2020: O risco vai compensar?

29 de agosto de 2019

Encarando a realidade



Aprendamos na vida a duras penas que nem sempre o que desejamos acontece ou é possível. As vezes situações já estabelecidas são revertidas contra nossa vontade. O pior a se fazer nesses momentos e tentar recuperar algo irrecuperável. Para dar um exemplo, como torcedor do futebol, quantas não foram as vezes que seu time estava no auge e de repente começa a decair. Não adianta ficar lembrando dos bons tempos ou torcer para que volte a jogar como antes, essa atitude cria um imobilismo que paralisa suas ações.

Observando a nova realidade se deve buscar outras soluções nesse novo contexto, e é isso que a China está dando sinais de estar fazendo.

Após um mês de mais uma escalada na guerra comercial EUA-China, a estratégia da China para a próxima etapa da disputa está se tornando clara. Sua liderança agora parece comprometida com uma tática de resistência às tensões comerciais: deixar a economia desacelerar enquanto fornece algum apoio direcionado, permitindo a moeda ajustar enquanto se inclina contra a volatilidade, e mantendo suas posições estabelecidas em negociações com os EUA. Isso significa que a perspectiva de um acordo comercial EUA-China está recuando e, portanto, que o crescimento global enfrentará ventos contrários; de fato, o comércio global já está em declínio. Por fim, essa estratégia é uma aposta que a China ficará melhor do que o governo dos EUA ao resistir à política e pressões econômicas criadas por essas interrupções no comércio e no fluxo de investimento.

Essa confiança pode parecer surpreendente para um país cuja moeda perdeu -3,8% em relação ao dólar em agosto. Contudo, a política monetária e econômica é quase ostensivamente calma, apesar da mais recente escalada de tensões na sexta-feira – quando a China anunciou tarifas em retaliação pelas impostas pelos EUA.

O agravamento das tensões comerciais não levou, portanto, a China a renunciar sua surpreendente declaração recente de que não estimulará o mercado imobiliário. A Habitação levou a China à recuperação cíclica recente em 2016-17, mas uma repetição dessa recuperação parece muito improvável. Em vez disso, o governo está confiando em sua estratégia de incrementar medidas de apoio ao consumo, e incentivar os bancos a emprestar para empresas privadas, e não para as estatais. Como nenhuma dessas medidas provavelmente trará um forte impulso cíclico para a economia, essa tática significa que está aceitando o crescimento desacelerando, tentando apenas moderá-lo.

A estratégia cambial da China também não mudou. O renminbi atingiu uma nova baixa de
CNY7,16, contra o dólar americano nesta semana. Mas isso é simplesmente uma taxa de câmbio flexível que se ajusta a mudanças nos termos de troca implícitas em tarifas mais altas. A China não mostra sinais de desvalorizar ativamente sua moeda. O PBOC desta semana estabeleceu a fixação diária para o renminbi em um nível muito mais forte do que onde o mercado está sendo negociado. A diferença crescente entre a fixação e a taxa de mercado mostra que o banco central está pressionando contra a depreciação, em vez de adotá-la. Deixando um preço mais barato para moeda, suaviza o impacto das tarifas, limitando o risco de pânico financeiro e saídas de capital.

Obviamente, a China ainda gostaria que as tarifas dos Estados Unidos desaparecessem, e o Vice-Premier, Liu He, reiterou segunda-feira que a China continua aberta às negociações. Isto não é mais do que disse em muitas ocasiões anteriores, mas não ofereceu qualquer abrandamento das pré-condições públicas da China para um acordo. As recentes escaladas de Trump, em vez de dar aos EUA mais influência sobre a China, tornaram um possível acordo mais difícil. Qualquer acordo alcançado agora teria que abranger mais questões - mais tarifas, e as restrições de exportação dos EUA impostas na Huawei - além do discutido em maio.

A China também não pode dizer se Trump realmente quer um acordo. Ele tem oscilado entre duas estratégias: estabelecer-se para fazer um acordo com a China que impulsiona os mercados e produz um salto eleitoral em novembro de 2020; ou ser tão duro com a China que qualquer oponente democrata parecerá fraco por comparação. Trump cada vez mais parece favorecer os "durões". Mas sua estratégia de ficar oscilando significa que a China também tem cada vez menos incentivo para cooperar com a ideia de "vamos fazer um acordo".

Quanto mais próximas estiverem as eleições presidenciais dos EUA, menos incentivo a China tem para entregar a Trump qualquer recompensa pela guerra comercial, e ao contrário, mais incentivo para deixa-lo sofrer as consequências. Mercados de ações em queda, exportações em declínio e uma moeda chinesa mais fraca são problemas políticos sem dúvida maiores para Trump do que eles são para a liderança da China. Afinal, uma desaceleração abaixo de 6% do PIB, é um crescimento que dificilmente seria um desastre para a China. A liderança não é mais tão comprometida cegamente com as metas de crescimento do PIB e tem boas razões tecnocráticas por evitar um grande estímulo (risco do sistema financeiro e preços irreais da habitação).

O risco dessa estratégia é que a China supere a força de sua própria economia ou subestima a força da economia americana. Os gastos do consumidor Chinês continuam a enfraquecer, seu esforço para aumentar os empréstimos e investimentos por empresas do setor privado não está funcionando, e é improvável que a força surpreendente das exportações e da construção em 2019 dure em 2020. Enquanto isso, os EUA não parecem prestes a entrar em recessão, com a habitação começando a se recuperar, em função do declínio das taxas de juros. Resistir à guerra comercial é um jogo que ambos os lados podem jogar.

Tudo indica que a China aceitou essa nova realidade e trabalha no meio tempo para se adequar a essa nova situação, sem ter que se sujeitar as condições impostas pelos americanos. Já é de longa data que o mercado espera uma mudança do foco da China, com a diminuição de suas exportações e um aumento do consumo interno. A segunda parte já estava em andamento, porém a primeira ainda se encontra distante, pois os chineses são adictos das exportações. Essa nova situação deve acelerar esse caminho o que tornaria a ação de Trump com efeito muito reduzido.

Naturalmente, mudanças desse tipo deveriam ser feitas de forma suave para evitar choques, mas a China entendeu que a realidade lhe impôs um desenho mais acelerado, e parece que é esse caminho que adotou, correndo os riscos inerentes de uma mudança tão grande. Se esse caminho for um sucesso, o que Trump irá conseguir é elevar o preço dos produtos para os americanos sem conseguir interromper a jornada da China de se tornar a maior potência do globo.

No post mais-do-mesmo, fiz os seguintes comentários sobre o ouro: ... “eu acredito que existe uma chance de o ouro continuar subindo, razão pela qual, vou propor um trade de compra a U$ 1.485 com stoploss a U$ 1.465” ... ... “O gráfico abaixo com uma janela mais curta, aponta para uma correção “leve”, aonde o Mosca vai tentar uma incursão. O trade proposto acima, será eliminado caso o metal suba acima de U$ 1.535, o que indicaria que o próximo objetivo entra na mira” ...

A mínima atingida foi de U$ 1.390 muito próxima do limite colocado no trade. Em seguida, as cotações subiram e rumam ao novo objetivo de U$ 1.560/ 1.580. Se esse limite for atingido, vou observar a possibilidade de que uma correção esteja a caminho.

Venho enfatizando já faz algum tempo que, o ouro poderia atingir um nível de grande importância. Se uma queda se suceder a partir desse patamar, o próximo movimento irá definir se é realmente uma correção, ou a alta do ouro se esgotaria, originado um novo movimento de baixa de mais longo prazo. Observado de hoje, parece que a primeira opção é mais provável, e nesse caso o ouro retornaria ao nível aproximado de U$ 1.500, num período de algumas semanas, para depois voltar a subir.

O que irá determinar se é um caso ou outro será o shape desse movimento, e mesmo sendo mais improvável uma queda mais forte, não se pode descartar do ponto de vista técnico.

O argumento de que o ouro voltou a moda num mundo de juros negativos, é para mim, não muito convincente. Diferentemente das ações onde existe uma companhia que gera lucros, cresce e proporciona dividendos, o ouro não cresce nada, não gera lucro, nem distribui um tostão. Para valer a pena ficar posicionado no metal é fundamental que os preços subam sempre. No meu entender, o contexto de que não paga juros negativos não é persuasivo, pois o preço pode cair, e assim, seu resultado seria um prejuízo maior que os juros negativos.

A compra de ouro sempre foi um refúgio contra moedas que passam por um processo inflacionário, ou com dúvidas da sua solvência. Para um venezuelano faz todo sentido (argentino também), mas não vejo uma desconfiança na moeda americana, nem tampouco risco de inflação. Sendo assim, pode ser que o ouro está pegando uma carona no tema dos juros, mas como todo “caronista”, uma hora chega a seu destino!

O SP500 fechou a 2.924, com alta de 1,27%; o USDBRL a R$ 4,1688, com alta de 0,34%; o EURUSD a 1,1058, com queda de 0,17%; e o ouro a U$ 1.527, com queda de 0,72%.

Fique ligado!

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