A ilusão da eficiência na era dos ETFs #OURO #GOLD #EURUSD
Durante anos o investidor foi educado a acreditar que o mercado é um
mecanismo quase perfeito de precificação. Que milhões de participantes
analisando dados garantem que o preço de uma ação reflete fielmente seus
fundamentos econômicos. Essa narrativa funcionou bem nos livros. Na prática,
começa a ruir.
Um amplo estudo recente da Morgan Stanley Investment Management, em
parceria com a Counterpoint Global Insights, mostra, com dados de fluxo,
estrutura de mercado e concentração de lucros, que os preços vêm se afastando
sistematicamente do valor econômico das empresas. Não por falhas ocasionais,
mas por mudanças profundas na forma como o capital hoje circula nos mercados
financeiros.
O relatório parte do conceito clássico de valuation: o valor de uma
empresa deriva de seus fluxos de caixa futuros descontados. O preço deveria
orbitar esse valor ao longo do tempo. O que os pesquisadores observam é o
aumento da frequência e da duração dos desvios entre preço e valor. Mesmo
quando os fundamentos permanecem relativamente estáveis, fatores
comportamentais, fluxos de liquidez e os custos de arbitragem permitem que
distorções durem anos, e não meses como sugerem os modelos tradicionais de eficiência
de mercado.
A mudança mais profunda por trás dessa dinâmica está na explosão da
gestão passiva. Segundo dados compilados pela Counterpoint Global, entre 2006 e
2025 mais de US$ 3 trilhões migraram de fundos de gestão ativa para ETFs e
fundos de índice nos Estados Unidos, enquanto os fundos ativos tradicionais
registraram saídas líquidas superiores a US$ 3,4 trilhões no mesmo período. Em
termos práticos, uma parcela crescente do capital deixou de avaliar empresas
individualmente e passou a simplesmente replicar índices.
Nesse modelo, não há análise de valuation, perspectiva de lucros ou
julgamento de risco. Há apenas compra automática proporcional ao peso da
empresa no índice. A consequência direta é que os preços passam a responder
menos aos fundamentos econômicos e mais aos fluxos de capital.
Esse mecanismo cria um processo de retroalimentação. Empresas que se
valorizam passam a ter maior peso nos índices, o que atrai mais dinheiro
passivo, impulsionando novas altas de preço. O capital entra não porque o
negócio ficou melhor, mas porque o papel ficou maior dentro do índice.
O relatório mostra que esse ciclo tem levado a uma concentração
crescente tanto de valor de mercado quanto de lucros econômicos nas maiores
empresas listadas. Em 2015, as dez maiores companhias respondiam por cerca de
um quarto do lucro econômico total das empresas americanas. Em 2024, essa
parcela já se aproximava de dois terços.
Paralelamente, o comportamento dos investidores individuais passou a
exercer papel crescente na formação de preços. O estudo documenta que a
participação do varejo no volume negociado voltou a níveis semelhantes aos do
fim dos anos 1990, impulsionada por corretagem gratuita, plataformas
gamificadas e redes sociais. As decisões de investimento tornaram-se mais
curtas, mais emocionais e mais orientadas por narrativa do que por análise
econômica.
Nunca houve tanto acesso ao mercado financeiro. E nunca houve tão pouca
análise fundamental na formação diária dos preços.
Ainda assim, atribuir todas as distorções à ascensão dos fundos passivos
seria uma simplificação excessiva. Quando se observa a estrutura de propriedade
do mercado acionário americano, percebe-se que a gestão passiva segue sendo
relevante, mas minoritária.
Atualmente, cerca de 38% a 40% das ações estão nas mãos de investidores
individuais. Investidores institucionais diretos, como fundos de pensão,
seguradoras e endowments, concentram aproximadamente 25% do mercado. Os
investidores estrangeiros respondem por algo entre 15% e 18% das ações
listadas.
Dentro do universo de fundos, os veículos tradicionais de gestão ativa
representam em torno de 20% do capital acionário, enquanto fundos quantitativos
e hedge funds variam entre 5% e 7%. Já os ETFs e fundos de índice detêm
aproximadamente 12% a 15% das ações em circulação.
Em outras palavras, mais de quatro quintos do mercado seguem nas mãos de
agentes que tomam decisões ativas — por fundamentos, modelos quantitativos,
estratégias institucionais ou comportamento.
Isso preserva o mecanismo clássico de arbitragem. Quando uma ação se
distancia excessivamente do valor que seus lucros justificam, existem
investidores dispostos a vendê-la a descoberto. Caso estejam corretos, a queda
de preço reduz automaticamente sua participação nos índices, limitando o fluxo
futuro dos fundos passivos e reaproximando o preço de seus fundamentos
econômicos.
Curiosamente, a própria expansão dos ETFs fortaleceu esse processo. Como
esses fundos mantêm grandes volumes de ações por longos períodos, tornaram-se
grandes ofertantes naturais no mercado de aluguel de papéis. O custo de short
selling caiu estruturalmente nas últimas décadas, tornando mais barato e mais
líquido apostar contra excessos de valuation.
O efeito real da indexação, portanto, não é eliminar a eficiência do
mercado, mas alterar sua dinâmica temporal. Os fluxos automáticos são contínuos
e volumosos. O capital que arbitra valor é mais seletivo, limitado por risco e
paciência. Isso faz com que desvios entre preço e fundamento possam durar mais
tempo antes de serem corrigidos — sem deixarem de ser corrigidos.
Na prática, a gestão passiva alonga ciclos de alta, amplia concentrações
e retarda ajustes. Não cria bolhas sozinha, mas contribui para inflá-las por
mais tempo.
O estudo da Morgan Stanley conclui que os mercados modernos funcionam
cada vez menos como mecanismos puros de descoberta de valor e cada vez mais
como sistemas guiados por fluxo de capital e comportamento coletivo. O preço
passou a responder mais a quem está comprando do que ao que está sendo
comprado.
O mercado não se tornou irracional. Ele apenas se tornou estruturalmente
mais extremo.
Os fundamentos continuam sendo a gravidade dos preços dos ativos. A
diferença é que o piloto automático empurra o avião para muito mais longe antes
que alguém perceba que está sem combustível.
E, como sempre acontece quando a correção é adiada por tempo demais,
quando a física do mercado finalmente resolve agir, ela raramente o faz com
suavidade.
Análise Técnica
No post “nada-declarar”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
“O ouro ultrapassou o objetivo traçado em US$ 5.150 como um foguete. Em
movimentos parabólicos, os alvos passam a funcionar mais como baliza e o
próximo nível técnico passa a ser US$ 6.300”.
Os metais atravessam um momento mais delicado, após as quedas
expressivas observadas na semana passada, que, segundo fontes de mercado,
pegaram os especuladores chineses fortemente alavancados em derivativos. Nas
últimas horas, observou-se uma pequena estabilização, embora a prata esteja
recuando mais de 10% hoje.
Quando movimentos dessa magnitude ocorrem, é fundamental aguardar a
poeira baixar para avaliar se se trata apenas de uma correção de curto prazo ou
de um movimento mais amplo. Mostro hoje o cenário caso estejamos diante da
segunda hipótese. Nessa situação, seria importante a formação de uma estrutura
de cinco ondas de baixa — o que ainda não se configura. Mesmo assim, não
haveria pressa em buscar compras, pois o movimento corretivo tenderia a se
estender por um período considerável, como indico pelo símbolo em vermelho, no
mínimo até a metade do próximo ano.
Reforço o que escrevi no post mencionado:
“para quem pensa em comprar, sugiro aguardar uma nova oportunidade
conforme a própria análise técnica venha a indicar”.
Em relação ao euro, comentei:
“O primeiro objetivo foi atingido e, como se verifica na figura, na
sequência de ondas em laranja ainda falta a onda final V, que levaria o euro
para € 1,2222 ou, um pouco acima, para € 1,2349”.
A moeda única atingiu a máxima de € 1,2080, muito próxima do primeiro
objetivo dentro do retângulo, e, na sequência, voltou a recuar. Minha contagem
está eliminada? Ainda não — mas encontra-se muito próxima desse limite, pois o
euro não pode cair abaixo de € 1,17694. Caso isso ocorra, é bastante provável
que o movimento de alta tenha se encerrado e que uma sequência de baixa mais
profunda ganhe tração.
O S&P 500 fechou a 6.798, com queda de 1,23%; o USDBRL a R$ 5,2712,
com alta de 0,57%; o EURUSD a € 1,1780, com queda de 0,22%; e o ouro a U$ 4.818,
com queda de 2,97%.
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