Inflação: A Revanche

24 de agosto de 2015

Sangue nas ruas

Se você acha que o título do post hoje é sobre algum atentado ou coisa que o valia, não é bem o caso. Estou me referindo a onda de quedas nas bolsas do mundo, que se materializaram nesta segunda-feira. A bolsa chinesa depois de todas as quedas que sofreu nos últimos meses, nesta madrugada caiu 8,49%, eliminando todo o ganho do ano. Esse fato espalhou pânico para todas as bolsas, ocasionado o efeito que comentei no post China-o-epicentro-financeiro.

Alguns noticiários estão comparando essa queda a uma que ocorreu na bolsa de Nova York em 1987, que foi chamada de Black Monday. Eu me lembro bem desse dia, o mundo não era tão sofisticado como hoje, o que existia naquela época era um terminal com as cotações, sem internet, celular e Whatsapp. O índice Dow Jones caiu naquele dia 22,61%, um tombo de respeito. O que me impressionou naquele momento, era que, de um negócio para o outro, o SP500 oscilava quase 1%.

Se o passado fosse igual ao futuro, e o que aconteceu ontem foi um Black Monday 1.0, pode ficar tranquilo, pois no passado, logo depois a bolsa americana subiu sem parar. Mas não contaria com isso, a situação hoje é muitíssimo diferente.

Acredito que agora, as chances de elevação dos juros em setembro são muito baixas, o pessoal do FED não é louco. Mas o que realmente está dando o melhor indicador do stress recente, são os preços das commodities, que já deram alertas faz tempo. Mas será que os preços das commodities chegaram ao fundo do poço? Um relatório do Banco Barclays, não é tão otimista. O título é sugestivo "Long,slow and painful (probably more to come...)"

É um velho ditado em commodities que a melhor cura para os preços baixos são os preços baixos. Os participantes do mercado estão se perguntando quanto mais os preços precisam cair e quanto tempo eles precisam ficar lá para trazer a oferta e a procura de volta para o equilíbrio? O temor é que, assim como o lado positivo do superciclo trouxe um período de máximos históricos de preços sem precedentes, a queda, para o lado negativo, está se preparando para ser igualmente dramática.


Em termos de profundidade, comprimento e largura, isso já é uma desaceleração muito mais severa dos preços das commodities do que qualquer mercado tem experimentado na história recente. A queda de 15% no Bloomberg Commodity Index desde maio, significa que os preços são, em média, cerca de um terço menor do que eram há um ano, apenas metade do que eram quando a recuperação inicial da crise financeira atingiu o pico, em março de 2011 e apenas um terço dos máximos históricos para o índice atingido em 2008. Quase todos os ganhos associados ao chamado superciclo foram erodidos, e o índice está de volta a níveis não vistos desde 2002.
Há três fatores estruturais fundamentais que estão reforçando a tendência de baixa de longo prazo nos preços das commodities. A má notícia para os produtores é que, é difícil de ver qualquer um deles aliviar no curto prazo.

A primeira é a desaceleração na China e uma mudança em seu modelo de crescimento econômico que conduz a uma grande redução nas taxas globais de crescimento da demanda por commodities. Nos últimos cinco anos, a demanda chinesa por petróleo, cobre e alumínio aumentou, em média, cerca de 6%, 9% e 13%, respectivamente, em cada ano. Estão prevendo que essas taxas de crescimento vão abrandar para 3%, 2,4% e 2,5%, respectivamente, para os próximos cinco anos, e a transição para essas taxas de crescimento muito mais lento, está em andamento (veja a Figura 3).

O segundo fator é o fato de que muitos mercados de commodities importantes, permanecem extremamente com excesso de oferta e o processo de ajustamento pelo produtor ainda tem um longo caminho a percorrer. Em cada ciclo de baixa dos preços das commodities, os produtores tendem a se perguntar, por quanto tempo os "concorrentes" podem aguentar, até mesmo quando as margens são negativas, na esperança de que os outros irão "fechar" em primeiro lugar. No entanto, desta vez o excesso de oferta está sendo muito pior por causa de uma concorrência feroz por participação de mercado. Isso é mais evidente no mercado de petróleo, onde os países da OPEP fizeram ganhos de market share, o grupo aumentou a sua produção em mais de 1 milhão de b / d até agora, este ano. Enquanto seu alto nível de produção pode ser difícil de sustentar devido a ameaças de alguns países da OPEP, como o Iraque, onde existe pouco sinal ainda de qualquer declínio.

O terceiro e último fator estrutural de baixa das commodities é a tendência de alta de longo prazo no valor do dólar, ainda tem algum caminho a percorrer. Isso está colocando pressão descendente sobre as curvas de custo do produtor e asseguram que preços ainda mais baixos são necessários para provocar cortes de produção. Enquanto, ao mesmo tempo, aumentar os preços em moedas diferentes do dólar e, assim, reduzir a demanda sensível ao preço.

A Figura 4 mostra como a queda nos preços das commodities tornou-se entrelaçada com as moedas que caem de grandes produtores. Estas duas tendências tendem a se reforçar mutuamente. Os preços das commodities caem, levando a perspectivas de crescimento reduzidas em países produtores de commodities como o Brasil, a Austrália ou África do Sul. Isso coloca uma pressão de queda sobre as moedas locais, o que reduz os seus custos operacionais, e significa que, preços ainda mais baixos são necessários para forçá-los a cortar a produção. Desta forma, o círculo vicioso continua.

Enquanto que, a recuperação dos preços pode vir como alívio bem-vindo para alguns, a última coisa que os mercados de commodities precisam agora, é uma recuperação de preços de curta duração. Há pouca dúvida de que o rali do 2º trimestre dos preços do petróleo -, permitindo que os produtores realizassem boas margens aos vender contratos futuros, além de encorajar alguns produtores norte-americanos de petróleo apertados, a começar a perfuração de novo - elevaram o período de queda para do preço do petróleo, ao alongar o processo de ajuste na oferta. A repetição desse processo só vai prolongar a dor ainda mais.

Hoje recebi vários questionamentos, se esta ou aquela ação brasileira, não estaria barata. Minha resposta foi direta: O Ibovespa já atingiu 40.000? No post a-história-se-repete, fiz os seguintes comentários: ...o movimento destacado em azul é uma correção, isso tem duas implicações: Primeiro que não se tem ideia como é sua evolução, fixam-se os parâmetros; e segundo que ao terminar esse movimento, o outro que se sucederá será inverso. Com isso na cabeça, continuo com o target de 40.000, mas atento às mudanças, pode não chegar lá. No curto prazo, se cair abaixo de 44.000 pontos, a chance do meu objetivo aumenta bem...
Hoje a mínima atingiu 42.749, já dentro da faixa de atenção que citei acima. Está na hora de comprar? Não acredito! O que eu sei é que, tentar comprar um ativo na mínima é de pouca valia, a não ser para contar para aos amigos, que podem até nem acreditar. Prefiro entrar com mais evidências e por enquanto elas não estão presentes. Vamos aguentar mais um pouco. Se você está vendido, suba o stop novamente, um bom nível é ao redor de 47.000.

Também me perguntaram quando o índice chegaria a 40.000, e minha resposta não agradou. Não sei! O motivo baseia-se no que citei acima - em correções o movimento e a extensão são muito difíceis de estimar, existem pelo menos 39 tipos diferentes. Vou "chutar" um, só para dar uma de connosseur? Não seria honesto e só acertaria por sorte. Ficamos só com o nível.

Anotei no gráfico, a área onde o interesse na compra se eleva - 40.000/42.000, hoje chegou bem perto. Mas não vou me aventurar ainda, prefiro aguardar algum tempo, e correr o risco de ouvir deste leitor: "Não te falei!", ao ter que colocar a mão no bolso para pagar o prejuízo. Se alguém quiser usar a frase enganosa, quando um ativo cai muito de preço "quanto eu posso perder!", lembro que não mais de 100%! Hahahaha...

O SP500 fechou a 1.893, com queda de 3,94%; o USDBRL a R$ 3,5518, com alta de 1,50%; o EURUSD a 1,1596, com alta de 1,84%; e o ouro a US$ 1.153, com queda de 0,58%.
Fique ligado!

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