Nunca diga nunca #Bitcoin #MicroStrategy #USDBRL
Há alguns meses
escrevi aqui que Michael Saylor era, acima de tudo, um especulador — e que a
estratégia da Strategy tinha um ponto cego fundamental: a ausência de uma saída
organizada. Na época, a tese era contestada por muitos. O que aconteceu na
última semana confirma o diagnóstico: quando a realidade aperta, a narrativa
cede.
Na divulgação de
resultados do primeiro trimestre, os executivos da Strategy admitiram que podem
vender Bitcoin. O CEO Phong Le foi direto — a empresa não vai simplesmente
cruzar os braços e dizer que jamais venderá suas reservas. E Saylor, o próprio
arquiteto da tese, sugeriu que a companhia pode até vender Bitcoin com
prejuízo, apenas para aproveitar um crédito fiscal de 2,2 bilhões de dólares
que, nas palavras dele, está jogado no chão.
Isso não é
detalhe operacional. É uma mudança de postura estrutural — e talvez seja o
primeiro passo para desmontar toda a parafernália que construiu. Começa com
justificativas fiscais, depois vem a necessidade de honrar os juros das
dívidas, e em algum momento a conta fecha em 1 a 1: o que resta é um ETF de
Bitcoin caro. Ou pior — o mercado se desanima com as ações da Strategy, o papel
passa a ser negociado com deságio em relação ao valor da criptomoeda em
carteira, e o modelo inteiro se inviabiliza. De qualquer forma, independente do
motivo que o levou a essa decisão, vender é um movimento na direção certa.
Para entender
como a Strategy chegou até aqui sem implodir, é preciso examinar a engenharia
financeira que sustentou o modelo nos últimos meses. Após a queda de quase 50%
nas ações ordinárias — o principal instrumento usado para financiar a compra de
Bitcoin —, Saylor recorreu a um mecanismo híbrido pouco convencional: as
chamadas ações preferenciais perpétuas. Esses papéis, historicamente usados por
bancos e utilitárias para fins regulatórios e vendidos a investidores
institucionais, foram adaptados pela Strategy e lançados ao varejo em
plataformas como Robinhood e Charles Schwab, com rendimentos na faixa de
títulos especulativos e apresentados como alternativa a fundos de liquidez. Foi
com esse capital que a empresa comprou mais de 4 bilhões de dólares em Bitcoin
apenas em abril.
O modelo é
inteligente, mas circular. A estratégia toda repousa sobre a premissa de que o
Bitcoin continuará subindo indefinidamente, atraindo novos investidores
temerosos de perder o rali. Se a demanda arrefecer, a Strategy perde a
capacidade de financiar novas compras, e o mecanismo de retroalimentação que
sustenta o preço começa a se desfazer. A S&P Global já havia sinalizado
esse risco ao classificar a dívida da empresa como grau especulativo, alertando
que os vencimentos da dívida conversível podem coincidir com períodos de
estresse no preço da criptomoeda.
Por anos, Saylor
construiu sua imagem sobre uma premissa simples: Bitcoin é o ativo superior, e
vender o vencedor não faz sentido. Em 2024, numa entrevista à Bloomberg, foi
taxativo a respeito. Agora compara a Strategy a uma incorporadora imobiliária —
que compra ativos a crédito, espera a valorização e eventualmente vende para
pagar dividendos. A metáfora é reveladora. Incorporadoras vendem. Sempre
venderam.
Há outro fator
que corrói a tese por um ângulo diferente: o Bitcoin simplesmente saiu de moda.
E como tudo no mercado financeiro tem prazo de validade, foi substituído pela
inteligência artificial e pelo setor de semicondutores, que viraram a bola da
vez. Já foram aqueles dias em que a criptomoeda oscilava 10% numa única sessão.
Hoje, quando olho no meu terminal, parece mais com aquelas ações que sobem ou
caem 0,5% no dia — comportamento de ativo maduro, não de revolução monetária.
Sabe por quê? O
Bitcoin perdeu sua retórica de moeda e virou um instrumento especulativo como
qualquer ação de tecnologia — com uma diferença marcante: não gera lucro. Para
os adeptos, sobram essencialmente duas hipóteses. A primeira é continuar como
veículo de transferência de recursos à margem do sistema formal, o que imagino
não ser a motivação de quem entrou de forma séria. A segunda é uma perda de
credibilidade do dólar — cenário que não se antevê nem se espera no horizonte
atual.
Há um argumento
que considero definitivo e que raramente é mencionado: os aficionados pelo
Bitcoin deveriam se perguntar por que os bancos centrais, nos últimos anos,
compraram ouro em volume recorde — e não a criptomoeda. Afinal, o argumento
original do Bitcoin era exatamente esse: diversificar do dólar, proteger
reservas de uma moeda que pode ser emitida sem limite. Se a tese fosse sólida,
os bancos centrais seriam os primeiros compradores. Não foram. Na minha
opinião, a razão é simples: não acreditam na criptomoeda. Preferem um ativo que
já se provou ao longo de séculos, em qualquer cenário, e cujo cofre cheio é
incontestável. O Bitcoin, por sua natureza digital e pela ausência de histórico
secular, deixaria margem a questionamentos que nenhum banco central quer
enfrentar.
O que mudou com a
declaração dos executivos é que agora a própria empresa confirma, nas
entrelinhas, que a porta de saída é uma opção real — não um recurso de último
caso, mas uma opção estratégica. E quando o administrador de uma posição de 67
bilhões de dólares começa a falar em vender, o mercado ouve — e começa a
precificar essa possibilidade.
Desejo boa sorte
a quem ainda acredita. No mercado financeiro, nunca diga nunca — mas também
nunca ignore quando o próprio dono da tese começa a recuar.
Análise Técnica
Como toquei no
assunto Bitcoin, aproveito para atualizar. No post “procurando-porta-de-saida”, fiz os seguintes comentários:
“A dúvida central
é como a onda 4 azul irá se desenvolver: ou na forma de triângulo — que
considero o cenário mais provável — ou na forma de zigue-zague, onde a alta
alcançaria aproximadamente 100 mil dólares antes de recuar. Em ambos os
cenários, o tempo será o fator dominante.”
Existe uma outra
possibilidade em que a onda 4 azul já tenha terminado e estejamos
caminhando para novas altas. Esse cenário ficará mais provável se o Bitcoin
ultrapassar os US$ 101 mil — frisei que esse não é meu cenário preferido.
“O que mais
poderia ser acrescentado ao que já foi dito? Nada” … “Daqui em diante, ou a queda rompe
o nível de stop loss indicado em R$ 4,6983, ou, de repente, a alta ganha pulso,
retirando todo o pessoal que está vendido no dólar. Nesta situação, resta
apenas observar qual desses cenários irá prevalecer.”
— David, estou
meio perdido. Você está estagnado há um bom tempo, meio que torcendo para o
dólar subir, mas estou curioso para saber o cenário alternativo.
Eu só poderia
estar torcendo se tivesse posição — e você sabe que venho mudando o tom
conforme o dólar me mostra mais fraqueza. Estou apenas seguindo o que os
gráficos me dizem.
Muito bem, vou
apresentar o cenário alternativo.
Nesta opção, o dólar iria até R$ 4,65 para, em seguida, subir até R$ 5,68 / R$ 5,97 — Xiiii, Lula na parada ou loucuras do Trump? — e, finalmente, recuaria para R$ 4,40, o nível que o economista Robin Brooks, mais conhecido na mídia como “carequinha”, vem comentando. É verdade que ele vai levar um susto se o dólar subir antes.
O S&P 500
fechou a 7.412, com alta de 0,12%; o USDBRL a R$ 4,9100, sem alteração o EURUSD
a € 1,1778, sem alteração; e o ouro a U$ 4.734, com alta de 0,28%.
Fique ligado!
david, seria você o carequinha invertido?! rsrsr abraço
ResponderExcluirnão invertido as vezes parecido e as vezes muito diferente, o "carequinha" original é fundamentalista e eu técnico, nem sempre estamos na mesma página.
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