2020: O risco vai compensar?

26 de agosto de 2020

Pseudo controle

 

Tem se ventilado ultimamente no mercado americano, que o Fed estaria preparando uma ação nova denominada de “controle da curva de juros”. Por ser um conceito específico do mercado de títulos vou explicar a ideia por traz disso. Para combater a desaceleração econômica causada pela pandemia do coronavírus, alguns sugeriram que o Federal Reserve recorresse a essa ferramenta.

O Fed - que realiza seu simpósio anual de política monetária em um Jackson Hole de forma virtual, nesta semana - tem resistido à essa ideia até agora. Mas os mercados financeiros parecem esperar que ela ceda em algum momento. Vale a pena pensar nos riscos econômicos de longo prazo.

Normalmente, os títulos do governo com vencimentos mais longos têm taxas de juros mais altas. Quanto mais longo o horizonte de tempo, maior o risco de inflação (ou default soberano) ao longo do caminho, exigindo um retorno maior como compensação. Normalmente, o Fed controla apenas as taxas de juros de curto prazo; cortá-los faz com que as taxas de longo prazo caiam também, mas o prêmio dos títulos de longo prazo permanece praticamente o mesmo.

Sob o controle da curva de rendimento, o Fed também reduz o prêmio dos títulos de longo prazo. Fez isso durante a Grande Recessão, quando se engajou em flexibilização quantitativa; mas sob o controle da curva de juros, o Fed declara explicitamente sua meta para as taxas de longo prazo. Isso tem a vantagem de potencialmente evitar outra grande expansão do seu balanço patrimonial, pois presumivelmente os participantes do mercado privado simplesmente negociarão os títulos do Tesouro na taxa-alvo, em vez de forçar o Fed a realmente comprar os títulos para empurrar as taxas para baixo.

A questão, entretanto, é porque o Fed faria isso. Na Grande Recessão, o objetivo de reduzir as taxas de longo prazo com o QE era estimular o setor privado a tomar mais dinheiro emprestado para manter a economia em funcionamento. Desta vez, porém, o Fed já está emprestando dinheiro diretamente aos tomadores de empréstimos. As taxas baixas de longo prazo podem fornecer algum estímulo adicional, mas o principal efeito seria tornar o déficit federal mais sustentável. Ao manter as taxas de longo prazo baixas, o Fed garantirá que o Tesouro possa tomar emprestado o que for necessário para sustentar famílias e empresas durante a pandemia, sem se preocupar com a rolagem da dívida de curto prazo. O Fed controlou a curva de rendimento durante a 2ª Guerra Mundial para ajudar a financiar o esforço de guerra. Uma pandemia é mais ou menos como uma guerra, então a lógica é semelhante.

Em uma pandemia que ocorre uma vez a cada século, é bom para o governo poder tomar empréstimos baratos. Benefícios especiais de desemprego, suporte para empresas em dificuldades e programas para reprimir o próprio vírus são todos itens que valem a pena gastar, e todos são programas de curto prazo que não persistirão depois que o coronavírus acabar. Assim, o controle da curva de juros pode atuar como uma espécie de apólice de seguro, garantindo que o governo esteja livre de dores de cabeça macroeconômicas enquanto faz o que precisa fazer.

Mas se a política persistir após o fim da pandemia, pode haver problemas. A primeira é que ninguém sabe realmente o efeito dos tetos das taxas de juros do Fed sobre a economia durante tempos normais. Alguns economistas temem que as taxas persistentemente baixas deem origem a empresas zumbis improdutivos que sobrevivem apenas rolando dívidas baratas e competindo com empresas mais saudáveis ​​fora do mercado. Também é possível que as taxas baixas beneficiem mais as grandes empresas do que as pequenas, exacerbando o problema do poder de monopólio.

O segundo perigo é a inflação. No momento, com a demanda esmagada pela pandemia, a inflação parece improvável, mas quando os tempos normais voltarem, o controle da curva de juros pode fazer com que os preços subam. Se os investidores não conseguirem obter um prêmio pela compra de títulos do Tesouro de longo prazo, eles podem abandonar esse mercado, forçando o Fed a intervir e realmente comprar os títulos de longo prazo para manter suas metas de taxa e manter baixos os custos de empréstimos do governo.

E o controle da curva de juros pode levar a uma situação conhecida como domínio fiscal, em que a política monetária fica subordinada às necessidades do Congresso. Se as empresas pensarem que o Fed simplesmente criará tanto dinheiro quanto for necessário para financiar os déficits do governo, elas podem esperar um aumento na inflação. Isso faria com que eles aumentassem os preços, tornando a inflação uma profecia que se auto realiza. Pode ser o que aconteceu no final dos anos 1940; o Fed continuou controlando a curva de juros após a guerra, mas parou de fazê-lo depois que a inflação subiu para 17%.

Dados esses perigos de longo prazo, o Fed está compreensivelmente relutante em se comprometer com uma política que pode ser politicamente difícil de encerrar. Além disso, embora os prêmios de termo sejam um pouco mais altos do que antes do ataque do coronavírus, eles ainda são muito baixos:



Portanto, o Fed está adiando o controle da curva de juros por enquanto. Mas se os investidores ficarem nervosos e começarem a exigir rendimentos mais altos da dívida do governo de longo prazo, o Fed pode acabar tendo que assumir o controle. Para melhor ou pior.

O Federal Reserve parece provável que mantenha as taxas de juros de curto prazo próximas de zero por cinco anos ou possivelmente mais, após adotar uma nova estratégia para conduzir a política monetária.

A nova abordagem, que pode ser revelada já no mês que vem, provavelmente resultará em formulação de políticas tendo uma visão mais relaxada em relação à inflação, ao ponto de acolher um aumento modesto e temporário acima de sua meta de 2% para compensar a deficiência de inflação do passado. 


O presidente do Fed, Jerome Powell, está programado para fornecer uma atualização sobre a revisão da estrutura de 1-1 / 2 anos do Fed de suas políticas e práticas quando ele falar na quinta-feira na conferência de Jackson Hole do banco central.

“Não ficaria surpreso se as taxas de juros ainda fossem zero daqui a cinco anos”, disse Jason Furman, ex-economista-chefe da Casa Branca e agora professor da Universidade de Harvard.

Isso seria uma boa notícia para alguns investidores. Graças em grande parte à política monetária ultra acomodatícia do Fed, o índice do mercado de ações S&P 500 está sendo negociado em alta recorde, embora a economia dos Estados Unidos ainda não tenha recuperado muito do terreno perdido na maior recessão desde a Grande Depressão com o início da pandemia.

Depois de ler todo esse material, o leitor poderia usar a famosa frase dita pelo jogador Garrincha a seu técnico “O Fed combinou com os Russos?” Parece uma previsão de prazo muito longo, com muita indefinição no curto prazo.

Espero que o Fed resista a tentação de querer controlar a taxa de juros longa, algo que não faz sentido num mercado livre. O grande risco que corre é acreditar mais na sua política que os dados podem apontar, como por exemplo, se a inflação começar a subir de forma estrutural, a autoridade monetária teimar e não reagir.

No post pensando-fora-da-caixa, fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa: ...” Conforme apontado no gráfico abaixo, a correção poderia se estender até 98,3 mil e no máximo 93.5 mil, depois disso seria necessário repensar” ...

Não tenho muito o que acrescentar sobe a bolsa brasileira, acredito que está numa correção para subir a novas altas. Esse cenário fica um pouco mais comprometido, caso o Ibovespa caia abaixo de 97 mil. Nesse caso, eu teria que rever minhas premissas.

Enquanto as bolsas no exterior alcançam máximas quase que diariamente, a bolsa brasileira está patinando em torno do nível de 100 mil pontos. O presidente Bolsonaro, depois de seu sabático de silencio, que se diga de passagem, até durou muito, começou a dar palpites e agredir os jornalistas, situação que já nos acostumamos. Hoje foi a vez de questionar a sugestão de Paulo Guedes para o Renda Brasil. Essa atitude azedou a bolsa e o dólar.

Tenho a impressão de que é tudo combinado com Paulo Guedes, uma forma de mostrar que está satisfazendo algum grupo, mas no final das contas, não tem coragem de desafiar seu “Hiper” ministro. Do outro lado, a conta corrente brasileira vai de vento em popa, com todas as rubricas no positivo, o mês de julho aponta para níveis elevados, tranquilizando muito nossas contas externas, principalmente quando comparadas as de nossos pares emergentes.


Tenho visto a grande maioria dos gestores usar o dólar com hedge de suas posições de risco, tanto em bolsa de valores como em títulos de renda fixa longos. Essa atitude é tão consensual que acaba funcionando, haja visto que esses dois mercados são muito maiores que o de câmbio. Tenho dificuldades em enxergar uma lógica mais consistente, pois se os estrangeiros tivessem posições elevadas poderia fazer sentido, mas eles saíram dos mercados emergentes com a pandemia.

Sei lá, só posso dizer que, quando algo sem sentindo funciona, isso ocorre por um tempo, até que para de funcionar.

O SP500 fechou a 3.478, com alta de 1,02%; o USDBRL a R$ 5,6131, com alta de 1,32%; o EURUSD a 1,1829, sem variação; e o ouro a U$ 1.952, com alta de 1,28%.

Fique ligado!  

Nenhum comentário:

Postar um comentário