2020: O risco vai compensar?

2 de setembro de 2019

o juro positivo impagável



Me lembro há 25 anos quando os títulos da Argentina eram muito mais valorizados que os brasileiros. Naquela época, o CDS – Credit Deafult Swap medida do retorno de um título soberano acima da taxa do tesouro americano, era a metade da brasileira. Na linear, nós acreditávamos ser um absurdo essa diferença e montamos operações objetivando a diminuição dessa diferença. Mas como dizia Maynard Keynes, o mercado pode ficar mais tempo irracional que você solvente, e acabamos perdendo dinheiro nessa posição.

No ano 2001, o país vizinho declarou moratória considerada a maior da história de U$ 102 bilhões. Dez anos antes, havia implantado um plano de conversibilidade da moeda denominado de plano Cavallo, em homenagem a seu Ministro da Economia, Domingos Cavallo, para conter a inflação. A taxa de conversão era de U$ 1,00 para cada peso argentino.

Em dezembro desse ano, a Argentina declarou moratória, sem conseguir um acordo com o FMI. O embate iniciado em 2005, só foi renegociado em 2005, pelo então Presidente Nestor Kirchner, oferecendo U$ 0,25 para cada U$ 1,00 de dívida vencida. Um momento semelhante se aproxima novamente na Argentina.

Quando assumiu o governo argentino em 2014, Maurício Macri, um empresário que até presidiu o Boca Juniors, assumiu com a esperança de tirar a Argentina da estagnação deixada pelo casal Kirchner, cuja inflação era elevada mesmo seus índices tendo sido manipulado pelo governo. Acontece que não teve força ou coragem para enfrentas as dificuldades que estava implícito nesse momento.

No ano passado, com uma economia estagnada, inflação elevada e alto desemprego, as reservas internacionais começaram a cair empurrando a taxa de câmbio para cima. Foi quando o governo firmou um acordo com o FMI de U$ 50 bilhões para estancar o dreno de reservas.

Desde então, a situação não melhorou, ao contrário, o modelo do Fundo aprofundou a recessão, culminado com o resultado da última na votação primária realizada no mês passado que colocou na dianteira a dupla peronista, Alberto Fernandez e Cristina Kirchner, levando a cotação do peso para próximo a 60 pesos. Uma alta espetacular de 360% no mandato atual de Mauricio Macri, faltando ainda 90 dias para seu término.


O governo da Argentina impôs controles de capital em sua última tentativa de impedir o esgotamento das reservas em moeda estrangeira, em meio a uma crise de confiança que alimentou as saídas de dólar e a turbulência do mercado financeiro.

A medida inesperada, que entra em vigor hoje, ocorre depois que o governo do presidente Mauricio Macri procurou na semana passada estender unilateralmente a maturidade de todos os papéis de curto prazo, depois que ele não conseguiu cumprir com as obrigações como resultado da queda da demanda por dívida do governo.

O banco central está vendendo dólares a um ritmo mais rápido, em um esforço para conter uma forte depreciação do peso argentino. As reservas caíram US $ 12,2 bilhões desde 9 de agosto, ou cerca de 20% das reservas em moeda estrangeira. O peso perdeu mais de 20% de seu valor.

Em um decreto divulgado no domingo, o governo disse que o banco central limitaria as vendas em dólar, exigindo autorização de empresas e bancos para comprar moeda forte. Os exportadores do país seriam obrigados a repatriar toda a moeda forte das vendas no exterior.

Indivíduos que procuram comprar dólares terão um limite de US $ 10.000 por mês. As transferências bancárias para o exterior por pessoas físicas também terão um limite mensal de US $ 10.000. As compras em dólares de não residentes ficarão restritas a US $ 1.000 por mês e eles não poderão fazer transferências bancárias no exterior.

Se essas medidas não surtirem efeito no curto prazo a próxima ação seria um controle de capital rígido onde para ocorrer uma operação de envio de recursos ao exterior seria necessário obter esses dólares de um exportador ou quem estivesse disposto a trazer recursos. Me recordo que essa foi a sistemática implantada no Brasil quando da moratória.

A Argentina atraiu investidores no exterior há 2 anos oferecendo juros atraentes. Tamanha era a demanda que, chegou a emitir um título de 100 anos de vencimento, com um grande sucesso na sua colocação. Passados pouco tempo, esses investidores já podem contar com um desconto do seu valor de face, pois não existirá outra saída, a dúvida é qual a composição do trio: desconto, prazo e juros, só assim será possível calcular o seu prejuízo.

Em outros locais, o problema são os juros negativos, que a cada dia que passa, se juntam os vencimentos que se enquadram nessa situação. No gráfico a seguir se pode ter uma boa ideia dos volumes e regiões.


Por enquanto quem está nesse clube seleto são em sua grande maioria os títulos soberanos, cujo principal está garantido de retornar, ou é como hoje estão classificados. Sendo assim, as vezes é melhor um juro negativo pagável que um juro positivo impagável!

No post cego-em-tiroteio, fiz os seguintes comentários sobre o dólar: ... “Como vocês podem notar a seguir, acredito que estamos próximo do esgotamento do movimento que levou a moeda americana de R$ 3,71 em julho, o que sugere uma queda entre R$ 3,99 – R$ 3,94” ...


Porém, as cotações continuaram a subir chegando próximo a R$ 4,20, quando o banco central ofereceu dólares sem contrapartida de swaps. Isso não foi suficiente para a reversão que eu espero, deixando o nível atual em R$ 4,18 ainda com possibilidade de novas altas.

Um quadro chamou minha atenção sobre o posicionamento do real. Eu imaginava que haveria uma grande aposta contra o real feito pelos investidores estrangeiros, porém, como se pode notar a seguir, a situação é inversa, os mesmos estão comprados no real em proporções elevadas. O que não é bom, pois pode ser mais uma força vendedora caso seus stoploss sejam atingidos.

Tirando a situação da Argentina, que é um caso à parte, todas as moedas dos emergentes se encontram sob pressão. Na minha visão, a desvalorização do Yuan empurra todas no mesmo sentido, variando somente a intensidade.


No próximo gráfico aponto quais são os níveis do dólar caso a cotação ultrapasse o nível de R$ 4,22. O primeiro patamar seria a R$ 4,35 que se ultrapassado objetivaria R$ 4,90. Caso esse último cenário aconteça irá significar uma queda de aproximadamente 20%, com consequências na economia e alguma pressão na inflação.


Embora ainda distante, caso essa alta do dólar aconteça, fico pensando qual seria os argumentos do Bolsonaro, O motivo é que, nosso presidente se espelha muito no presidente americano, e no quesito câmbio o que o Trump gostaria é que sua moeda sofresse desvalorização, o que acontece por aqui. Será que o Bolsonaro ficará feliz como Trump ficaria, ou preocupado com os motivos dessa desvalorização. Espero que fique com a segunda opção.

Haja visto o feriado americano, a bolsa ficou fechada por lá, o USDBRL fechou a R$ 4,1842, com alta de 0,96%; o EURUSD a 1,0970, com queda de 0,18%; e o ouro a U$ 1.530, com alta de 0,69%.

Fique ligado!

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