Inflação: A Revanche

11 de abril de 2016

Um peso duas medidas


O Japão precisa desesperadamente de um dólar mais forte, a China quer desesperadamente um dólar mais fraco: O FED não pode agradar a ambos.

O mercado de câmbio é um jogo de soma zero: se uma moeda enfraquece, outra sobe, uma vez que o valor de uma moeda é relativo a outras moedas, todas as moedas não podem enfraquecer juntas.

Uma moeda que se fortaleceu desde meados de 2014 foi o dólar. A mesma subiu 20%, enquanto o iene japonês e o euro enfraqueceram em 20%. Muitas moedas de economia em desenvolvimento (rand, peso, real, etc.) despencaram, declinando de 40% a 50% (ou até mais) em relação ao dólar.

Moedas definem a tendência subjacente, não apenas para títulos e ações, mas para economias inteiras. Uma moeda enfraquecida torna os produtos exportáveis de um país mais baratos em outros países. E a teoria é que, a expansão das exportações impulsiona a economia global - especialmente se essa economia está estagnada ou em recessão.

Uma moeda enfraquecida também torna as importações mais caras na economia doméstica, ocasionado uma inflação mais elevada - precisamente o que cada banco central no mundo deseja, na teoria de que, a inflação fará as pessoas gastarem mais (uma vez que o seu dinheiro está perdendo valor) e reduzir os custos dos empréstimos em moeda estrangeira (que se presume, estimula mais empréstimos e gastos).

É por isso que todo mundo parece querer uma moeda mais fraca. Mas como mencionado acima, todas as moedas não podem ir para baixo; se alguma enfraquecer, outras têm que se fortalecer.

O que nos leva à crise atual: por baixo da propaganda que tudo está bem no mundo, o dólar subindo desestabilizou a economia global de forma sutil: operações de compra de moedas com juros mais elevados para se beneficiar do que se denomina carry trade foram desfeitas, os fluxos de capital inverteram, as commodities cotadas em dólares têm despencado, e assim por diante.

O típico comentarista econômico elogiou o recente enfraquecimento do USD, uma inversão da tendência do dólar forte.

O Japão procurou enfraquecer o iene para impulsionar suas exportações e a inflação. Agora, o enfraquecimento do dólar está esmagando esses planos, uma vez que, o iene está subindo, com valorização de 14,5% desde dezembro último.



Com a alta do iene, o Japão está sendo empurrado para uma recessão. Depois de 20 anos de empréstimos para financiar o estímulo fiscal, a impressão de moeda, compra de títulos, etc., o Japão ficou sem opções. O enfraquecimento do iene a partir de 2012, foi a última esperança para impulsionar as exportações e inflação. Essa alta recente, pode ser o estopim de uma nova crise naquele país.

Enquanto isso, o fortalecimento do dólar empurrou a China na sua própria crise. A moeda chinesa, o yuan, é um caso especial porque o seu valor está atrelado ao dólar pelas autoridades monetárias chinesas.  Isso significa que, a moeda atrelada sobe e desce com a moeda mestre. Como o dólar subiu, ele arrastou o yuan para um nível mais elevado, em relação a todas as outras moedas, e a última coisa que as autoridades chinesas queriam ver, era o setor de exportação vacilante.

Como o dólar subiu, a pressão para desvalorizar o yuan também subiu. Se uma pessoa acha que o seu dinheiro está prestes a perder 20% do seu valor devido à desvalorização, o que ele pode fazer para proteger a sua riqueza? Manda seu dinheiro para o exterior.

Só a possibilidade de uma desvalorização do yuan provocou uma fuga de capital sem precedentes. Com enxurradas de dinheiro para fora da China em moeda e bens, como casas em British Columbia e palácios na França. A fuga de capitais não é um sinal que uma economia está florescente, ou evidência de que a classe mais rica confia na moeda ou a economia.

Recentemente, a China tomou pequenos passos para desvalorizar o yuan: não o suficiente para desencadear um pânico global, mas mais do que suficiente para provocar a fuga de capitais e causar um mal-estar profundo.



Como resultado, a China quer desesperadamente um dólar mais fraco. Com um dólar mais fraco enfraquece o yuan, alivia a pressão sobre as exportações chinesas e exigências de desvalorização. De maneira inversa, desde dezembro último, o yuan se desvalorizou em 1,5% em relação ao dólar.

Não é a toa que o Fed está balançando: não pode agradar o Japão e a China ao mesmo tempo. Se o dólar cai, a China fica mais aliviada, mas o Japão é empurrado para uma crise. Se o dólar sobe, o Japão está “salvo”, mas a China será forçada a desvalorizar o yuan ou assistir o declínio de suas exportações.

O FED tem uma escolha difícil, e o aviso soou. Ele pode quebrar o acordo informal com Shanghai, para enfraquecer o USD, e salvar Japão, ou deixar o dólar enfraquecer ainda mais para aplacar a China e as economias dependentes de commodities.

O mercado de câmbio está prestes a colocar o FED num dilema, e não há nada que se possa fazer sobre isso. O que os bancos centrais mais temem são mercados que não são rigidamente controladas. As autoridades monetárias do mundo estão prestes a enfrentar uma encruzilhada, decorrente de sete longos anos de manipulação implacável.

No post Dilma-vai-ou-fica, fiz os seguintes comentários sobre o dólar: ...” O primeiro nível seria em R$ 3,45 (1) e o segundo R$ 3,25 (2), ambos têm méritos técnicos que os justificam. Abaixo disso, algo mais profundo aconteceu e não pretendo fazer essa análise até que aconteça”...


Com o dólar negociando hoje abaixo de R$ 3,57, parece que o primeiro teste do nível ao redor de R$ 3,45, deverá acontecer essa semana. Acho que o dilema permanecerá no final de semana, onde será votado o processo de impeachment da Dilma.

Mesmo que eu tivesse certeza que a Presidente seria afastada, não operaria o dólar em cima dessa informação. Do ponto de vista técnico não existe razão para comprar dólar agora, e assim seguirei com essa indicação.

- David, e se a Dilma não for destituída, não vale uma compra na próxima sexta-feira?
Não, melhor você juntar sua família e ir à passeata de domingo, ao invés de ficar torcendo para ela não sair! Hahaha...  Não operamos opiniões e sim destaques técnicos! Mesmo que a sua hipótese se concretize, somente com a mudança do sinal técnico vou sugerir compra de dólares.

OSP500 fechou a 2.041, com queda de 0,27%; o USDBRL a R$ 3,4912, com queda de 2,89%; o EURUSD a 1,1406, sem variação; e o ouro a US$ 1.257, com alta de 1,45%.
Fique ligado!

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