IA virou commodity #Nasdaq100 #NVDA
Não existe um único dia em que eu não recorra à IA. Não sei se acontece com vocês, mas hoje praticamente não sobra pergunta sem resposta, qualquer que seja o assunto. Por trás disso se construiu uma confiabilidade impressionante: ninguém diz “o ChatGPT está chutando” — pode até haver erro, mas a suspeita quase sumiu.
Na minha vida profissional criei o hábito de verificar tudo, mesmo quando o número parece fazer sentido apenas pela ordem de grandeza. Fui, por décadas, campeão em achar erro de planilha. Essa postura continua enraizada, mas confesso que o alcance da ferramenta que temos hoje nas mãos é tão poderoso que acabei aceitando suas respostas com muito mais frequência. Poucas são as vezes em que hoje questiono o Claude, minha ferramenta de maior uso.
Mas como anda o uso da IA no mundo dos negócios? Um conjunto de relatórios que recebi recentemente me deu a dimensão exata do fenômeno, e a conclusão é direta: a novidade acabou. A IA virou commodity. A grande questão deixou de ser quem vai usar e passou a ser quem vai lucrar e, principalmente, quem vai sobreviver.
Os números sustentam essa virada. Nos Estados Unidos, 21,5% das empresas já usam IA em suas funções regulares de negócio, avanço de quase um ponto percentual em relação a junho, com expectativa de chegar a 24,3% nos próximos seis meses. Em setores como informação, serviços profissionais e finanças, a adoção já ultrapassa um terço das firmas — em computação, busca na internet e radiodifusão, passa dos 50%. O investimento também não para: o aporte em hardware ligado à IA nas contas nacionais americanas soma US$ 463 bilhões acima do patamar de 2022, e a receita projetada do setor de semicondutores deve alcançar US$ 834 bilhões anualizados até o fim de 2026. Isso não é mais promessa, é infraestrutura já instalada.
Fonte: Goldman Sachs, AI Adoption Tracker, julho de 2026.
E aqui mora um paradoxo que meus leitores mais antigos já conhecem bem: quanto mais a tecnologia se banaliza, maior tende a ser a concentração de quem efetivamente lucra com ela. Um dos estudos que analisei mostra que a concentração corporativa nos Estados Unidos vem subindo desde os anos 1930, e que choques tecnológicos historicamente aceleram esse processo — os líderes de fronteira ampliam a vantagem via economia de escala e efeitos de rede, exatamente o padrão que volta a aparecer agora nos setores mais expostos à IA, como informação e serviços financeiros, que já operam com concentração e margens acima da média. A promessa de que a IA “democratiza” oportunidades convive, na prática, com uma tendência histórica oposta: tecnologia nova tende a engordar quem já está na frente.
Do lado da chamada economia agêntica — sistemas que não apenas respondem, mas executam tarefas de ponta a ponta — a projeção é de uma explosão no consumo de tokens de até 24 vezes até 2030, puxada tanto por agentes corporativos quanto por assistentes pessoais que passam a operar de forma contínua, monitorando e agindo sem que ninguém precise pedir.
Fica no ar uma dúvida legítima entre meus leitores: será que essa explosão de uso não vai simplesmente virar prejuízo, dado que boa parte do consumo de IA hoje é feita de graça ou em planos baratíssimos, achatando preço e inviabilizando retorno para quem investiu bilhões em infraestrutura? É um receio válido — em 50 anos de mercado, já vi guerra de preço destruir margem em mais de um ciclo de tecnologia. Mas os dados mais recentes sugerem que esse medo pode estar precipitado. O preço cobrado pelos principais modelos de linguagem despencou entre 2023 e 2025, chegando a cair para cerca de US$ 0,15 por milhão de tokens em certos momentos, mas parou de cair e voltou a subir moderadamente a partir do início de 2026. Enquanto isso, o custo de processar cada token — puxado pela evolução de chips da Nvidia, Broadcom, AMD e da infraestrutura proprietária das próprias big techs — continua caindo com força, e mais rápido que o preço. O resultado é uma tesoura que se abre a favor de quem vende o token: o próprio material projeta inflexão de margem justamente no primeiro semestre de 2026. Se essa combinação de preço estabilizado e custo em queda se sustentar, o salto de 24 vezes no consumo de tokens até 2030 deixaria de ser só uma conta de CapEx pesado e passaria a ser também uma história de lucro crescente — o oposto do cenário de “dar tudo de graça” que muita gente teme, ainda que a concorrência em produtos mais comoditizados, como chatbots de texto puro, continue sendo um risco real para essa conta.
Fonte: Goldman Sachs, Americas Technology — Decoding the Agentic Economy, maio de 2026.
O mesmo material ilustra bem por que a adoção anda mais rápida em uns setores do que em outros, mesmo dentro desse cenário mais favorável de margem. Um agente de codificação, por exemplo, consegue consumir cerca de 7 milhões de tokens por dia a um custo de apenas US$ 13 — daí o avanço mais veloz da automação em desenvolvimento de software. Já um agente de call center, mesmo processando menos tokens, pode custar US$ 92 por dia quando depende de voz em tempo real, o que ainda compete mal com a mão de obra terceirizada. A lição para quem aloca capital é a mesma que aplico há anos nas minhas próprias operações: seletividade importa mais que volume. Não é o setor mais “exposto” à IA que vence primeiro, é aquele em que a equação de custo fecha primeiro.
Fonte: Goldman Sachs, Americas Technology — Decoding the Agentic Economy, maio de 2026.
Do lado do mercado de trabalho, o quadro é mais ambíguo do que as manchetes sugerem. O impacto sobre o emprego segue visível, porém estreito: ocupações como design gráfico, atendimento ao cliente e alguns cargos de tecnologia mostram desaceleração clara, parcialmente compensada pelo crescimento de vagas em construção ligada a data centers. No agregado, a conta ainda é pequena — algo como mil vagas líquidas perdidas por mês nas indústrias mais expostas —, mas 25% das empresas do Russell 3000 já mencionaram IA e emprego juntos em suas teleconferências de resultados do segundo trimestre, bem mais do que há dois anos.
Fui convidado para dar uma palestra na FEA, desta vez para o curso de mestrado em mercado de capitais. O professor José Roberto Savoia, que conheço há décadas, tem me dado a honra de contribuir com os jovens, o que me alegra bastante. Ele me contou que um aluno da turma do ano passado se lamentou: se tivesse seguido a previsão que eu fiz sobre a Nvidia, teria ganho uma nota. Não existe elogio mais gostoso de ouvir. Nessas apresentações, sempre reservo um capítulo para falar de mercados e do meu uso da Análise Técnica, além de fazer uma retrospectiva das previsões anteriores.
Este ano o tema será “A IA vai se pagar” — que já foi título de um post aqui no blog e que estou atualizando com os dados mais recentes. É um assunto que parece não ter fim e que, goste-se ou não, continua inconclusivo. A commoditização já chegou. O lucro, esse, ainda está em disputa.
Análise Técnica
No post “a-história-se-repete”, fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq100:
“A Nasdaq 100 atingiu a mínima desta semana em 27.179, próximo ao segundo nível apontado acima. Ontem houve uma recuperação importante, e acredito que boa parte foi ocasionada pela operação de salvamento comentada no texto de hoje — como se diz no jargão de mercado, as ações saíram da mão fraca e foram para a mão forte.”
Em relação à Nasdaq100, ainda não são visíveis cinco ondas na janela de duas horas, e a máxima ainda não foi ultrapassada. Vamos com calma antes de colocar o carro na frente dos bois.
“As notícias de que essa empresa fechou um acordo de mais de US$ 500 bilhões com o SK Group e negocia uma garantia de até US$ 250 bilhões para viabilizar um data center da OpenAI levantaram receio quanto a um modelo de financiamento circular, o que fez a ação atingir a mínima de US$ 190, um ponto importante da possível onda 2 azul.”
Fique ligado!
Você teria suas palestras gravadas suas na FEA para disponibilizar? Agradeço
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