A culpa é do mercado #USDBRL


Hoje quero falar de um comportamento humano que atrapalha o raciocínio lógico: o viés. Procuramos as opiniões que confirmam aquilo em que já acreditamos e descartamos as que nos contrariam. Não adianta alegar que somos diferentes, porque não somos. Todos nós, eu incluído, somos levados por esse caminho.

Para comprovar, basta observar o que acontece agora nas eleições. As redes sociais encaminham você aos comentários que concordam com o que pensa e, quando algum do candidato adversário escapa do filtro, a vontade é de esganar o autor. Esse é o efeito direto do viés, amplificado por uma mídia que se encarrega de trancá-lo dentro da própria bolha.

O fenômeno atinge todo mundo, independentemente do grau de instrução. Vou usar como exemplo Robin Brooks, economista que respeito bastante, mas que ultimamente se enrolou com o conceito de "debasement trade" — a aposta na desvalorização das moedas diante do descontrole fiscal dos governos. Daqui em diante vou chamá-lo de DT, e sobre ele tenho opinião distinta.

Ele jurou por tudo que o ouro é o ativo que vai espelhar essa crença. Acontece que, em 2026, o metal está no zero a zero. Depois de subir 65% no ano passado, devolveu a disparada de janeiro e fevereiro e voltou ao ponto de partida.


"Gold price (XAU/$)", do artigo "Will Gold Boom Again Like in 2025?" (Robin J Brooks, Shadow Price Macro)


A primeira frustração veio com o início da guerra entre Irã e Estados Unidos. Pela lógica, o ouro deveria subir ainda mais, mas caiu quase 30% desde a máxima. Logo surgiu um motivo: os investidores individuais que foram estopados na queda. Em julho o mercado voltou a subir, e ele aproveitou para reforçar sua teoria. Em setembro, voltou a cair.

Em nenhum momento a ideia do DT foi colocada em questão. Num relatório recente, ao explicar a queda do euro, também encontrou justificativas — todas temporárias, lógico. Não tive dúvida e escrevi um e-mail perguntando se a tese estava mesmo em vigor, já que o franco suíço, a única moeda hoje vista como porto seguro, havia caído 10%, enquanto o euro, no mesmo período, recuou 7,5%.

Não obtive resposta. Na minha opinião, o que prevalece no momento é a alta do juro americano e, consequentemente, não existe DT nenhum, pelo menos por enquanto. Motivos para ele existem — basta ver a evolução da dívida americana —, mas o tema ainda não tocou o investidor.

John Authers, da Bloomberg, chegou hoje à mesma conclusão. O que pesa sobre o ouro é a volta do Fed às altas de juros sob Kevin Warsh, que levou o dólar à máxima em meses e o juro real de 10 anos a 2,88%, um ponto percentual acima do início do ano. O desempenho do metal em 2026 só não é pior, na última década, que o de 2022 — outro ano de alta de juros inesperada.


"Down But Not Out", do artigo "Trump's oil deal needs the Houthis to behave" (John Authers, Bloomberg)


Nunca afirmei que o ouro não pode subir; minha divergência está nos motivos. Authers mostra que a queda só não foi maior porque os bancos centrais, liderados pela China, continuam comprando — 45% deles pretendem aumentar as reservas no próximo ano —, os fundos de ouro tiveram em setembro a maior entrada desde o início de 2022, e a produção das minas cresceu apenas 2%. São argumentos sólidos, mas de outra natureza: quem compra é o banco central em busca de proteção geopolítica, não o investidor fugindo da moeda. Se o ouro subir por esse caminho, não será a prova de que o DT chegou.

O curioso é que o próprio Brooks admite, no relatório de domingo, que o grande combustível da alta de 2025 foi o corte de juros do Fed com a inflação ainda acima da meta. Hoje, o mercado futuro precifica o contrário: altas de juros até o final de 2027. Ou seja, o gatilho que ele espera ainda não apareceu. Aponta ainda outros dois catalisadores: uma iniciativa do Tesouro americano para conter os juros longos, como o anúncio surpresa de recompra de títulos em 19 de agosto, e uma queda do petróleo, que segue acima de US$ 100 o barril com os ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz.

Hoje recebi um novo relatório, no qual ele traça cenários para o restante de 2026. A tabela é audaciosa. Associa probabilidades cruzadas a dois eventos principais — o rumo do preço do petróleo e a crise da dívida francesa — e, para cada combinação, prevê o comportamento de cinco mercados: dólar, euro, juros de 10 anos, ouro e bolsa americana. E mais: indica se cada um sobe (ou cai) pouco ou muito. Uauuu...


"How Will Markets Trade in the Rest of 2026?", do artigo "How Will Markets Trade in the Rest of 2026?" (Robin J Brooks, Shadow Price Macro)


Resumindo a lógica: ele atribui 70% de chance de o petróleo cair e 70% de a França seguir se arrastando, sem crise aberta. O cenário mais provável, com 50%, combina as duas coisas: dólar e juros longos em forte queda, S&P 500 em forte alta e ouro subindo um pouco. O metal só cairia em um único quadrante, com 20% de probabilidade, e mesmo assim pouco. Conclusão dele: o risco é assimétrico a favor do ouro.

Muito bem, qual o valor dessa tabela para a tomada de decisão? Nenhum. São tantas variáveis e tantos cenários que qualquer coisa pode acontecer. Além disso, ela é qualitativa: se o petróleo subir, sobe a partir de qual nível? Quanto? Não vale a pena perder tempo com ela. Serve muito mais para justificar a teoria do DT e explicar por que ela pode não dar certo.

Não vou anotar as previsões aqui para cobrá-las no final do ano.

Vocês conhecem minha opinião sobre economistas: em geral, um grupo muito qualificado que, até por isso, sente certa superioridade, mas que carrega, por trás, a necessidade de acertar as previsões e uma negação do mercado. Recentemente, o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, ficou chocado com a reação da bolsa ao resultado do primeiro turno das eleições. Caso clássico da ideia de hoje. Nem preciso dizer que foi ridicularizado pela turma da Faria Lima.

Eu também sou atingido por esse sintoma, não tenho como negar. É da autoestima querer "estar certo". Mas a vivência de mercado me ensinou que estar certo nem sempre é condição para obter lucro — e, quando o erro dói no bolso, o viés vai embora rapidinho.


Análise Técnica

No post "só-o-alivio-não-resolve", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

"Com o movimento de hoje, é provável que a queda continue, mas é importante que o nível de R$ 4,88 seja rompido. Se isso ocorrer, o canal de baixa deve nortear a queda, embora R$ 4,60 seja o limite para a contagem que estou adotando."



Esqueci de comentar ontem, mas esta semana inverti a análise da bolsa e do dólar; na semana que vem, volta ao normal.

No gráfico diário, nota-se até o momento três ondas, destacadas com o retângulo. Acredito que, até o resultado final das eleições, não existe muito o que possa ocorrer, a não ser que as pesquisas mostrem um aumento da vantagem de Flávio, o que poderia antecipar a queda, ou, caso contrário, Lula recuperando o terreno perdido.

Como não estamos aqui para fazer previsões, vamos acompanhar os preços, que serão um bom indicador de quem vai ganhar. De novo, surge o tema do post de hoje: sem viés, no bolso. Detalhe: isso não significa que o mercado não possa errar; já vimos isso muitas vezes.



O S&P 500 fechou a 7.805, sem variação; o USDBRL a R$ 5,0215, com alta de 0,69%; o EURUSD a € 1,1198, com alta de 0,38%; e o ouro a U$ 4.163, com queda de 0,21%.

Fique ligado!

Comentários

  1. Só um adendo:

    Dario Durigan não é economista,é formado em Direito e servidor de carreira da AGU

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  2. eu acabei não verificando sua qualificação, obrigado por corrigir. Mas agora com essa informação dá para entender sua reação, e como se diz em linguagem popular: ele não é do ramo!

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