Sebastian no Wall Street Journal.

O desempenho instável das ações chinesas este ano tem sido uma boa notícia para outros mercados asiáticos.

A China já foi, de longe, o mercado de ações mais atraente da região para investidores globais. Mas, à medida que a segunda maior economia do mundo despencou, esses investidores voltaram sua atenção para outros lugares. O índice Hang Seng de Hong Kong, que inclui muitas das maiores empresas da China continental, caiu mais de 6% este ano. Os índices de ações no Japão, Coreia do Sul e Taiwan subiram dois dígitos em termos percentuais. 

"Tem sido uma grande mudança em relação à China", disse Sat Duhra, cogestor de portfólio da estratégia de renda de dividendos asiáticos da Janus Henderson Investors.




Investidores institucionais estrangeiros compraram US$ 25,8 bilhões líquidos em ações da China continental por meio de um vínculo com a bolsa de valores de Hong Kong este ano, mas se tornaram vendedores nos últimos três meses, de acordo com o Goldman Sachs. No segundo trimestre, eles venderam US$ 300 milhões. Somente na primeira semana de julho, os estrangeiros venderam US$ 1,3 bilhão em ações chinesas.

Empresas multinacionais – como  a principal fabricante da Apple, a Foxconn – estão cada vez mais buscando locais de fabricação alternativos à  China, à medida que buscam diversificar as cadeias de suprimentos, e a Índia está na ponta receptora. Isso, juntamente com os planos de gastos com infraestrutura do governo indiano, significa mais empregos para a população de 1,4 bilhão de habitantes do país.

As ações nos dois mercados ganharam em parte por causa do maior foco na fabricação de semicondutores, já que  o aumento da inteligência artificial criou novas oportunidades – e algumas dores de cabeça – para o setor. Os chips semicondutores estão no centro da mais recente disputa comercial entre China e EUA.




A maior questão diz respeito aos rumos da economia chinesa. Dados econômicos recentes ressaltaram o quão difícil é para o país se recuperar de suas políticas de Covid zero. O setor manufatureiro da China contraiu pelo terceiro mês consecutivo em junho, e o emprego também caiu, informou a agência oficial de estatísticas do país no final de junho.

Se a economia começar a se recuperar com mais clareza, os investidores provavelmente voltarão para as ações chinesas, disse Yuichi Murao, diretor de investimentos para ações ativas do Japão na Nomura Asset Management.

Um dos motores importantes do mundo está com problemas e, dependendo do que ocorrer principalmente na economia americana, isso poderá amplificar a desaceleração mundial. Se os EUA não entrarem em recessão, pode ser uma boa notícia para a China que, embora tenha diminuído a demanda americana para seus produtos, seria recompensada por exportações a outros países. Com essa visão mais abrangente sobre as economias mundiais e especialmente em relação a China, é visível o erro de nossa política externa, que acredita que uma aproximação com a China trará benefícios a nossa indústria.

Sobre o Brics, foi ventilada recentemente a ideia de se criar uma nova moeda lastreada em ouro. Acredito que nenhum desses países, incluindo a China com seus problemas atuais, pensou direito no que isso significa. Está provado por A mais B que câmbio fixo não funcionou em nenhuma parte do mundo e, da forma como eu imagino, essa moeda teria valorização em relação a todas as moedas do Brics, o que faria as operações de comercio exterior se mostrarem desinteressantes, pois implicariam em reduções nas margens dos produtos. Não é por aí que o Brics vai dar certo, e nem sei se hoje é viável essa ideia.

No post briga-de-cachorro-grande fiz os seguintes comentários sobre o SP500: ... “ A ideia é permanecer no trade até a complementação da onda 3 cujos objetivos ainda deverão ser mais bem definidos a frente 4.645/4.738/4.783. Mas idas e vindas são esperadas conforme destacado com o percurso em laranja” ... ...” Muito importante frisar que ultrapassar o nível destacado como “etapa 2: 4.479” é crucial, como mencionei anteriormente” ...




Na última sexta-feira, decidi liquidar a posição no SP500 ficando agora sem posição em nenhum dos mercados. O principal motivo para essa decisão poderá ser visto no gráfico a seguir. A onda (iii) parece que terminou antes do que o projetado, o que implicaria numa retração aos níveis entre 4.346/4.312. Caso minha hipótese esteja correta, deveríamos reentrar nesse intervalo.




- David, por que você resolveu sair? Pelo que eu posso ver, a retração prevista não é tão grande.

Você está certo, se a bolsa não fizer esse percurso, estou arriscando entrar de volta num nível pior do que eu saí. Mas queria enfatizar um ponto de grande importância, a de que o nível de 4.479 ainda não foi ultrapassado; se você se lembra, ainda contempla a hipótese de um cenário de baixa mais extenso.

A região de Elliot Wave que compreende uma série de ondas 3,4 de diversos níveis, como é o caso que se pode notar em laranja e verde, é difícil de navegar, pois ocorrem idas e vindas que podem confundir a análise.

Uma visão de mais longo prazo contempla ainda altas expressivas, de acordo com o gráfico com janela semanal a seguir. Mas esse cenário só é confirmado depois de ultrapassar as etapas 2 e 3 destacadas.




Tenho notado diversos relatórios frisando que a inflação americana estaria tendendo a níveis mais compatíveis com o objetivo do Fed; naturalmente, essas projeções são de bens de consumo, não contemplando os serviços — exceção aos aluguéis, que têm uma trajetória mais previsível. Ocorre que o calendário não será mais favorável daqui em diante, depois da publicação de amanhã que deve apresentar uma taxa de CPI ao redor de 3% a.a. O motivo dessa preocupação é o fato de que, na base anual, serão excluídos meses do ano passado com taxas baixas e até negativas. Veja o gráfico a seguir, com diversas simulações de níveis mensais. Mesmo com um nível de 0,2% a.m., a inflação se manteria estável em 3%; é bem provável que ainda seja superior, o que pode levar novamente a 4% a.a. ou até acima.



O SP500 fechou a 4.439, com alta de 0,67%; o USDBRL a R$ 4,8533, com queda de 0,90%; o EURUSD a € 1,1004, sem variação; e o ouro a U$ 1.931, com alta de 0,34%.

Fique ligado!

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