O que vai sobrar para o McDonald's #USDBRL


Toda nova tecnologia abre uma janela de lucros extraordinários. No início, com pouca concorrência, quem chega primeiro cobra o que quer. Com o tempo, à medida que o produto ganha penetração e surgem novos competidores, é razoável supor que os preços recuem a níveis mais civilizados, ancorados na velha lei da oferta e da procura.

A inteligência artificial não foge à regra. Com alcance global, ela levou margens e lucros de várias empresas às alturas, em curvas exponenciais que viraram rotina nos últimos tempos. O lucro por ação do S&P 500 cresceu 51% no segundo trimestre sobre o mesmo período do ano anterior, e 26% nos últimos quatro trimestres, contra uma média de 7% nos últimos 30 anos. Ritmo parecido só ocorreu nas recuperações de 2010 e 2021 — com a diferença de que agora não há recessão alguma da qual se recuperar.

Como avaliar as empresas envolvidas nesse processo? Projetar as curvas atuais para o futuro seria ingenuidade: chegaríamos a índices preço/lucro absurdamente baixos, que justificariam qualquer cotação. Mas o extremo oposto também merece reflexão — será que esses lucros vão capotar e a concorrência levará as empresas a amargar prejuízos?

O mercado está preso nesse dilema, agravado pelo volume gigantesco de investimentos em centros de dados. No post de ontem, "o-mercado-está-perdendo-paciencia", tratei do impacto que isso vem provocando nos preços. Desde o início de outubro, a Nvidia caiu 14,5%, a Meta 17,1% e a Alphabet 20,4%. Desde o fim de setembro, o S&P 500 ponderado pelo valor de mercado ficou 6 pontos percentuais atrás da versão com pesos iguais.

O Goldman Sachs publicou um trabalho sobre o tema e concluiu que não estamos numa bolha de lucros, embora as empresas estejam, sim, lucrando acima do sustentável. O contraste aparece nos múltiplos. O preço/lucro projetado para 12 meses caiu de 23 vezes há um ano para 19 vezes, exatamente a média da última década. Já o preço/lucro ajustado ao ciclo, calculado sobre dez anos de lucros, está em 39 vezes, no percentil 93 da série — superado apenas no auge da bolha da internet. Tudo depende de quanto desse lucro é permanente.


["Exhibit 4: Equity valuations on near-term earnings have diverged from multiples on trend earnings", do artigo "US Equity Views: Over-earning, but not an earnings bubble" (Goldman Sachs)]


O banco identifica três fatores inflando os resultados. O primeiro é o próprio investimento em IA, responsável por quase metade do crescimento do lucro do índice neste ano. As gigantes da nuvem devem gastar US$ 800 bilhões em 2026, alta de 94% sobre 2025, e esse dinheiro vira receita para fabricantes de chips, equipamentos, indústrias e empresas de energia. A contrapartida é a depreciação: o impulso de 11 pontos percentuais ao lucro deste ano deve virar um leve freio em 2028. Se esses investimentos fossem lançados integralmente como despesa, o lucro projetado para 2027 seria 22% menor.

O segundo são as margens dos semicondutores. A margem bruta do setor está em 70%, e a das fabricantes de memória chega a 80%, mais que o dobro da média histórica. Um retorno à média de 15 anos, de 55%, cortaria cerca de 10% do lucro do S&P 500.

O terceiro é o mais curioso. No segundo trimestre, as gigantes de tecnologia registraram cerca de US$ 150 bilhões em ganhos contábeis não realizados com participações em empresas de capital fechado — o equivalente a 12% do lucro do índice. Ou seja, parte do lucro vem da valorização no papel de apostas em empresas que nem estão na bolsa. Esse efeito deve minguar em 2027.

Ainda assim, o cenário-base do Goldman é de desaceleração, não de colapso: crescimento de 11% no lucro por ação tanto em 2027 (US$ 415) quanto em 2028 (US$ 460), com o impulso dos investimentos cedendo lugar, aos poucos, aos ganhos de produtividade trazidos pela IA. A meta para o S&P 500 em 12 meses é de 8.700 pontos, alta de 14%, puxada pelos lucros e não pela expansão dos múltiplos.

A Gavekal vai além e defende que a concentração deve aumentar. Os preços de aluguel de processadores gráficos continuam subindo, sinal de que a demanda por capacidade computacional ainda supera a oferta. O custo de capital mais alto expulsa os mais endividados — a Oracle, por exemplo, prometeu limitar novas captações a US$ 20 bilhões até maio de 2030 —, enquanto os mais capitalizados seguem investindo. Somam-se o investidor pessoa física, que tende a comprar o que conhece, e o avanço dos fundos passivos, que direcionam o dinheiro para quem já é grande: os fundos de índice negociados em bolsa já detêm 10% do mercado acionário americano. Só uma recessão interromperia esse movimento, e ela não é o cenário-base. A gestora lembra ainda que Wall Street fará de tudo para manter o entusiasmo com a IA aceso até a abertura de capital da Anthropic.


["When the cost of capital rises, smaller companies tend to suffer more", do artigo "The Case For More Mega-Cap Outperformance" (Gavekal Research)]


Se esse trabalho estiver certo, a composição do S&P 500 será bem diferente da atual. E se o valor das gigantes se mantiver nesses níveis, a concentração ficará ainda maior. Pensem na Anthropic e na OpenAI, avaliadas no mercado privado em US$ 965 bilhões e US$ 852 bilhões, a um passo de se tornarem teracórnios, enquanto a empresa mediana do Nasdaq-100 vale US$ 97 bilhões. Somem a elas as que ainda vão surgir com valores na casa dos trilhões de dólares. O que vai sobrar para os McDonald's da vida?


["$3-4 Trillion in Value Accruing On The Private Side", da apresentação "State of Markets – September 2026" (a16z)]


É muito difícil enxergar como será o mundo daqui a dez anos. A lei da oferta e da procura não foi revogada — apenas adiada. Resta saber quem estará de pé quando ela voltar a valer.


Análise Técnica

No post "curando-com-dor", fiz os seguintes comentários sobre o dólar: "Se vocês se lembrarem, eu estava acreditando numa recuperação do dólar e não tinha qualquer previsão para o resultado das eleições. No curto prazo, se a onda (X) vermelha está em andamento e se uma onda de impulso começou, o nível de R$ 5,1022 não deve ser tocado. No nível atual existe um gap enorme, aberto ontem, que normalmente tende a ser preenchido."



Nos últimos dias, circula no mercado uma ideia lançada pelo economista André Lara Resende. Se fosse só uma ideia, cairia na vala comum. Acontece que, segundo as informações que correm por aí, ele já teria uma reunião marcada com o presidente Lula nesta semana.

Um dos pais do Plano Real, Lara Resende foi diretor do Banco Central e presidente do BNDES. Formou-se pela PUC-Rio, fez doutorado no MIT e passou pelo mercado financeiro (Banco Matrix). Assessorou Marina Silva em 2014 e integrou a equipe de transição de Lula em 2022.

No artigo "Eu acuso", publicado no Substack em setembro, ele afirma que o problema fiscal são os juros, e não o gasto primário. Sem o serviço da dívida, as contas estariam praticamente equilibradas. Para ele, juros altos não derrubam a inflação e, sem aperto fiscal simultâneo, podem até elevá-la. A proposta é levar a Selic a 7,5% e criar um Conselho Fiscal e Monetário que fixe metas conjuntas de juros e de resultado fiscal para quatro a cinco anos.

O que não está dito. A ideia mexeu com a Faria Lima e provocou reação pública do ministro Durigan. Mas, como lembrou Tony Volpon (ex-diretor do BC) no X, ela parte de uma premissa que o artigo não deixa explícita: a de que as contas públicas já estão em equilíbrio. Sem esse ponto de partida, cortar juros por decreto fica bem mais arriscado.

A recondução de Lula para o quarto mandato deixou a Faria Lima de prontidão, e ninguém está disposto a ouvir qualquer argumento que não seja a redução do déficit público. A ideia de Lara Resende, por exemplo, vem sendo criticada com veemência; o pessoal não quer nem ouvir os detalhes. Por outro lado, Lula se comprometeu com vários programas pré-eleitorais que, segundo cálculos, aumentam a despesa em R$ 405 bilhões. Acho que não seria prudente querer peitar o mercado neste momento.

Do ponto de vista técnico, como mencionei acima, a onda (X) vermelha está em andamento, com objetivo em R$ 5,74. Segundo essa configuração, terminada essa onda, o dólar voltaria a cair na onda (Y) vermelha até o nível de R$ 4,70, o que, visto de hoje, parece difícil de ocorrer.

O que poderia ocorrer de diferente? Como apontei no gráfico com o símbolo laranja, a onda 4 laranja poderia ter terminado naquele ponto, e estaríamos já rumando para um objetivo que prefiro não revelar ainda, pela alta variabilidade que implica; seria um "chute".



  • David, já te conheço de longa data e sei que, quando você não quer falar sobre um objetivo, é porque ele é grande. Nós, leitores, ficamos muito curiosos. Dá uma dica, please!

Está bem. Pela consideração que tenho por você, e me reservando o direito de rever esse número dadas as dúvidas que levantei acima: algo acima de R$ 7,00!

O S&P 500 fechou a 7.568, com alta de 0,37%; o USDBRL a R$ 5,4954, com alta de 1,08%; o EURUSD a € 1,1191, sem alteração; e o ouro a U$ 3.922, com queda de 0,62%.

Fique ligado!

Comentários