2020: O risco vai compensar?

1 de outubro de 2019

A matemática do juro negativo



O investidor menos informado pode se perguntar como é possível ganhar dinheiro num título com juro negativo. A pergunta é válida e não é intuitiva. Para responder essa pergunta é necessário conhecer o funcionamento desse título. Para explicar, vou partir de um exemplo simples. Suponha um título que paga juros somente no vencimento é que tenha as seguintes caraterísticas.

Valor: U$ 1.000
Taxa: 3% a.a.
Vencimento: 10 anos
Valor de resgate: U$ 1.343,91

Depois de emitido esse título é negociado no mercado secundário e o seu preço flutua em função do juro de mercado naquele momento. Sendo assim, nem é necessário grande cálculo para saber seu preço, se o mercado precificar uma taxa de 0% depois de 1 ano da sua emissão.

Valor de Negociação (final do ano 1): U$ 1.343,91

Esse investidor que comprou esse título na emissão ganhou 34% em um ano, um excelente resultado para quem esperava ganhar todo esse rendimento somente no final de 10 anos.

Agora vamos a uma nova situação, se depois de 2 anos da emissão, o mercado estiver precificado um juro negativo de – 2% a.a., qual seria o resultado desse segundo investidor.

Valor da negociação (final do ano 2): U$ 1.579,65

Esse novo investidor que comprou esse título depois de 1 ano da emissão e vendeu um ano depois, mesmo comprando a uma taxa de juros de 0%, ganhou 17,5%, nada mal também.

E assim poderíamos caminhar nesse exercício até que em algum momento a taxa subisse e ficasse menos negativa. É importante frisar que, independentemente de o nível de taxa ser positiva ou negativa, se depois de adquirido os juros subirem, o investidor terá prejuízo. Mas existe um fator psicológico no caso dos juros negativos.

O que eu quero dizer é que, se você compra uma bond que rende 3% a.a. e a taxa vai para 4% a.a., pode decidir não vender e segurar esse título até o resgate ganhando 3%, agora se você compra um papel que rende -2% a.a. e a taxa vai para 0%, vai se sentir desconfortável “perdendo” 2% a.a.

O grande comprador desses títulos são os bancos centrais e as empresas que são obrigadas a terem títulos longos como as seguradoras e fundos de pensão por questões legais. Sabendo disso, e considerando o raciocínio exposto acima, os especuladores compram esses papéis, independente se tem juros positivos ou negativos, pois acreditam que, poderão revender por uma taxa menor.

Mas essa noite o mercado japonês levou um tombo gerando uma corrida dos especuladores para sair de suas posições. Para uma visualização dramática do que acontecerá em um piscar de olhos para todas as baixas taxas de juros sem o apoio dos bancos centrais e da compra de fundos de pensão, o que aconteceu no Japão pode ser um indicador.

Mais preocupante foi que, rapidamente se espalhou para fora do Japão, porque, à medida que os juros subiam, a venda se espalhou para os títulos americanos e para a dívida europeia.

Havia três coisas por trás do rápido colapso: o primeiro catalisador foi a decisão do Banco do Japão na segunda-feira de cortar as compras de títulos em outubro para os quatro principais intervalos de vencimentos; segundo o anúncio, no início da manhã de terça-feira, do Fundo de Investimento em Pensões do Governo do Japão (GPIF) de que estava deixando e comprar títulos japoneses para comprar mais dívida externa protegida por câmbio; e por último o leilão de títulos japoneses ter sido um fracasso com a menor demanda desde 2016.

Em resumo, como colocou um gestor de fundos “Os títulos japoneses chegaram a um ponto em que é quase impossível comprar”.

Em algum momento o mercado terá que normalizar essa enorme distorção, não faz o menor sentido ter que pagar juros para que alguém use seu capital. Essa foi uma forma manipuladora que alguns bancos centrais implementaram para buscar reduzir a chance de ocorrer uma recessão, que em contrapartida é totalmente artificial. Num determinado momento, uma corrida para vender esses títulos, começará sem que exista agora os compradores oficias. Existe a possibilidade de um colapso nos preços, embora eu acredite que os bancos centrais terão que administrar também essa situação, pois a matemática do juro negativo será desfeita!

O comentário técnico de hoje será sobre o dólar Index, haja visto que, não houve muita alteração nos mercados de cobertura periódica, além de fazer algum tempo que não publico. No post azedou-para-os-emergentes, fiz os seguintes comentários sobre o DXY: ... “No gráfico abaixo se pode notar a recente alta rompendo uma área de resistência ao redor de 97.5. Esse índice poderia subir mais 2% a 3%, onde eu espero que haja uma reversão para depois cair. Poderia porque não é obrigatório que suba. Essa visão só seria alterada caso ultrapasse o patamar de 100.5, e principalmente, rompendo 104” ...
 
Passados mais de 5 meses, o dólar index caminhou menos de 2%, num movimento semelhante ao do euro, só que de forma inversa (o euro caiu e o DXY subiu). Também não poderia ser diferente, uma vez que, no cálculo deste índice, 60% corresponde a moeda única.

As conclusões acima continuam válidas para o DXY, e pela mesma razão do euro, não sugiro nenhuma posição. O dólar continua se fortalecendo em relação a maior parte das moedas dos países desenvolvidos conforme tabela a seguir.


Acredito que, proximamente, o dólar deve iniciar um movimento de queda de forma mais expressiva. Essa possibilidade só ficará em questão, caso o DXY ultrapasse o nível de 104.

O SP500 fechou a 2.940, com queda de 1,23%; o USDBRL a R$ 4,1569, sem alteração; o EURUSD a 1,0935, com alta de 0,34%; e o ouro a U$ 1.479, com alta de 0,52%.

Fique ligado!

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