Inflação: A Revanche

24 de junho de 2016

Br - Exit


Nassim Taleb, um conhecido investidor e autor de vários livros, cujo mais famoso chama-se Black Swan, é especialista em eventos fora da curva. Criou uma relação entre a população de cisnes com o mercado financeiro. A maior parte dos cisnes são brancos mas também existem raros que são pretos, da mesma forma os mercados funcionam normalmente na maioria do tempo, mas existem momentos críticos de grande volatilidade.

Seu pensamento é que um investidor não pode correr o risco de perder tudo nestes momentos, e ao contrário pode se beneficiar dessas situações.

Hoje foi um desses dias, a decisão do povo britânico de abandonar a comunidade europeia pegou o mercado totalmente de surpresa. Como comentei ontem, os preços dos ativos não levavam em consideração esta hipótese. Como consequência, a libra desabou, levando a sua cotação para a menor dos últimos 30 anos.

Durante minha vida profissional passei por situações semelhantes, posso dizer que não é nada agradável. Em dias como hoje, nenhum modelo de risco funciona, vale as decisões movidas por stoploss ou pela angústia de ver os prejuízos aumentando a cada minuto.

O impacto não será só financeiro, consequências políticas podem ser ainda mais graves. Os defensores ao redor do mundo para mudanças ganham força, afinal para quem está na dúvida, a decisão arriscada tomada pelo povo britânico dá força a esses grupos. O primeiro beneficiado que me vem a cabeça é Donald Trump, que já pela manhã fez as seguintes declarações: “ Eles (os britânicos) retomaram seu país, do mesmo modo que nós faremos com a América”. Na França, provávelmente, creserá um movimento de saída do euro, sem falar na Itália que não conseguiu se recuperar desde a crise de 2008.

Mas como fica daqui em diante? Acredito que ninguém tem uma resposta clara das consequências, mas eu elencaria 3 grandes questões:

1.       A incerteza do que mais pode mudar, e/ou a queda dos ativos financeiros, implicará nos investimentos, principalmente na Inglaterra?
2.       A Grã-Bretanha conseguirá manter o mesmo nível de acesso aos mercados europeus?
3.       O referendo resultará em fragmentação política e econômica na Europa?

Uma pesquisa feita com os votantes para saber qual era o principal motivo para sua decisão, teve como resposta majoritária os imigrantes.

Outro subproduto desta decisão foi a forte segmentação de opiniões dentro da Grã-Bretanha, como pode ser visto no desenho abaixo. Com uma diferença tão pequena, os conflitos internos deverão aumentar.


Antes de comentar sobre os mercados, não fosse a péssima notícia vinda do exterior, estaríamos comemorando o resultado de nossas contas externas. Em grandes números, o déficit encolheu novamente para US$ 29,5 bilhões (1,7% do PIB). A entrada de investimento estrangeiro subiu levemente em termos anuais para US$ 79,9 bilhões (4,6% do PIB), que é mais do que suficiente para financiar o déficit.

 
As contribuições foram em todas as rubricas mas o grande destaque deve-se dar novamente a balança comercial, com um superávit mensal de US$ 6,3 bilhões, apontando para um acumulado anual de US$ 55 bilhões.

Talvez um dado que poderia causar um pouco mais de preocupação foi a elevada saída de investimento em carteira de US$ 6,8 bilhões, embora se tivesse que escolher, melhor assim, investimento direto positivo e de carteira negativo que o contrário, o primeiro é de muito melhor qualidade.

Quanto as reservas estão intactas e a posição de swap do BC baixaram muito, encontrando-se ao redor de US$ 60 bilhões. Talvez esse tenha sido o motivo da performance mais positiva hoje do real, quando comparado aos seus pares emergentes.

Bem sobre o mercado mundial existem algumas observações que considero importantes. A seguir o gráfico compara a performance das bolsas europeias. A cor laranja é o índice FTSE 100 da Inglaterra, veja que sua performance foi menos ruim se comparado a Alemanha, França e principalmente a Itália. Mesmo considerando que a Libra foi a moeda que mais se desvalorizou, isso por si só não seria uma razão para afirmar que a bolsa londrina ficou mais barata. Assim, o mercado interpretou que não foi tão ruim assim para a Inglaterra, ou foi muito pior para o resto da Europa.


Os juros de 10 anos: oscilaram 30 pontos entre 1,7% a.a. para 1,4% a.a., o que equivale a uma variação de 2,3% no preço desses títulos. Fechou no meio do caminho a 1,57% - indefinido.

Já no câmbio foi uma salada mista:

 Europa: a libra tomou o maior tombo com queda de 8,3%, euro 2,6%, o franco suíço 1,5% - esperado.

Japão: yen se valorizou 3,5% - esperado.

Moedas emergentes G8: dólar canadense 1,7%; dólar australiano 1,7% e o dólar neozelandês 1,7%, e eles não combinaram! – surpresa positiva.

Outras moedas emergentes: peso mexicano 3,7%; rand sul-africano 4,5% e real 1,1% - supressa no real, a moeda que menos caiu entre todas, com exceção do yen e claro o yuan, que teve uma queda de 0,6%.

Commodities: ouro subiu 5%, e graças à atualização do stop ontem saímos sem perdas; prata 2,6% - positivo pelo ouro e negativo pela prata, pois deveria ter subido mais.

Ainda é muito cedo para tirar qualquer conclusão, será necessário alguns pregões. No final de semana vou avaliar se este primeiro dia depois do Brexit foi suficiente para comprometer a perspectiva de algum ativo.


O SP 500 fechou a 2.037, com baixa de 3,60%; o USDBRL a R$ 3,3760, com alta de 1,14%; o euro a 1,1102, com baixa 2,50%; e o ouro a US$ 1.317, com alta de 4,92%.
Fique ligado!


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