Inflação: A Revanche

27 de setembro de 2016

Existe inflação boa?


Assisti ontem uma boa parte do debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, onde as pesquisas apontaram para uma vitória da Hillary. Na visão do mercado financeiro a aposta de qual candidato será o vencedor, é a cotação do peso mexicano. O gráfico a seguir não deixa dúvidas de quem venceu ontem. Só para esclarecer, uma queda do dólar pende para Hillary, e o contrário para Trump.


Em minha opinião, o mérito não foi de Hillary e sim o “desmérito” de Trump. A candidata mais parecia uma Barbie de terceira idade. Ela definitivamente não é uma estadista. Já Trump, um troglodita na acepção da palavra, representa um grande perigo se eleito.

Fiquei pensando, como Trump pode chegar a disputa final nos EUA. O argumento que me parece mais apropriado para explicar um sujeito que já quebrou 4 vezes, seria uma insatisfação de parte dos americanos que desejam uma mudança radical. Com esse requisito ele se encaixa bem, porém figurativamente se assemelha mais a um homem bomba. Um perigo!

Do outro lado do Atlântico o que vem causando grande preocupação é a situação do Deutsche Bank, maior banco alemão que enfrenta problemas de todos os lados: queda expressiva em seus lucros; volume estratosférico em operações de derivativos; ação legal nos EUA de US$ 14 bilhões, por conta dos contratos imobiliários de 2008; e por último a Primeira Ministra Angela Merkel disse ontem que não pretende colocar recursos públicos para capitalizar o banco. As ações sofreram baixas expressivas e já tem gente comparando ao caso Lehman Brothers.


Não acredito que seja esse o caso, diferentemente do banco americano, o Deutsche é o “Bradescão” da Alemanha, e não um banco de investimentos. Haverá outra saída, mas não o fechamento do banco. Vale a difundida ideia do “it´s to big to fail”.

Lance Roberts vem a um bom tempo alertando que a economia americana se encontra numa armadilha de liquidez. Em economia define-se que essa situação acontece, quando uma injeção de liquidez no sistema bancário falha em diminuir as taxas de juros, bem como estimular a economia. Os sintomas característicos são juros próximos de zero e flutuações na base monetária falham em originar mudanças no nível geral de preços.

Esse é a situação em que o FED se encontra. A figura abaixo mostra que, quanto mais a autoridade monetária se torna ativa, menor o crescimento do PIB, inflação e os juros.


Mas o que esse analista chama a atenção, é que existem dois movimentos distintos nessas variáveis, de 1950 até 1980 e dessa data até hoje. No primeiro período, os EUA trabalharam duro para reconstruir a Europa. Aumentaram a produção e os salários, e a expansão da economia se deu por demanda de crédito que elevou os preços e consequentemente a inflação. Mesmo no período de embargo do petróleo, a economia cresceu em bases anuais a 14%.

Temia-se que as altas taxas de inflação e de juros criariam uma catástrofe econômica. Assim, no final dos anos 70, o Federal Reserve entrou em ação. Essas ações e as subsequentes intervenções monetárias por parte da Reserva Federal, levou ao declínio lento e prolongado da prosperidade americana.

Hoje, há falta de pressão inflacionária produtiva (inflação causada pelo aumento dos salários e aumento da atividade econômica que leva à preços mais altos), foi uma consequência das dinâmicas estruturais subjacentes da economia. A propriedade de imóveis teve queda; os avanços tecnológicos e aumento da produtividade têm fomentado a supressão dos salários; e elevados níveis de ​​desempregados, fora da força de trabalho, pesando sobre a força econômica. Isso para não mencionar um grupo enorme de "baby boomers" que se dirigem para a aposentadoria com uma poupança, um pouco maior que, um ano do valor de suas despesas.

A inflação que existe atualmente com aumento dos custos de saúde, seguros e aluguel, não é o mesmo que a inflação decorrente do aumento dos salários, aumento dos preços de produtos e aumento da atividade econômica.

A diferença de tipos de inflação foi um ponto destacado pelo economista Dr. Ed Yardeni:

...“Existem dois tipos de inflação: a que estimula a demanda por influenciar os consumidores a comprar produtos e serviços, antes que seus preços subam mais; e o outro tipo que reduz o poder de compra dos consumidores quando os preços sobem mais rápido do que os salários ”...

...” durante os anos 1960 e 1970, a inflação subiu mais rapidamente do que as taxas de juros. O Fed ficou “behind the curve”. No entanto, os salários mantiveram o ritmo com os preços porque os sindicatos eram mais poderosos do que são hoje, e contratos de trabalho incluíam ajustes de custo de vida. Em termos globais, a inflação estimulou a demanda mais do que pesava sobre ela. Empréstimos também foram estimulados” ...

...” hoje, os principais bancos centrais gostariam de reviver essas atitudes de compras antecipadas, juntamente com as expectativas inflacionárias, para impulsionar a demanda por bens e serviços. Por várias razões, os bancos centrais não conseguiram aumentar as suas medidas de inflação de volta até seus alvos 2,0%” ...

...” os itens que apresentam alguma inflação nos EUA, não é a do tipo que estimula o crescimento econômico. Pelo contrário, tem sido liderado pelo aumento dos aluguéis, e, mais recentemente, pelo aumento dos custos de saúde. É muito pouco provável que as atitudes de compra antecipada levarão as pessoas a alugar mais residências hoje, porque a renda será maior amanhã, ou correr para o hospital para obter um preço melhor hoje, porque ele vai ser mais caro amanhã! Maiores custos de aluguéis e de saúde, são semelhantes aos aumentos de impostos, pois reduzem o poder de compra disponível para outros bens e serviços” ...

Esse artigo chamou a minha atenção para dois pontos: primeiro que inflação de serviços não gera demanda, diferentemente dos produtos. Embora pareça óbvio não tinha parado para pensar nisso. Esse fato explica porque tanto estímulo monetário vem causando pequeno impacto na economia; e segundo, a inflação que existiu no primeiro período citado acima entre 1950 – 1980, não foi de todo mal, o problema aconteceu com o embargo do petróleo que acelerou a inflação a níveis mais destrutivos do poder de compra.

Conclusão: A inflação boa é só a de produtos, mas em pequenas doses.

No post desafiando-os-limites, deixei explícito que estávamos operando contra a tendência de mais longo prazo, que é de queda de juros. Na última sexta-feira fomos stopados com um pequeno resultado. Depois disso o mercado continuou caindo, afetado pela situação comentada acima do Deutsche Bank. Encontrasse agora de volta a 1,56% a.a.



Muito bem, vamos fazer as pazes com a tendência predominante, sugiro um trade de compra de juros, caso o nível de 1,45% a.a. – fechamento em NY, seja atingindo, com stop a 1,60% a.a. Caso esse trade seja executado, antevejo uma batalha ao redor de 1,30%/ 1,35% que, se rompido, poderá levar os juros a 0,90%, tudo isso a ser melhor calculado. Agora, o que deve acontecer para que os juros cheguem nesse nível, eu deixo à imaginação de cada um, mas não parece ser nada bom!

O SP500 fechou a 2.159, com alta de 0,64%; o USDBRL a R$ 3,2309, com queda de 0,25%; o EURUSD a 1,1215, com queda de 0,33%; e o ouro a US$ 1.326, com queda de 0,81%.
Fique ligado

Nenhum comentário:

Postar um comentário