2020: O risco vai compensar?

18 de março de 2020

Sinais de desorganização nos mercados financeiros



Parece que no curto prazo o cenário não deverá ter muitas mudanças, com o número de infecções crescendo ao redor do mundo, juntamente com novas mortes, o medo deve prevalecer. Os bancos centrais buscam agir com rapidez bem como os governos lançando pacotes de ajudas como a do Presidente Trump, que anunciou ontem uma injeção de U$ 1,2 trilhão, equivalente a 6% do PIB, não é pouca coisa.

Acontece que ninguém consegue saber como será o dia d+1 depois que o contágio do vírus for eliminado. Cada vez que penso neste assunto vejo problemas que podem acontecer. Por exemplo, a globalização permitiu que as empresas grandes alocassem sua produção ou serviço no local que fosse mais atrativo. A indústria automobilística é um caso desse tipo, onde peças são produzidas em vários países e a montagem em outros. Tudo funcionava bem, com sistema Just in time agregado a inteligência artificial, não havia falta de peças. Agora pensem que o mundo está em defasagem, a China aparentemente já passou pelo surto e nós estamos entrando. Não é razoável supor que faltará peças na linha de montagem?

Hoje vou compartilhar alguns dados dos diversos a que tenho acesso. Vou iniciar por um gráfico que compara as diversas quedas sofridas pelo SP500 durante sua história. Se pode notar que a atual é das mais severas em termos de velocidade.


Na área de emprego, onde tudo ia tão maravilhosamente bem, a solicitação de seguro desemprego bem como o registro como desempregado, deram um salto enorme.


A confiança nos dias de alta da bolsa se tornam cada vez mais fracos, nesses últimos dias basta acontecer uma alta num dia para que no dia seguinte seja revertida. Como consequência o VIX, índice que mede a volatilidade simplesmente explodiu, atingindo níveis nunca visto.

Uma curiosidade que de certa forma intriga é a performance da bolsa chinesa, quando comparada com as outras, se nota uma queda bem mais branda, assim como a sua moeda, que tem uma performance superior a de qualquer país emergente.
Pode ser que os americanos estão procurando formas de se proteger comprando imóveis, pois a busca por informações de financiamento explodiu. Esse é um movimento que acontece nesses momentos, mas que não se torna efetivo no tempo.


Mas o que realmente me deixou preocupado é o que está ocorrendo no mercado de títulos do governo. Não existe nenhum país desenvolvido que não colocou suas taxas de juros na linha do 0%, fora os europeus que estão abaixo dessa linha. Seria de se esperar que as taxas dos títulos estivessem em queda depois dos últimos movimentos, porém não é isso que se observa.

Os títulos alemães - alguns dos ativos mais seguros da área da região do euro - estão reagindo de forma contraria.

O preço dos bunds, como são chamados no mercado, caíram por sete dias consecutivos, elevando o rendimento em mais de 60 pontos-base, vindo de um nível recorde de -0,91%.


Em termos de velocidade, a venda é ainda mais rápido desta vez - foi o maior salto de cinco dias em rendimentos desde 1990.

Atualmente, o BCE está quase sem munição para combater outra desaceleração, mas os governos estão finalmente assumindo o bastão com enormes promessas de gastos. Embora a Alemanha tenha regras muito rigorosas para o limite da dívida, elas mostram sinais de se soltar à medida que o coronavírus interrompe a economia

Outros fatores também estão em jogo. Os gestores de fundos procuram vender ativos em uma tentativa de manter caixa, o que proporciona mais flexibilidade e permite que eles se preparem para possíveis resgates por investidores.

Mas esse movimento é geral, não se limitando somente aos títulos alemães, americanos, franceses, australianos estão todos com um comportamento no mínimo estranho. Isso poderia reforçar a tese de deflação onde nenhum ativo se valoriza com exceção de caixa na moeda forte, que por enquanto é o dólar.

Um trade que tinha sido executado ontem, quando os juros americanos de 10 anos atingiram nosso nível de 1,05%, pelos motivos acima, estou zerando hoje no mesmo nível. Prefiro ficar sem posições nos mercados.

No post cara-ou-coroa, fiz os seguintes comentários sobre o SP500: ...”  Entre 2.550 a 2.750, essa queda deveria ser contida, abaixo disso complica, e no limite, abaixo de 2.350 teria que praticamente abandonar a opção do triangulo” ...

Hoje o nível de 2.350 foi rompido eliminando a possibilidade de que essa “macro” correção seja um triangulo. Um outro formato que pode surgir nessas situações se denomina de flat, conforme explicitado a seguir.

Supondo que a bolsa inicie um movimento de recuperação de preços, ao redor do nível atual, até o patamar entre 2.850- 2.950, para em seguida iniciar um novo movimento de baixa que a levaria o SP500 próximo dos 2.000 pontos, ou um pouco abaixo. A boa notícia é que depois dessa queda um novo movimento de alta levaria a bolsa a níveis superiores, aos atingido em fevereiro último.

- David, acho que você está alucinando, depois de tanta queda, ainda acredita que a bolsa vai subir mais à frente?
Você deve ter notado que minhas premissas foram se alterando no tempo, de acordo com as informações que o mercado nos dava. A última foi o abandono do triangulo. Um cenário alternativo mais pessimista, embora pareça pouco provável pelas características das curvas, seria bem mais negativo. Mas não vou trabalhar nem explicar qual seria agora. Se esse que estou propondo não se materializar, e a bolsa continuar caindo, vou colocar no futuro (espero que não precise!)
Acredito que para os mercados se acalmarem serão necessárias 2 respostas:

1)      A contaminação irá terminar em algum momento? Se sim, quando?
2)      Como será a vida das pessoas depois disso?

Se a resposta da primeira for sim e rápida, dentro de 60 dias, e na segunda, tudo será mais ou menos como antes, o mundo ficara bem mais tranquilo. Agora, se no primeiro item a resposta for parcial e demorar muito, não seria nada bom.

Até que essas dúvidas sejam esclarecidas, os mercados irão navegar no escuro, levados por emoções nos dois lados.

O SP500 fechou a 2.398, com queda de 5,18%; o USDBRL a R$ 5,1480, com alta de 2,80%; o EURUSD a 1,0906, com queda de 0,82%; e o ouro a U$ 1.487, com queda de 2,65%.

Fique ligado!

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