Curando com a dor #USDBRL
Havia lógica nisso. Com o dinheiro praticamente de graça, apostar contra os títulos públicos não tinha atratividade nenhuma. Estou exagerando, havia um "custinho". Mas, pelo mesmo motivo, a dívida crescia devagar: juro baixo significa pouca despesa financeira se acumulando.
Agora é outra história. Os déficits se aceleram e o mercado passou a escolher os mais frágeis para testar, como a França. Os juros dos títulos longos estão nas máximas em décadas, e um estudo recente da AllianceBernstein, assinado por Inigo Fraser Jenkins, põe o dedo na ferida: os políticos dos dois lados do Atlântico vivem num mundo de faz de conta.
Os números mostram o tamanho do buraco. A dívida pública dos Estados Unidos e do Reino Unido só esteve nos níveis atuais em tempos de guerra existencial: as guerras napoleônicas, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Hoje não há guerra nenhuma. A dívida foi feita, basicamente, para manter o consumidor satisfeito.
["Today’s debt levels have only been surpassed in the US and the UK during times of existential conflict" (Display 1), do artigo "An Invidious Choice? Towards Bond Market Crisis or Yield Curve Control" (AllianceBernstein)]
O estudo lembra a "Lei de Ferguson", do historiador Niall Ferguson: quando uma grande potência gasta mais com juros da dívida do que com defesa, deixa de ser grande potência. Foi assim com os impérios Britânico, Otomano e Austro-Húngaro. Os Estados Unidos cruzaram essa linha em 2024.
E aqui no Brasil? O nível da dívida não é dos mais elevados, mas a trajetória é exponencial se nada for feito. Acho que Lula deve ter ficado assustado com a recepção dos mercados à sua reeleição. Os 52% que o reconduziram ao Planalto não estão nem aí e devem pensar: que se dane esse mercado financeiro. Mas os mais escolados do PT devem ter ficado preocupados.
O que precisa ser resolvido rapidamente é se haverá algum movimento concreto para conter a dívida. Nada de blá-blá-blá: cortes anunciados e em execução.
Uma das armas que os governos usaram contra os "vigilantes dos títulos", os investidores que punem governos perdulários vendendo seus papéis, foi trocar dívida longa por dívida curta. A razão é simples: a ponta curta é comandada pela política monetária, sobre a qual o governo tem alguma influência, ainda que a maioria dos bancos centrais seja independente.
Nos Estados Unidos, o prazo médio da dívida está perto de cinco anos, baixo na comparação com outros países, e as letras do Tesouro passaram a dominar as emissões num nível incomum fora de recessões. O alívio é imediato, mas o preço é a vulnerabilidade: quanto mais curta a dívida, mais depressa qualquer alta de juros chega à conta.
Na ponta longa, a tentação é outra: baixar os juros artificialmente. Em agosto, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, fez uma dupla intervenção, no iene e nos títulos longos. O mercado já se pergunta se é o começo de algo maior, o chamado controle da curva de juros, em que o governo determina quanto aceita pagar. Aqui no Brasil, isso nem adianta tanto, pois o CDI já embute uma taxa real próxima de 10% ao ano.
O problema não está só em quem emite, mas também em quem compra. Os fundos de pensão estão migrando dos planos de benefício definido para os de contribuição definida, e estes não têm motivo para carregar títulos prefixados longos. O fundo soberano da Noruega propôs reduzir a fatia de títulos públicos de 70% para 50% de sua carteira de renda fixa. O comprador natural da dívida longa está saindo de cena.
Some-se a isso a conta da aposentadoria, que simplesmente não fecha. As pessoas vivem mais, nascem menos bebês, e a AllianceBernstein trabalha com inflação de equilíbrio de 3%, não de 2%. Com retornos futuros menores, nem ficar 100% em ações a vida inteira garante uma aposentadoria confortável. A única saída que o estudo enxerga é trabalhar uma década a mais, e os políticos mal conseguem subir a idade mínima em um ano.
E a inteligência artificial não vai resolver tudo? O estudo chama esse otimismo de ingênuo. Lembra que Robert Owen, em 1818, já previa que a ciência tornaria o trabalho humano dispensável, e que Keynes, em 1930, apostava numa semana de trabalho curtíssima por volta de 2030. E vai além: se a IA funcionar como prometem os mais entusiasmados, o problema social será muito pior que o fiscal.
Só que nada é de graça. Segurar os juros por decreto costuma terminar em inflação e moeda fraca, e todo mundo sabe o que acontece com o governo que deixa a inflação escapar: é enxotado na eleição seguinte. Por isso o estudo assume uma posição pouco popular: uma crise no mercado de títulos seria uma coisa boa, provavelmente o único caminho para forçar a mudança e evitar um conflito ainda pior entre gerações mais adiante.
No curto prazo, o mais provável continua sendo empurrar o problema com a barriga. Afinal, juros reais acima de 2% são tentadores para muitos investidores. Para quem quer se proteger, o estudo aponta o ouro como o grande vencedor tanto na crise quanto no controle dos juros, prefere títulos atrelados à inflação aos prefixados longos e recomenda a quem investe de fora dos Estados Unidos proteger mais a exposição ao dólar.
Então, será que é preciso sentir a dor profundamente para reagir? A história mostra que sim.
Análise Técnica
No post "ia-buracos-na-estrada" fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"A disputa presidencial apertou na última semana, o que acabou se refletindo nas cotações do dólar, mas sem violar nenhum parâmetro."
Pela análise de posicionamento, acredito que essas posições compradas foram, em sua maioria, zeradas. O que pode acontecer daqui em diante? Seguramente, esse segmento não vai fazer nada por algum tempo. Alguém vai se aventurar na compra do real? Pouco provável, talvez um ou outro. Entrarão participantes novos? Na loucura de ontem, acredito que não, mas daqui em diante pode ser.
Não vou tentar adivinhar quem vai fazer o quê; vou olhar os preços, e eles me indicam o que fazer. Vou anexar o gráfico semanal para que se tenha uma visão de prazo mais longo, visto que, no curto prazo, ainda é muito cedo para qualquer previsão.
Se vocês se lembrarem, eu estava acreditando numa recuperação do dólar e não tinha qualquer previsão para o resultado das eleições. No curto prazo, se a onda (X) vermelha está em andamento e se uma onda de impulso começou, o nível de R$ 5,1022 não deve ser tocado. No nível atual existe um gap enorme, aberto ontem, que normalmente tende a ser preenchido.
Antes de seguir adiante, e como o mercado ainda está confuso, vou parar por aqui: não tenho nenhuma operação de curto prazo.
O S&P 500 fechou a 7.722, com alta de 0,60%; o USDBRL a R$ 5,3485, com queda de 1,21%; o EURUSD a € 1,1134, com queda de 0,35%; e o ouro a U$ 4.061, com alta de 1,09%.
Fique ligado!




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