2020: O risco vai compensar?

14 de setembro de 2020

Cada macaco no seu galho

 

Conforme uma economia evolui, mais ela se torna dependente de serviços e menos da manufatura. Mas será que essa é a melhor composição para países em desenvolvimento?

Um relatório publicado no site Project Syndicate, assinado por Célestin Monga, ex-economista do World Bank, expõe suas ideias, sobre esse assunto.

À medida que o mundo se prepara para a era pós-pandemia, a busca por um crescimento econômico sustentável se torna cada vez mais intensa - especialmente para os países em desenvolvimento. É tentador pedir a esses países - o principal motor do crescimento global nas últimas décadas - que mudem suas estratégias de desenvolvimento da industrialização para os serviços. À medida que as novas tecnologias permitem cada vez mais a produção e o comércio de serviços como bens, alguns economistas chegam a sugerir que as economias de baixa renda deveriam pular totalmente o estágio de desenvolvimento da manufatura e ir diretamente da agricultura tradicional para a nova “escada rolante do crescimento” dos serviços.

A crença de que os serviços representam o novo paraíso para os países em desenvolvimento deriva em parte de estudos empíricos que mostram que, o comércio de serviços aumentou mais rapidamente do que o comércio de produtos manufaturados desde 2000 e, em particular, desde 2011. A ruptura das cadeias de valor global causada pela COVID- 19 apenas reforçou essa crença.

Além disso, novas tecnologias, como redes 5G e computação em nuvem, estão fragmentando os processos de serviço e abrindo novas possibilidades de terceirização de atividades caras e com altos salários. Essas tendências estão gerando uma chamada “terceira desagregação”, por meio da qual alguns serviços antes não negociáveis ​​se tornam negociáveis. Com as maiores economias do mundo envolvidas em guerras tarifárias e em declínio acentuado do comércio global, muitos consideram os serviços o motor de crescimento e emprego mais adequado, porque podem ser digitalizados e são menos suscetíveis a barreiras alfandegárias e outras barreiras logísticas.

Mas essa fé cega no crescimento liderado pelos serviços é uma ilusão perigosa e os argumentos que a sustentam são profundamente falhos.

Para começar, a tendência de queda na relação comércio global / PIB na última década deve ser posta em perspectiva: um estudo de Giovanni Federico e Antonio Tena-Junguito mostra que embora o comércio mundial desde 1800 tenha frequentemente sofrido recuos temporários, o fundamental e a tendência consistente são de alta. O comércio e a globalização tornaram o mundo muito mais rico e continuarão sendo as rotas mais confiáveis ​​para a prosperidade e a paz.

Em segundo lugar, a manufatura - não os serviços - continua sendo o principal motor do crescimento global. É verdade que a inovação de alta tecnologia está confundindo os limites entre os novos sistemas de produção físicos e digitais e mudando as fronteiras convencionais entre agricultura, indústria e serviços. Por exemplo, novos desenvolvimentos em tecnologia da informação e comunicação estão permitindo que os agricultores tradicionais em todo o mundo se conectem às cadeias de valor globais na produção e serviços agroindustriais.

Mas essas mudanças não alteram o fato de que a industrialização ainda é fundamental na busca pela prosperidade econômica. A revolução digital está abrindo principalmente novas oportunidades para acelerar a inovação e impulsionar o conteúdo de valor agregado da produção industrial. Um relatório recente da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial mostra que, o valor agregado na manufatura mundial teve um crescimento médio anual de 3,1% entre 1991 e 2018, um pouco acima da taxa média de crescimento do PIB de 2,8%. Como resultado, a contribuição da manufatura para o crescimento do PIB mundial aumentou de 15,2% em 1990 para 16,4% em 2018.

Terceiro, o valor atual do comércio global de serviços é apenas um terço do dos bens manufaturados, embora os serviços representem 75% do PIB e 80% do emprego nos países da OCDE. A maior parcela de empregos das economias avançadas em serviços comercializáveis ​​é simplesmente um passo lógico no processo de modernização industrial e transformação estrutural, e reflete sua vantagem comparativa em estar perto da fronteira tecnológica e depender principalmente de mão de obra altamente qualificada e capital financeiro.

Por outro lado, a vantagem comparativa dos países em desenvolvimento é a mão-de-obra de baixo custo, eles não devem tentar imitar a estratégia de crescimento liderada pelos serviços em voga nas economias avançadas sem ter a base de habilidades para sustentá-la.

Além disso, a alegação de que a industrialização criará menos oportunidades de emprego do que no passado, porque os robôs estão cada vez mais substituindo o trabalho humano, permanece conjectural. Embora a automação elimine muitos empregos, provavelmente também criará indústrias e empregos em atividades mais qualificadas. Uma vez que, consideramos os efeitos indiretos ao longo da cadeia de valor, o aumento no estoque de robôs usados ​​na manufatura global está na verdade criando empregos, e não destruindo-os. Além disso, em situações em que o progresso tecnológico e a proliferação de inteligência artificial (IA) levam ao desemprego e pioram a desigualdade, políticas públicas sólidas (como a tributação não distorcida cobrada para compensar aqueles que de outra forma perdem seus empregos) podem conter esses efeitos negativos.

Em quarto lugar, o status dos serviços como a principal fonte de crescimento em muitos países em desenvolvimento (pelo menos de acordo com estatísticas oficiais de contabilidade nacional) reflete principalmente as falhas das estratégias de industrialização que não estavam alinhadas com as vantagens comparativas dessas economias, bem como a excessiva informalização nas agricultura e atividades relativamente improdutivas. Serviços de baixa qualificação podem ajudar muitas pessoas a escapar da pobreza extrema, mas não são motores confiáveis ​​de crescimento e desenvolvimento econômico sustentável.

Sem dúvida, os serviços comerciais negociáveis ​​(incluindo serviços de TIC (*), intermediação financeira, seguros e serviços profissionais, científicos, técnicos e médicos) podem fornecer oportunidades para integração global baseada em serviços devido às grandes diferenças salariais entre os países. Mas, novamente, isso acontecerá apenas quando os países em desenvolvimento melhorarem sua base de capital humano - um processo de longo prazo e caro.

(*) TIC consistem em todos os meios técnicos usados para tratar a informação e auxiliar na comunicação, o que inclui o hardware de computadores, rede, tele móveis.

Da mesma forma, o surgimento de tecnologias avançadas de produção digital (incluindo robótica, IA, manufatura aditiva e análise de dados) abre novas possibilidades em serviços como telemedicina e tele robótica. Mas essas atividades também exigem trabalhadores altamente qualificados, e os sistemas de educação e os resultados da maioria dos países em desenvolvimento, infelizmente, impedem que grande parte da força de trabalho concorra com sucesso. Dadas essas restrições, defender que economias com fraco capital humano superem a industrialização é uma receita para mais informalização e pobreza.

Para os países mais pobres, a industrialização continua sendo a principal via para um desenvolvimento bem-sucedido. Produz maior crescimento de produtividade e desenvolve e fortalece as habilidades e capacidades de que os países precisam para garantir um nicho competitivo na economia global. As novas tecnologias também permitem que os retardatários construam empresas de manufatura ambientalmente sustentáveis. Em suma, os países em desenvolvimento deveriam descartar os relatórios sobre o fim da indústria como a chave para a prosperidade futura. Os serviços de ponta podem e devem esperar.

Não poderia concordar mais com essas ideias. No caso específico do Brasil, como poderíamos competir com países que tem um elevado grau de instrução da sua força de trabalho? Essa tendência pode ser verificada na evolução de nossa Balança Comercial, observem que o motor das exportações são as commodities, aonde, pela característica de nosso território, possuímos vantagem comparativa.

Na área de serviços, em que poderíamos ter alguma vantagem comparativa? Nem no futebol, onde éramos conhecidos como o país desse esporte, revelando jogadores fora de série. O motivo é que não basta ter habilidade, é necessário um preparo físico da qual não nos destacamos. Desta forma, assistimos partidas do esporte paixão da população, que são lamentáveis.

O que você poderia perguntar é se, sendo um grande produtor de comodities é suficiente para gerar um crescimento sustentável. Acredito que não. Observando o empenho de nossos governos na educação, teria poucas razões para ficar otimista em vislumbrar uma economia voltada aos serviços de forma competitiva.

Em resumo, na economia vale a famosa frase: cada macaco no seu galho!

O gráfico a seguir é uma coletânea da inflação de vários componentes do CPI americano. Sem se preocupar, ou justificar o motivo de um movimento específico, eu pergunto: Vivemos numa situação normal?


No post tudo-é-possível, fiz os seguintes comentários sobre o dólar: ...” desde a última publicação, o dólar recou mais um pouco, no seu provável caminho aos objetivos traçados acima. Por enquanto não teria mais nada a enfatizar” ...


Poderia repetir a mesma frase feita na semana passada. A única observação que teria seria o fato de a volatilidade estar retornando a níveis mais normais. Desta forma, o objetivo a R$ 4,96 ou R$ 4,57 continua vigorando. Reforço o lembrete feito no post ... “outro cenário começa a ganhar mais tração caso o dólar caia abaixo de R$ 4,57” ...

Em conversa com alguns empresários, relatam que suas vendas estão crescendo de forma robusta, muito acima de suas expectativas. Esse movimento é mais sentido no Norte do país, aonde os R$ 600 fizeram a diferença. Alguns analistas, acrescentam que milhões de indivíduos não deveriam ter recebido, mas em função de um cadastro mal construído, acabou beneficiando. Essa é uma demanda temporária que deve cessar quando acabar esse incentivo. Por esta razão, nossa recuperação tem sido muito superior ao de outros países emergentes. Por enquanto.


O SP500 fechou a 3.383, com alta de 1,27%; o USDBRL a R$ 5,2695, com queda de 1,26%; o EURUSD a € 1,1864, com alta de 0,23%; e o ouro a U$ 1.958, com alta de 0,85%.

Fique ligado!

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