2020: O risco vai compensar?

31 de julho de 2019

Além do retorno passado



Quando procuramos um médico é normal pesquisar seu passado, verificar sua qualificação, além da referência de pessoas conhecidas. Não vamos arriscar nossas vidas sem segurança. Na busca de um gestor das nossas finanças, o critério normalmente usado é o retorno que obteve no passado, como se os acertos pudessem ser replicados no futuro da mesma forma.

Alguns estudos acadêmicos levantam outras características que necessitam ser observadas. Os investidores deveriam se preocupar com o status de relacionamento de um gestor de fundos? Que tipo de carro eles dirigem? Perguntar se eles ganharam algum jogo de pôquer ultimamente?

Houve um tempo não muito distante, quando a opinião prevalecente na literatura financeira corporativa era que os traços pessoais de um gestor não influenciavam o desempenho de sua empresa.

"A ideia era que, se o mercado é perfeitamente competitivo, só há uma maneira de gerenciar uma empresa e permanecer no negócio", diz Raghavendra Rau, professor de finanças da Universidade de Cambridge. “As características pessoais dos gerentes não importavam: se você era o CEO de uma empresa e fosse substituído por uma pessoa diferente, não importaria, porque essa nova pessoa não teria qualquer margem de manobra para administrar a empresa de forma diferente. "A mesma lógica aplicada aos gestores de fundos, que tiveram que oferecer os melhores retornos possíveis" ou então alguém o expulsa do negócio.

Em meados da década de 2000, no entanto, essa teoria havia sido totalmente desmascarada. Os acadêmicos acumularam um conjunto de pesquisas que provavam conclusivamente que os mercados não eram perfeitamente competitivos - e que as características pessoais influenciavam, de fato, os resultados profissionais. De acordo com Rau, estudos examinando “exatamente o que são essas características pessoais e como elas impactam o comportamento do gestor de fundos realmente explodiram” - espalhando-se além das finanças em campos como a psicologia.

Um desses artigos surgiu depois que um fundo de fundos procurou quantificar a relação entre traços de personalidade e desempenho. A firma, TeamCo Advisers, sediada em San Francisco, abordou o professor de psicologia Dacher Keltner e a psicóloga PhD Leanne ten Brinke.

A colaboração resultante foi um estudo focado no que os psicólogos chamam de tríade negra: narcisismo, maquiavelismo e psicopatia. Ao analisar entrevistas gravadas em vídeo de 101 gerentes de fundos hedge, Brinke e Keltner identificaram essas características e examinaram se havia algum elo indistinguível no desempenho do investimento.

Os resultados foram definitivos: os gestores de fundos hedge que mais exibiam as características da tríade sombria, perpassaram o grupo geral em quase um ponto percentual a cada ano, em retornos anualizados de 2005 a 2015. Quando seu desempenho foi ajustado para o risco, a diferença cresceu ainda mais.

Logo em seguida, Brinke, Keltner e o diretor de pesquisa de fundos de hedge da TeamCo, Aimee Kish, publicaram seu artigo sobre o estudo: “Gestores de hedge fund com tendências psicopáticas geram retornos piores para os investidores”.

À medida que os dados pessoais se tornam cada vez mais acessíveis on-line, é possível recolher informações comportamentais apenas com base em informações publicamente disponíveis - nenhum teste de personalidade é necessário. De fato, muitos dos pesquisadores acadêmicos apontaram para o aumento dos dados como um dos principais impulsionadores do rápido crescimento da pesquisa comportamental.

As possíveis implicações espinhosas de empresas usando dados pessoais para obter lucro são uma das razões pelas quais Andrei Simonov, professor de finanças da escola de negócios da Universidade Estadual de Michigan, está cético quanto à possibilidade de que, a pesquisa financeira comportamental, seja aplicada em grande escala.

Além dos problemas de privacidade, há também o risco de levar em conta os dados pessoais e introduzir novos vieses, em vez de mitigá-los. Uma empresa de gestão de ativos que busca contratar gestores de carteiras que possuam uma determinada característica, pode acabar com um grupo de profissionais com origens e formação semelhantes, em oposição a uma equipe diversificada.

Esse estudo elaborado pela revista Institucional Investor não chega a uma conclusão definitiva, uma das razões em meu ponto de vista é que a ciência de comportamento humano ainda é muito nova, limitando as ferramentas existentes atualmente. Muito diferente da teoria clássica de finanças onde a matemática resolve grande parte das dúvidas, no comportamento humano não existe uma formula única.

Mas independentemente dessa ausência de ferramentas de avaliação dos gestores, seguramente o retorno não deve ser a única informação a se usar na escolha de seu fundo de investimento. Uma boa dose de bom senso se deve aplicar em sua pesquisa, na busca dos potencias gestores, que poderá ser feita através de informações disponíveis na rede. Mas se tudo isso não for convincente, pergunte ao zelador do prédio de escritório desses gestores quais são seus carros. Se forem 3 Ferrari, onde os proprietários costumam sair do escritório as 15h00, é melhor procurar outro gestor.

Ontem foram publicados os dados de inflação americana que o Fed se utiliza para estabelecer sua política monetária. Tanto o resultado cheio – 1,4% a.a., bem como o que exclui alimentos e combustíveis – 1,6% a.a., ambos são inferiores ao objetivo estabelecido pelo Fed de 2% a.a. Desta forma, não apresentam nenhuma novidade em relação as observações feitas anteriormente, em relação ao nível baixo.



Mesmo numa decomposição com prazo mais curto de 3 meses, cujo resultado apontaria uma inflação ascendente, não deveria causar preocupação aos membros do Fed, pois essa observação iria no sentido desejado de elevação no índice. Naturalmente, se essa aceleração acabar se fixando nos níveis atuais de 2,5% a.a., nos próximos meses, o quadro muda de figura. Por enquanto, isso é só uma conjectura.




A decisão do FOMC foi reduzir em 0,25% a taxa de juros nos EUA, conforme era esperado pela maioria. Não tive tempo de analisar com detalhes a minuta, nem tampouco assisti à secção de perguntas e respostas. Mas de uma forma geral, dois pontos chamaram a minha atenção: dois membros não votaram para a redução dos juros; Powell mencionou que esse movimento não significava uma serie de cortes nas taxas de juros.

Amanhã devo comentar em mais detalhes esse assunto, porem, os mercados não gostaram, imprimindo uma queda na bolsa.

No post /tiro-com-bala-de-festim, fiz os seguintes comentários sobre o euro: ... “Em análise técnica, quando um ativo negocia num intervalo contido por duas retas (em cinza) que afunila, é esperado com maior chance que rompa no sentido contrário ao do movimento que se sucede (no caso esse movimento é de queda). Tudo indica que o euro irá testar a área anotada em verde € 1,11 - € 1,106” ...


Estou escrevendo o post na parte da manhã e dependendo do que for anunciado pelo Fed, a moeda única poderá ter algum impacto. Até o momento, e segundo minhas expectativas traçadas acima, a mínima atingida foi de 1,11. Poderia o euro ensaiar uma melhora daqui em diante? Observando o movimento no curto prazo, não parece ser esse o caso. No gráfico com intervalo de uma hora, apresentado a seguir, mais parece que está se preparando para uma nova mini queda.


O euro mais parece um doente terminal que não consegue melhorar, mas que continua sobrevivendo. O que não pode ser dito de seu vizinho de território, a libra inglesa, que levou um tombo de 2,5% desde que o BoJo foi escolhido como primeiro Ministro.

Os especuladores resolveram apostar contra essa moeda depois que o BoJo declarou que não abre mão de nada que foi solicitado aos europeus no processo de separação e que está preparado para um hard exit. Se ele cumprir o que disse, parece uma aposta mais segura que ele levará a Inglaterra a um buraco negro, tornando a aposta contra sua moeda uma barbada.

Notem que não é só o Bolsonaro que fala bobagem. É bom enfatizar que nosso presidente não palpitou nada que tenha algum efeito na economia. Santo Paulo Guedes!

Quanto ao euro, só resta aguardar algum sinal mais convincente de qual será seu caminho.

O SP500 fechou a 2.980, com queda de 1,09%; o USDBRL a R$ 3,8135, com alta de 0,64%; o EURUSD a 1,1062, com queda de 0,82%; e o ouro a U$ 1.413, com queda de 1,19%.

Fique ligado!

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