O Fed perdeu o cúmplice #IBOVESPA


Desde que Kevin Warsh assumiu o Federal Reserve, nesta primavera americana, deixou claro que não daria pistas sobre seus próximos passos. Resumiu a filosofia numa imagem do futebol: o investidor deve olhar a bola, não o juiz. Em tempos calmos, ter ou não uma indicação faria pouca diferença. Mas não é isso que estamos assistindo.

De um lado, a pressão inflacionária vem do petróleo, por conta da guerra no Oriente Médio, e das tarifas, que costumam agir com efeito retardado. Soma-se a isso o aumento do endividamento, tanto do setor privado quanto do público. Do outro lado, há o ganho de eficiência que se espera da inteligência artificial. Com forças tão opostas, projetar o indicador mais básico de todos, a taxa de juros, virou um desafio.

Não é para menos que as apostas implícitas nos mercados futuros vêm oscilando de forma expressiva. A probabilidade de uma alta na reunião de 27 e 28 de outubro subiu para cerca de 70% depois que Warsh explicou a alta de setembro, despencou para perto de 25% antes do relatório de emprego da última sexta-feira e caiu ainda mais depois dele, quando se soube que a economia criou apenas 29 mil vagas no mês.

O curioso é o que provocou essa reviravolta. Ao justificar a alta de 16 de setembro, Warsh disse que os juros ainda não estavam contendo a economia e que a inflação precisava cair "com velocidade suficiente". O mercado leu ali uma justificativa ampla para mais uma alta já em outubro. Foi quando os outros dois integrantes do círculo íntimo do presidente do Fed, John Williams, do Fed de Nova York, e o vice-presidente Philip Jefferson, vieram a público avisar que não havia pressa.

Williams foi além do necessário: disse que outra alta "no fim do ano" poderia ser apropriada, mas que não havia "nenhuma urgência". Isso uma semana depois de declarar, em Londres, que a era da orientação futura tinha acabado. Eric Rosengren, que presidiu o Fed de Boston entre 2007 e 2021, matou a charada: "Seria constrangedor ele mesmo fazer isso. Então está fazendo por meio dos seus dois vice-presidentes." Resultado: Goldman Sachs e RBC abandonaram a previsão de alta em outubro e se juntaram à grande maioria, que agora aposta em dezembro.

Rosengren tocou no ponto central: "Você não precisa prometer uma trajetória de juros para que as pessoas encontrem uma trajetória implícita." Quem se declara falcão contra a inflação paga o preço de ver o mercado antecipar juros bem mais altos. O silêncio, ao contrário do que imaginava Warsh, também comunica.

Antes, o mercado ficava na arquibancada observando as indicações do Fed para fazer suas apostas. Quando algo muito gritante acontecia, quase que mandava um recado à autoridade monetária para que refizesse suas expectativas, e quase sempre era atendido. Em outras palavras, o Fed era guiado pelo mercado. Agora é diferente: o mercado está sentado na cadeira do Fed, sem direito a voto, e suas apostas serão ou não confirmadas. O Fed passou a atuar como juiz, interpreta os movimentos do mercado e julga se estão corretos.


["2-Year Government Yields Minus Central Bank Policy Rates", do artigo "GLOBAL MARKET CALL: Bond Vigilantes Gone Wild" (Yardeni Research)]


O gráfico acima mostra até onde o mercado já foi. A taxa dos títulos de dois anos do Tesouro americano está 90 pontos-base acima da taxa básica do Fed. O mesmo acontece no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, onde o banco central subiu os juros pela quarta vez no ano. O mercado não está esperando o juiz apitar.

Não é à toa que a volatilidade do mercado de juros, medida pelo índice MOVE, se encontra muito mais agitada que a da bolsa, medida pelo VIX. O MOVE saltou para 96 pontos, acima da sua média histórica. Já o VIX fechou ontem em 15 pontos, a menos de dois pontos da mínima das últimas 52 semanas e bem abaixo da sua média de longo prazo, perto de 20. Os juros tremem, e a bolsa parece não ter sido avisada. Yardeni suspeita que o mercado de títulos foi invadido por algoritmos que reagem às manchetes com operações gigantescas, ampliando cada oscilação.


["US Treasury Bond Volatility Index (MOVE)", do artigo "US MARKETS CALL: Invasion Of The Bond Vigilante Algorithms" (Yardeni Research)]


E o pano de fundo não ajuda. A taxa do título de dez anos do Tesouro americano fechou a semana passada em 5,28%, depois de tocar o nível mais alto desde 2002. Quase toda a alta do ano veio dos juros reais, enquanto as expectativas de inflação mal se mexeram. O fenômeno é global: no Reino Unido e na Austrália as taxas estão ainda mais altas, e a França já paga mais que a Itália e a Grécia para se financiar por dez anos.


["10-Year Government Bond Yields", do artigo "GLOBAL MARKET CALL: Bond Vigilantes Gone Wild" (Yardeni Research)]


Jefferson mencionou essa alta nas suas falas, e com razão. Juros longos mais altos fazem parte do trabalho do Fed, freando investimento e crédito. Só que, com a dívida pública e corporativa muito maior do que em ciclos anteriores de aperto, fica bem mais difícil medir o estrago de uma disparada rápida.

Para completar, o calendário. A reunião de outubro acontece seis dias antes das eleições de meio de mandato. Nas palavras de Rosengren, "adiar por uma reunião não faz muita diferença econômica, mas pode fazer uma grande diferença política". Se o mercado esperasse uma alta que não viesse, alguém no governo poderia acusar o Fed de ter interferido na eleição ao sinalizar um caminho que não pretendia seguir.

O que pode dar errado? No passado, um erro do Fed tinha, ao menos em teoria, o mercado como cúmplice. Agora o Fed será a vidraça, principalmente se sua decisão contrariar a aposta do mercado, e neste momento a chance de isso acontecer é maior, dadas as indefinições que pairam no ar. Loretta Mester, ex-presidente do Fed de Cleveland, resumiu bem: "A natureza tem horror ao vácuo, e a única pessoa que pode falar pelo comitê é o presidente."

Warsh não desistiu de desmamar o mercado das falas do Fed, apenas ajustou a abordagem. Mas o episódio deixou uma lição. Quem abre mão de dividir a responsabilidade com o mercado também abre mão do álibi. O Fed perdeu o cúmplice.


Análise Técnica

No post "preguiça-financeira", fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"Mais uma semana se passou e nenhuma definição ocorreu. Com as eleições no próximo domingo, ninguém quer se arriscar neste momento; acho que teremos que esperar a próxima semana (...) O cenário menos provável é que a eleição seja decidida no primeiro turno. Assim, passa a contar o diferencial entre os candidatos: se a diferença entre o Lula e o Flávio for menor que 3% (e, quanto menor, mais aliviado o mercado ficará), é possível que haja uma tentativa de romper para cima."



Nem passava pela minha cabeça, nem pela da grande maioria do mercado, que a diferença pudesse ser a favor do Flávio. Mas, com a diferença entre ambos tão justa, qualquer milhão de votos para cá ou para lá faz diferença, e isso é menos de 1% do total de votos, que foi de 125,3 milhões. Na minha hipótese acima, com uma diferença menor que 3% a favor do Lula, já poderia haver uma alta; com uma diferença a favor do Flávio, deu no que deu: a bolsa explodiu para cima.

Essa importante mudança no comando do país fez com que eu analisasse uma outra contagem, mais altista para a bolsa, além de fazer alguns ajustes na atual. A diferença principal é se, em vez de a onda C vermelha ser o movimento final, ela poderia ser o final de uma onda 3. Como em ambos os casos o objetivo de curto prazo é ao redor de 230 mil, é depois disso que posso ter pistas melhores de qual vai prevalecer.

Muito bem, vale uma compra nos níveis atuais? Vejamos: se esse objetivo for alcançado, existe uma alta de 12% (detalhe: pode ser 221 mil, conforme a contagem em laranja no gráfico abaixo, e então seria de cerca de 7,5%). O stop loss deveria ser colocado em 188 mil, uma queda de 9%. Acredito que só poderia me envolver num trade se houver uma queda que modifique essa relação risco-retorno.

Deixo a decisão ao leitor que ficou otimista com as colocações feitas por sua equipe econômica; só deixo registrado que "tem que combinar com os russos", parafraseando Garrincha.



O S&P 500 fechou a 7.801, com queda de 0,22%; o USDBRL a R$ 5,0124, com alta de 0,60%; o EURUSD a € 1,1194, com queda de 0,58%; e o ouro a U$ 4.104, com queda de 1,43%

Fique ligado!

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