Inflação: A Revanche

20 de fevereiro de 2017

Reservas for ever!


Certa vez, quando a inflação era elevada aqui no Brasil, uma reportagem de capa da revista Veja, foi feita com o Presidente do banco central da época. A foto tinha ele a frente sentado numa pilha de dólares. O artigo buscava mostrar que tínhamos reservas suficientes, e qualquer ataque especulativo seria em vão. A matéria também apontou que o volume dessas reservas podia ser considerado elevado.

Naquele momento específico eu acreditava que o dólar iria cair e aquela matéria vinha de encontro com minhas crenças (posições? Hahaha ...). Resolvi cutucar o pai de um amigo, que era um cético por princípio.

David: E aí Sr. “X” acha que o dólar vai subir com todas essas reservas?
Sr. “X”: Você acredita que estas reservas existem?
David: Mas esses são dados oficias, representam os depósitos que o BC tem nos bancos!
Sr. “X”: Só você para acreditar em contos de fada!

Naquela época apostar contra o dólar não era algo muito aconselhável, a política econômica estava desgovernada, e se em algum momento as coisas se descontrolassem, o dólar subia forte.

Na última sexta-feira foram publicadas as contas cambiais. O resultado foi um déficit de US$ 5,8 bilhões, acarretando um acumulado em 12 meses de US$ 23,8 bilhões (1,3% do PIB). Porém o que mais chamou a atenção foi a entrada de Investimento Direto cuja cifra alcançou expressivos US$ 11,5 bilhões, acumulando US$ 85 bilhões em 12 meses.


A Balança Comercial obteve um desempenho positivo de US$ 2,5 bilhões e um acumulado de US$ 47 bilhões em 12 meses. Essa magnitude de saldo coloca essa rubrica nos patamares de 2006, quando acontecia o pico nas cotações da commodities, beneficiando nossas exportações.


A conta de serviços atingiu um patamar de estabilidade ao redor de US$ 30 bilhões depois de chegar no pico a US$ 50 bilhões, ao final de 2015. Destaca-se nessa rubrica a elevação das despesas com viagens internacionais que registraram déficit de aproximadamente US$ 1,0 bilhão, reação esperada dada a valorização do real nos últimos meses. 

Na Conta de Rendas o déficit foi US$ 5,3 bilhões no mês (US$ 42,1 bilhões em 12 meses). Uma elevação na conta de remessas de lucros e dividendos, e das despesas liquidas de juros, foram as responsáveis pela elevação de 23% em relação a 2016. Das contas cambias essa última deverá apresentar maiores deficits, pois se espera maior envio de dividendos sobre os investimentos realizados.

Os Investimentos em carteira ainda apresentam saída líquida de US$ 1,0 bilhão. O interessante é que, na rubrica de títulos de renda fixa houve uma saída de US$ 1,9 bilhão, se contrapondo a uma entrada de US$ 1,1 bilhão em ações, e uma saída marginal nos fundos de investimento de US$ 0,2 bilhão. Embora a qualidade das entradas é um ponto de destaque nas contas cambias, com a troca de títulos de renda fixa por investimentos diretos, ainda fico intrigado do porque os estrangeiros estariam abandonando taxas de juros tão elevadas pagas nos títulos brasileiros.


As reservas internacionais mantêm-se intactas em US$ 375 bilhões. Esse nível permanece na casa dos US$ 370 bilhões há mais de 3 anos, com flutuações mínimas. Graças a isso não sofremos mais durante o período de elevada crise política. Houve um overshooting do dólar quando atingiu R$ 4,25, mas que, após o processo de impeachment, as cotações recuaram.

O Mr. “X” já faleceu, mas não tenho dúvidas que se estivesse vivo, repetiria seu mantra durante esse período. Acontece que os tempos mudaram, reservas de US$ 370 bilhões para um país como o Brasil é um nível extremamente confortável e afugenta qualquer tentativa dos especuladores. Por outro lado, o custo para manter esse saldo é extremamente elevado. Considerando uma cotação estável do dólar, hoje custaria US$ 40 bilhões. Naturalmente, os juros reais brasileiros também pesam aqui.

Fico pensando se esses recursos estão aí para sempre, como o cofre do Tio Patinhas que nunca se esgota. No caso dele, por que é pão duro. Num mundo que viveu anos de revoadas de helicópteros, viciou os bancos centrais a manterem volumes elevados de reservas e/ou títulos. Mas em algum momento, se é que as economias irão se normalizar algum dia, isso terá que reverter e provavelmente deverá acontecer também com nosso BC.

Os EUA se encontram mais próximos desse momento, uma vez que, seus helicópteros, já estão mais para recolher os dólares que lançá-los. O gráfico a seguir, mostra esse impacto nos vários mercados.


No post impasse-alemão, fiz os seguintes comentários sobre o real: ...” Do ponto de vista técnico tudo indica novas quedas do dólar, porém ao ficar polarizado num intervalo tão contido, tudo pode acontecer, até o dólar voltar a subir” ... ...” normalmente eu comento sobre o dólar no início da semana. Ficarei muito surpreso se o dólar continuar da mesma forma até lá. Alguém vai jogar a toalha! “... no dia seguinte essa barreira foi rompida e levou o dólar a novas mínimas de R$ 3,038.


Na quinta-feira passada, sem que nada de importante tivesse acontecido, o dólar iniciou uma recuperação o colocando de volta ao nível de R$ 3,1035, próximo do rompimento. Estamos diante de duas possibilidades que considero quase equiprováveis, vejamos:

Last Kiss – Regiões polarizadas, do ponto de vista técnico, tendem a ser rompidas (neste caso para baixo). Depois de um pequeno período em queda, um movimento contrário leva as cotações ao nível de ruptura, para que em seguida voltem a cair.

False break – O mercado fica tentando romper um determinado nível, até que uma onda de vendas faz com que ocorra a ruptura (normalmente originada por quem já está vendido).  Acontece que, nesses novos níveis (abaixo da ruptura), aparecem mais compradores e praticamente nenhum vendedor novo, fazendo as cotações subirem. Aqueles vendidos ao perceberem essa situação, também resolvem zerar suas posições, criando uma reversão no mercado.

O dólar se encontra em um desses dois casos e não consigo dizer em qual deles. A única coisa prudente que tenho a fazer é apertar o stoploss para R$ 3,15. Vocês notaram que considerei essas duas hipóteses como quase equiprovávies. Acredito que a queda do dólar ainda tem um pouco mais de chance de acontecer. Teria sido muito melhor se as cotações não tivessem retornado, mas como repito “ad nauseum”, Let´s the market speak!

Hoje foi feriado Nos EUA e as bolsas permaneceram fechadas, o USDBRL fechou a R$ 3,0860, com queda de 0,56%; o EURUSD a 1,0614, sem varaição; e o ouro a US$ 1.238, com alta de 0,23%.
Fique ligado!

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