2020: O risco vai compensar?

19 de maio de 2020

O rumor se espalha



Ontem fiz minhas observações sobre um cenário pouco difundido do qual denominei de plano β. Nele descrevi que o maior impacto poderia acontecer no mercado de bonds por conta de uma elevação da inflação. Hoje a Bloomberg publicou um artigo enfatizando esse risco e ressaltando que as pessoas veem esse cenário como pouco provável.

Depois que o mundo finalmente avançou além da crise do Covid-19, pode ser necessário enfrentar um perigo que quase todo mundo esqueceu (menos o Mosca! Hahaha ...): inflação mais alta. No momento, é a última coisa que preocupa investidores e governos, e é exatamente isso que torna a ameaça tão plausível.

Faz décadas que os governos perderam o sono devido à alta inflação. Especialmente desde a Grande Recessão de 2008, sua maior ansiedade tem sido exatamente o oposto: os bancos centrais têm lutado para aumentar a inflação para suas taxas-alvo, e com as taxas de juros bloqueadas há anos no chamado limite inferior efetivo (zero ou um pouco menos ), preocuparam-se principalmente com o risco de deflação.

Esse é o pensamento atualmente precificado nos mercados financeiros. Não há vestígios de inflação mais alta em nenhuma das medidas padrão de expectativas. E, em face disso, isso faz sentido. O Covid-19 causou um forte choque deflacionário no sistema. A demanda caiu, apesar do forte estímulo fiscal e do recurso a medidas monetárias pouco ortodoxas. Sim, a oferta também caiu, mas o efeito líquido até agora parece ter sido um déficit ainda maior do que antes da demanda em relação à oferta - que é o que significa "choque deflacionário".

Em algum momento, porém, isso pode mudar. Suponha que o Covid-19 cause danos significativos e persistentes a longo prazo às cadeias de produção e suprimento mundiais. E suponha que governos e bancos centrais continuem alimentando a demanda em um esforço para apoiar os padrões de vida, como se essa queda na produção potencial não tivesse acontecido. Nesse caso, você espera que a inflação suba.

Esse pensamento complica as questões para investidores avessos ao risco perturbados pela oscilação dos mercados de ações. Ativos como ações são um hedge contra inflação mais alta (os ganhos aumentam quando os preços sobem). Os investidores em títulos de médio ou longo prazo, por outro lado, correm muito risco se a inflação acelerar. O dinheiro também não é tão seguro assim pois uma inflação mais alta começa a corroer seu poder de compra.

É improvável que isso seja uma preocupação nos próximos meses ou trimestres. Por enquanto, certamente é necessário um apoio monetário e fiscal irrestrito. Mas o desenrolar subsequente dessas medidas não será direto, e é aí que o risco de inflação mais alta pode surgir.

Por um lado, os níveis de dívida pública certamente serão muito mais altos e, no devido tempo, a atenção voltará para as etapas necessárias para contê-los. Nesse ponto, as economias ainda podem estar longe do pleno emprego, porque o ajuste pós-coronavírus provavelmente envolverá alguma reestruturação da economia, em vez de apenas recontratar as pessoas em seus antigos empregos. Nesse contexto, haverá resistência à "austeridade" renovada - significando aumentos e cortes de impostos nos gastos públicos. No entanto, sem um aperto fiscal deliberado, os governos podem achar mais difícil convencer os investidores a continuar comprando suas dívidas, o que, por sua vez, reduziria os preços dos títulos e elevaria as taxas de juros.

Isso colocaria o Federal Reserve e outros bancos centrais em conflito. Será que, permitiriam que as taxas de juros aumentassem antes que todos estivessem de volta ao trabalho, e a tendência de saída antes do coronavírus fosse retomada? Isso não parece garantido. O duplo mandato do Fed exige que ele pese tanto o emprego quanto a inflação; o mandato do Banco Central Europeu não, mas isso não impediu o BCE de se comportar como se fosse. A tentação de manter o estímulo por todos os meios necessários - e de fato o argumento legítimo para fazê-lo - seria forte. Essa é uma perspectiva inflacionária.

Há outro ingrediente vital: o consenso da opinião de especialistas mudou - e, ajudado pelo Covid-19, ainda está mudando - para negar tal perigo.

Como Keynes apontou, a importância das ideias para políticas públicas nunca deve ser subestimada. A recente retirada do objetivo de liberalização do comércio seguiu o desencanto com a convicção anterior (e basicamente correta) de que o comércio é bom. Algo semelhante está acontecendo com a inflação. A maioria dos economistas que expressam uma visão sobre ela está profundamente desarmada, seja porque não conseguem imaginar a volta ou porque preferem que volte. Se ou quando a inflação começar a subir, eles estarão prontos com argumentos para permitir que isso aconteça, descartando-a como um espasmo ou até, de certa forma, uma coisa boa.

A próxima fase deste debate já começou na Europa, cortesia do tribunal constitucional da Alemanha. A questão subjacente é se a independência do banco central deve abranger explicitamente ferramentas quase fiscais, para que o BCE possa continuar fazendo o que for necessário para apoiar o sistema do euro, sem interferência política. Observe, no entanto, que a nova defesa da independência do banco central, não se trata de manter os políticos gastadores afastados da política monetária, definida de maneira restrita; trata-se de impedir que políticos fiscalmente conservadores imponham seus medos, supostamente infundados de inflação, dívida pública excessiva e transferências entre a União Europeia sobre políticas econômicas em geral.

Esse tipo de mudança de regime intelectual pode ter consequências não intencionais. Agora que quase todo mundo está convencido de que a inflação acabou definitivamente, parece que o risco de um retorno é muito sério.

Esse artigo enfatiza o enorme volume de recursos injetados nas economias mundiais dos países desenvolvidos, mesmo sem considerar uma hipótese mais robusta de consumo, consequência de uma vacina contra o corona vírus. Outro ponto a se destacar é o elevado volume de títulos que os bancos centrais já têm em suas posições e que irão crescer daqui em diante. Como se pode ver a seguir, pode se considerar que, mais de 1/3 de toda a dívida publica estará em suas mãos. Sendo assim, qualquer alta da inflação terá efeito em seu resultado, elevando ainda mais o déficit público.


No post  binoculo-de-longo-alcance, fiz os seguintes comentários sobre o SP500: ... “ Se a bolsa está tomando um folego para se preparar para novas altas, isso deveria acontecer no nível compreendido entre 2.780 a 2.690. Caso não seja contida e continue caindo até 2.530, vai entrar numa zona indefinida, onde a priori eu não poderia dizer qual seria a sequência, embora a chance de novas altas fica diminuída, mas não eliminada. Por último, abaixo desse último, fica abortada a alta, pelo menos no curto prazo” ... Na semana passada atingiu a mínima de 2.766, e em seguida subiu para testar novamente o nível crítico de 2.960.

Parece que o SP500 está querendo romper essa barreira de forma mais definitiva, entretanto eu gostaria de aguardar uma pequena retração para sugerir um trade de compra. Sendo assim, vou deixar uma sugestão para entrar a 2.870 com stoploss a 2.770. Tendo em vista a volatilidade mais elevada sugiro uma posição equivalente a 40% das antigas.

Quero deixar claro que esse é um trade ainda especulativo, somente a ultrapassagem do nível de 2.970 sugere um conforto maior. No gráfico acima estabeleci alguns pontos: Se o SP500 cair abaixo do stoploss que defini, significa que, as premissas identificadas no post acima ainda são válidas. Por outro lado, ultrapassando o nível de 2.970, que identifiquei como o divisor de águas, se existir ainda algum vendido acreditando na queda da bolsa, creio que em 3.150 é aonde eles jogarão a toalha, abrindo espaço para o SP500 rumar a máxima de 3.400.

O SP500 fechou a 2.922, com queda de 1,05%; o USDBRL a R$ 5,7542, com alta de 0,62: o EURUSD a 1,0922, sem variação; e o ouro a U$ 1.746, com alta de 0,73%.

Fique ligado!

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