2020: O risco vai compensar?

25 de março de 2020

Porta blindada para o Fed



O banco central americano abriu todas suas comportas, numa atitude inusitada, está disposto a injetar liquidez no sistema literalmente sem limites. É tamanha a pressão que ninguém da sua equipe tem coragem de mencionar que essa ação pode ser altamente inflacionaria, caso essa crise não se mostre tão profunda como os investidores estão temendo.

A ação da autoridade americana visa atingir os mercados que necessitam de liquidez originado por resgates ou venda de posições em diversos ativos, que são trocados por dólares, criando uma pressão por todos os lados para obtenção da moeda americana.

Mas existe um segmento aonde o Fed não consegue atingir, os mercados de derivativos, que em sua maioria são negociados no balcão – transações feitas entre partes, sem passar pela bolsa.

Com a intensificação do surto de coronavírus, os gestores de ativos estão sendo pressionados por uma saída recorde de fundos de títulos e bilhões a mais de fundos de ações. Retiradas ainda maiores provavelmente estão acontecendo no mundo de balcão, onde os negócios são realizados de forma pública, através de corretores. Quando os investidores recebem chamadas adicionais de margem, eles recorrem à venda de seus ativos mais líquidos, geralmente ações e títulos do Tesouro dos EUA. Isso apenas aprofunda a crise.


Considere os derivativos de balcão, que na maioria das vezes são contratos de apostas nos movimentos futuros de taxas de juros e moedas. Quando os reguladores reforçaram as regras de capital após a crise financeira global, as transações desses títulos tornaram-se atrativos para os bancos aumentarem seus lucros com um impacto mínimo em seus balanços. Os swaps cambiais, agora são um canal importante para os credores estrangeiros obterem dólares de seus pares americanos.


Em junho de 2019, o valor total desses derivativos subiu para US $ 640 trilhões, o maior desde 2014.

Em tempos normais, o valor bruto de mercado é um indicador melhor do valor em risco devido a acordos de compensação. Se um banco está com US $ 99 a descoberto em uma negociação e credor em US $ 99,10 com outros clientes, sua exposição é de apenas 10 centavos.

Mas vivemos em tempos extraordinários, e o valor bruto de mercado também pode servir como proxy para quanto dinheiro o sistema financeiro reservou para sustentar a exposição desses US $ 640 trilhões em derivativos. Em junho passado, o requisito de margem, que a empresa define como a razão entre o valor bruto de mercado e o valor das garantias, era de 1,9% - um recorde de baixa. Em outras palavras, não há margem suficiente para eventos do tipo “cisnes negros”.

Após o colapso da Lehman Brothers Holdings Inc., o requisito de margem para esses derivativos de balcão também saltou para 5,8%, de 2,2% no início de 2007. O mercado de derivativos, por sua vez, tornou-se uma disputa de US $ 24 trilhões em dinheiro e garantias.

Sinais preocupantes, semelhantes, estão surgindo novamente. Assim como 2008, a volatilidade do mercado está subindo e o financiamento em dólares está apertando. Para piorar a situação, o vírus causou uma grande deslocação global de ativos, quebrando as relações tradicionais entre moedas e taxas de juros, ações e títulos. Se nossa experiência com a crise financeira global servir de guia, o mundo dos derivativos de balcão poderá ter uma margem de cerca de US $ 25 trilhões.

Mais de uma década atrás, a disputa por dinheiro acabou com US $ 36 trilhões, ou mais da metade do valor de mercado das ações globais. Até agora, o coronavírus custou às ações mundiais cerca de US $ 26 trilhões, ou aproximadamente 30% de seu valor de mercado, desde o pico de final de fevereiro.

É louvável que o Fed esteja agindo rapidamente. Mas, diferentemente da China, não pode ordenar que os bancos parem de emitir chamadas de margem ou aumentar os requisitos de margem. Dada a leveza das provisões, é natural que os bancos reforcem seus controles de risco.

Para que o leitor entenda os volumes que se pode pensar, a cada 1% de margem equivale a U$ 6,5 trilhões, e nos movimentos vistos ultimamente, 1% representa muito pouco de oscilação. Os bancos depois de terem passado o sufoco de 2008, não estão bobeando, o cliente que não consegue completar suas garantias, eles vendem os ativos que detêm na operação e zeram a posição.

A única ação possível que o Fed pode ter nesse mercado e buscar que a volatilidade não estoure. Para conseguir esse intento, injeta liquidez aonde pode, o resto depende de como os bancos tratam suas garantias.

Para um mundo que não se recebe juros em nenhum país, as oscilações das bolsas tem sido um convite a jogatina. Com movimentos diários não inferior a 4%, alguma coisa não anda bem. O motivo é que ninguém tem a menor segurança de como o mundo vai estar daqui a 6 meses, e cada um faz uma previsão diferente. A maioria considera que o 2º trimestre haverá uma queda substancial, porem no 3º trimestre uma recuperação praticamente equivalente.

Agora, suponha que a queda não seja tão profunda como preveem os analistas, e começar a ganhar força a ideia que comentei ontem de as pessoas “jovens” voltarem ao trabalho em pouco tempo. Considerando o volume de estímulo que os bancos centrais e governos vão fazer nos próximos dias, eleva-se consideravelmente o risco de ascensão significativa da inflação. Seria como acelerar um carro esperando uma subida forte e na verdade é uma descida. Se isso acontecer, quero ver que banco central terá coragem de subir os juros!

No post sinais-de-desorganização-nos-mercados, fiz os seguintes comentários sobre o SP500: ... “Supondo que a bolsa inicie um movimento de recuperação de preços, ao redor do nível atual, até o patamar entre 2.850- 2.950, para em seguida iniciar um novo movimento de baixa que a levaria o SP500 próximo dos 2.000 pontos, ou um pouco abaixo” ...

Na semana passada o SP500 continuou seu movimento de queda atingindo a mínima de 2.200. Com o anúncio do pacote “astro físico” de U$ 2,0 trilhões, uma recuperação tomou pulso levando a bolsa a atingir hoje 2.550. Acontece que esse movimento de queda inicial ainda não terminou, conforme aponto no gráfico a seguir.

O nível entre 2.550 a 2.670, apresenta uma boa área para tentarmos um trade de venda do SP500, com um stoploss a 2.780. Notem que os intervalos são muito superiores ao que estávamos acostumados a trabalhar, sendo assim, temos que adaptar o tamanho da posição. Nesse caso, sugiro ¼ do que estávamos acostumados a trabalhar.

Durante o dia o SP500 tocou no interior desse intervalo, então pode ser que a queda já está em curso. Desta forma, posso sugerir o trade amanhã ou na sexta-feira, caso os movimentos de curto prazo assim me indicarem.

O Objetivo seria ao redor de 2.000, que deverá ser calculado melhor mais adiante.

O SP500 fechou a 2.475, com alta de 1,15%; o USDBRL a R$ 5,0345, com queda de 1,27%; o EURUSD a 1,0881, com alta de 0, 86%; e o ouro a U$ 1.609, sem variação.

Fique ligado!

Um comentário:

  1. A longo prazo, o mais preocupante é o quanto os países e empresas estão endividados.
    Países que têm alta renda per capita ou com baixa carga tributária como os EUA, tem margem pra aumentar impostos no futuro.
    O preocupante é países como a China, que ainda é um país de renda média e as dívidas públicas e privadas estão explodindo.
    E ainda temos nós aqui, agora com o corona, crescendo menos e gastando mais.
    A próxima geração pagará a conta.

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