Gritaram FOGO #IBOVESPA
Os números dão a dimensão. No Senado, sete cadeiras republicanas já foram atribuídas aos democratas (Iowa, Kansas, Carolina do Norte, Ohio, Carolina do Sul, Maine e Texas), e o Alasca caminha na mesma direção. Se o Mississippi também virar, serão 56 cadeiras. Poucos levavam a sério uma virada desse tamanho; as casas de apostas que o digam.
Na Câmara, porém, a estatística não foi surpreendida. O Deutsche Bank cruza a aprovação do presidente no verão anterior à eleição com as cadeiras perdidas pelo seu partido. Com Trump abaixo de 40% de aprovação, a reta apontava para uma perda de cerca de 40 deputados; os levantamentos indicam algo próximo de 43. Pelos padrões históricos, uma eleição normal.
O relatório do Goldman Sachs faz um bom resumo do que vem pela frente. Os democratas devem usar os prazos fiscais como moeda de troca: a autorização de gastos vence em 11 de dezembro, e o teto da dívida terá de ser elevado até o próximo outono americano. Na lista de exigências aparecem limitar a guerra com o Irã, reverter parte das tarifas e desfazer os cortes de gastos aprovados no ano passado. Só este último item acrescentaria cerca de 0,25% do PIB em despesas em 2027.
O ponto que mais me chamou a atenção, porém, está em outro lugar: os data centers. Em Washington pouca coisa muda, já que qualquer regulação da IA continuaria dependendo do apoio dos dois partidos. O problema está nos estados. Os republicanos perderam os governos do Texas, Ohio, Nevada, Geórgia e Michigan, e os democratas fizeram campanha explícita por regras mais duras para o setor. O Goldman espera moratórias no Texas, na Geórgia e em Michigan até que novas leis sejam aprovadas, com fim de incentivos fiscais e exigências mais rigorosas de água, energia e meio ambiente.
Esses estados respondem por cerca de 45% da capacidade de data centers planejada nos Estados Unidos; só o Texas, por 25%. O banco pondera que o tema não está no topo das preocupações do eleitor e que as moratórias, se vierem, não devem durar muito. Pode ser. O mercado, porém, não esperou para conferir. Durante a apuração, os futuros do Nasdaq 100 chegaram a despencar e as coreanas Samsung e SK Hynix foram castigadas pelo temor de regulação da IA. Nesta manhã, o quadro é mais seletivo: os futuros do S&P 500 sobem num rali de alívio, e quem apanha são as chamadas neoclouds, provedoras de nuvem dedicadas à IA, com a CoreWeave caindo quase 10%.
Não se pode esquecer que a grande dúvida já morava neste segmento: ele vai se tornar rentável? Bill Dudley, ex-presidente do Fed de Nova York, lembra que o investimento em infraestrutura de IA pode passar de US$ 10 trilhões e que, dada a rápida depreciação desses equipamentos, seriam necessários US$ 3 trilhões ou mais de receita por ano para remunerar o capital. Somem-se a isso atrasos nas obras e juros elevados, e alguns projetos simplesmente deixam de parar em pé.
Não por acaso, os mais expostos são as neoclouds e empresas como a Oracle, que se endividaram pesadamente para construir. Desde 2025, as grandes empresas de tecnologia levantaram mais de US$ 400 bilhões apenas em títulos de dívida. A Oracle, sem o caixa de uma Alphabet ou de uma Amazon, responde por cerca de US$ 60 bilhões desse total.
Os americanos adoram criar acrônimos. Na minha leitura diária, volta e meia preciso parar para descobrir o significado de algum deles. Ontem, por exemplo, li que o Elliott, fundo de Paul Singer com US$ 80 bilhões sob gestão, alertou seus investidores para o risco de FOGO. Como andamos todos assustados com qualquer coisa, pensei logo: fogo onde? Atingiu algum data center?
Ao ler a carta, descobri que se tratava de "Fear of Getting Obliterated", o medo de ser aniquilado pelo mercado. Segundo o Elliott, "praticamente todos os alarmes que anunciam um mercado de baixa relevante estão tocando". A lista inclui déficits orçamentários, inflação persistente, carteiras de crédito privado, a euforia com a IA e uma especulação que lembra mais aposta do que investimento, como opções que vencem no mesmo dia e ações-meme. A comparação escolhida é a dos anos 1920, que antecederam a Grande Depressão.
Sobre a IA, a carta aponta investimentos circulares entre os criadores de modelos e os fornecedores de infraestrutura, gastos financiados com dívida e um movimento anti-IA em formação. O impacto de uma frustração nessa frente "poderia ser histórico". Tantos fatores se alinharam para produzir essa euforia que bastaria falhar um ou dois para provocar uma reversão em cascata: a troca do FOMO, o medo de ficar de fora, pelo FOGO.
Justiça seja feita, a postura defensiva tem custado caro ao próprio Elliott: o fundo ganhou pouco menos de 2% nos nove primeiros meses do ano, contra quase 13% do S&P 500. Ed Yardeni, que enxerga o copo meio cheio, entrou na brincadeira e criou o FOJO, o medo de pular fora do mercado. Para ele, o investidor desconfia da IA, mas não abandona a bolsa; prefere trocar a tecnologia por outros setores. Os lucros projetados do S&P 500 subiram 31,3% no ano e levaram o índice a uma alta de 10,2%, apesar de o múltiplo preço/lucro ter encolhido 13,8%.
Mal sabe o Sr. Singer que, em português, FOGO tem outro significado. Num dia em que as urnas americanas colocaram em xeque justamente o segmento que sustenta a euforia, fica a pergunta: será que ele atirou no que viu e acertou no que não viu?
Análise Técnica
No post "Produtividade pelo lado ruim", fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa: "Existem duas possibilidades. A primeira, da qual tenho grande dúvida e à qual associo baixa probabilidade, é que uma alta superando a máxima ainda possa ocorrer; nessa opção, a bolsa não pode cair abaixo de 163 mil. A outra é que a onda C vermelha tenha terminado antecipadamente, como mostra o gráfico, e que tenhamos entrado num período de baixa longo (anos), em que a bolsa poderia recuar até os níveis das retas vermelhas pontilhadas: 143 mil (pouco provável), 122 mil (possível) e 102 mil (mais provável). Notem que o gráfico está em escala mensal."
É interessante que estejam se sucedendo governos de direita ou de esquerda com Legislativos do outro partido. Nos EUA, temos direita/esquerda; aqui, esquerda/direita. Quero lembrar que lá não existe o Centrão e, sendo assim, o presidente será contido. Por aqui pode não ser bem assim, pois basta oferecer recursos a esse partido para que as aprovações aconteçam.
O S&P 500 estava as 17h10 a 7.697, com alta de 1,71% - com o gap aberto resolvi arriscar uma compra na abertura a 7.634 com stop loss a 7.560, mais detalhes na sexta-feira; o USDBRL a R$ 5,4535, com queda de 0,67%; o EURUSD a € 1,1227, com alta de 0,31%; e o ouro a U$ 4.063, com alta de 3,40%.
Fique ligado!







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