As economias estão bombando #S&P 500
A economia americana atravessa um daqueles períodos em que os dados desmontam, um a um, as narrativas pessimistas que insistem em circular pelo mercado. Os números mais recentes sugerem um ritmo de crescimento que foge do padrão de uma economia madura como a dos Estados Unidos. O modelo GDPNow, do Fed de Atlanta, aponta expansão anualizada acima de 4%. Em qualquer outro contexto, isso seria tratado como exuberância; aqui, virou apenas mais um capítulo de uma sequência de surpresas para cima.
Essa sequência não é detalhe técnico. Quando os indicadores passam a superar as expectativas de forma recorrente, o que se observa, na prática, é o consenso sendo empurrado para trás. Revisões para cima deixam de ser exceção e viram rotina. Isso importa porque o mercado precifica o futuro com base no que espera — e, neste momento, parece estar sempre um passo atrasado.
O segundo pilar que sustenta esse ciclo é a lucratividade. O crescimento não está acontecendo apenas “no papel”: ele está sendo capturado pelas empresas, que seguem entregando resultados fortes. É o tipo de combinação que costuma alimentar tendências duradouras: economia rodando acima do potencial e lucros confirmando que a expansão não é ilusória.
Mais importante
ainda é a qualidade desse avanço. Não se trata de poucas companhias puxando a
média. O que se vê é uma melhora mais disseminada — receitas e lucros subindo
em um conjunto maior de empresas, algo típico de ciclos saudáveis, em que a
expansão se espalha pela economia real e não fica aprisionada em um pequeno
grupo de vencedores.
A indústria dá
sinais claros de retomada cíclica. Os indicadores de atividade apontam
aceleração simultânea de novos pedidos e produção, com o velho roteiro do
reabastecimento reaparecendo: depois de meses de estoques ajustados e cautela,
a engrenagem produtiva volta a girar. É o tipo de movimento que, quando pega
tração, costuma durar mais do que um trimestre e, em geral, não combina com o
clima de “recessão na esquina” que tantos insistem em vender.
O mercado de trabalho reforça a mensagem. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam próximos dos menores níveis históricos, sugerindo que as empresas seguem com pouca disposição para demitir. Em outras palavras: não há, por enquanto, sinais relevantes de deterioração no emprego — e, historicamente, quando o emprego não cede, o consumo tende a resistir.
Esse dinamismo
ajuda a explicar por que a economia tem se mostrado mais resistente ao aperto
monetário do que os modelos tradicionais previam. Com emprego firme, renda
sustentada e um setor corporativo ainda confiante, o consumo encontra meios de
continuar andando. Não é que os juros não façam efeito; é que, até aqui, o
efeito veio mais suave e mais lento do que o mercado apostava.
Até aqui,
poderíamos chamar isso de “a economia americana está bombando”. Mas o ponto
novo — e o motivo de o título correto ser no plural — é que a expansão não
parece confinada aos Estados Unidos. O relatório do Deutsche Bank chama atenção
para um dado incômodo e, ao mesmo tempo, revelador: em 2025, as ações
americanas ficaram no quartil inferior de desempenho global, enquanto vários
países entregaram retornos muito superiores. E 2026 começou com sinais
parecidos.
Essa fotografia
global acrescenta um ingrediente que o texto precisava: não é apenas o ciclo
doméstico americano que está forte; há um impulso relevante em outras economias
e mercados. Isso muda a interpretação do ambiente de risco. Em vez de um rali
“centralizado”, dependente de um único motor, o que aparece é um movimento mais
distribuído, com várias regiões entregando performance e reforçando a leitura
de expansão mais ampla.
Há outro detalhe
importante no material do Deutsche Bank: a volta da liderança de valor. Quando
setores e mercados mais baratos passam a liderar, costuma ser um sinal de que o
ciclo econômico está respirando fora da bolha de narrativa. Em geral, esse tipo
de rotação acontece quando o crescimento é real e quando parte relevante do
mercado começa a preferir lucros presentes e múltiplos mais razoáveis, em vez
de promessas eternas. É uma reprecificação mais “clássica”, e isso,
paradoxalmente, torna o ciclo mais crível.
O Mosca olha para esse conjunto e enxerga um risco que não está onde a manchete gosta de colocar. O risco, neste momento, não é recessão — pelo menos não no horizonte imediato. O risco é o oposto: excesso de confiança combinado com estímulo em hora errada. Com crescimento acima do esperado, lucros fortes, indústria reagindo e emprego apertado, a discussão sobre cortes de juros começa a soar menos como prudência e mais como tentação.
A história
econômica tem pouca paciência com bancos centrais que aliviam demais quando a
economia já está quente. O roteiro é conhecido: o mercado se anima, o crédito
relaxa, a inflação volta a incomodar, e, quando a autoridade percebe, o ajuste
necessário fica mais doloroso. O problema não é errar por um trimestre; é criar
desequilíbrios que levam anos para serem corrigidos.
Existe, sim, uma
dissociação incômoda entre dados macro e percepção social. Para parte da
população, o bem-estar não acompanha o otimismo das telas: enquanto ativos se
valorizam, muitos seguem inseguros. Forma-se a economia em formato de “K”, em
que quem tem patrimônio sente a bonança com mais força. Isso não invalida o
crescimento; apenas expõe que ele é distribuído de forma desigual — e que
desigualdade costuma virar política, ruído e pressão sobre decisões econômicas.
Por ora, os
números são claros. Não há sinal robusto de desaceleração iminente. O que
existe é um ciclo forte, mais amplo do que o consenso gostaria, e agora também
com evidências de que outras economias e mercados estão participando da mesma
dinâmica. As economias não estão desacelerando: estão bombando. A pergunta que
fica não é “se” isso é verdade, mas por quanto tempo esse ritmo consegue se
sustentar sem que o excesso de confiança faça o estrago de sempre.
Análise Técnica
No post "grande deserção", fiz os seguintes comentários sobre
o S&P 500:
"Não se pode descartar completamente outra hipótese — uma correção
ainda mais profunda —, mas, neste momento, ela parece bem mais remota".
Até a semana passada, eu esperava uma correção entre 6.750 e 6.700, mas
a probabilidade desse cenário diminuiu.
A bolsa vem tentando romper a máxima desde o ano passado, destacada no retângulo abaixo. Ao longo desse período, analistas passaram a apontar diversas publicações econômicas como possíveis gatilhos para uma alta que não se materializou. Do ponto de vista técnico, isso configura um incômodo que precisa ser resolvido em breve, sob pena de o mercado perder a paciência.
Na figura, a onda C laranja pode ter se encerrado em uma retração
menor, conforme indicado pelo símbolo vermelho, ou ainda pode escorregar até
6.804. Mantemos uma posição no Ibovespa que vem sendo mais bem recompensada e,
antes que meu amigo venha me provocar pelo meu viés negativo em relação à bolsa
brasileira, reforço: o compromisso é com o bolso, não com a opinião.
O S&P 500 fechou a 6.917, com queda de 0,84%; o USDBRL a R$ 5,2402, com queda de 0,40%; o EURUSD a € 1,1821, com alta de 0,26%; e o ouro a U$ 4.941, com alta de 6,00%.
Fique ligado!
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