Quem paga o estádio #IBOVESPA


Ontem falei dos laboratórios, os craques que ainda precisam provar que fazem gol. Hoje vou para o outro lado do campo: quem está construindo o estádio. A segunda grande dúvida do mercado é se o investimento das gigantes da nuvem — Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle — vai se pagar. Um relatório recente do Goldman Sachs tenta responder com números, e vale acompanhar a conta.

A escala impressiona. Essas empresas devem investir US$ 800 bilhões em 2026, e o consenso já aponta US$ 1,1 trilhão para 2027, estimativa revisada para cima em US$ 175 bilhões só desde o início da última temporada de balanços. Em proporção do PIB, é o maior ciclo de investimento tecnológico desde a construção das ferrovias, no fim do século XIX.

O Goldman vai além: US$ 1,2 trilhão em 2027 e US$ 1,4 trilhão em 2028. Mas o que importa é o ritmo. O crescimento do investimento, que beirou 100% neste ano, cai para 54% em 2027 e para 12% em 2028. O gasto continua subindo, porém cada vez mais devagar.


["Consensus hyperscaler capex estimates", do artigo "AI capex, required revenues, and what's priced in the AI trade" (Goldman Sachs)]


Por que desacelerar? Porque o dinheiro próprio acabou. O investimento já supera o caixa gerado pelas operações, e daqui para frente o crescimento depende de dívida e de emissão de ações. Os balanços aguentam, mas o mercado de títulos de grau de investimento já está concentrado demais nesses nomes, o que empurra parte da conta para o crédito privado. Somem-se a isso a falta de energia, de mão de obra e de memória, além de possíveis restrições à construção de centros de dados.

Agora, a conta que interessa. Para simplesmente empatar — cobrir depreciação e custos operacionais —, as gigantes da nuvem precisariam faturar cerca de US$ 300 bilhões por ano com IA. Empatar, porém, não é negócio. Para um retorno de 20% sobre o capital, a receita necessária sobe para US$ 526 bilhões; para 30%, US$ 636 bilhões.


["Sensitivity of annual required hyperscaler AI revenues to ROIC assumption", do artigo "AI capex, required revenues, and what's priced in the AI trade" (Goldman Sachs)]


Onde estamos? A receita de nuvem de Amazon, Alphabet, Microsoft e Oracle passou a crescer 48% ao ano no segundo trimestre, contra 25% em 2024. A parte atribuível à IA soma perto de US$ 70 bilhões por ano. Ainda é pouco diante dos US$ 300 bilhões necessários, mas esse valor vem dobrando a cada poucos trimestres. Além disso, Amazon, Alphabet e Microsoft acumulam US$ 1,7 trilhão em contratos já assinados. O placar começou a andar.

O lado incômodo: segundo o banco, o retorno sobre o capital investido dessas empresas caiu de 40% para 25%. E há mais um degrau. Quem compra essa capacidade também precisa lucrar: para que toda a cadeia ganhe dinheiro, os usuários finais teriam de gastar cerca de US$ 1 trilhão por ano em aplicações de IA — o mundo gasta US$ 1,5 trilhão com software em 2026. É possível, mas nada garante que o ganho fique com quem construiu a infraestrutura.

Há ainda a corrida entre preço e volume. Os modelos abertos derrubaram o preço médio do token, e a demanda precisa crescer mais rápido do que o preço cai. Resumo o dilema assim: oferta abundante com demanda incerta empurra o preço para baixo. Visto desse ângulo, é razoável desconfiar e ser cauteloso. Mas, se a demanda for muito maior do que se imagina, a queda de preço deixa de ser tão grave — tudo depende, claro, da dimensão de cada um.

O que o mercado já colocou no preço? Bastante ceticismo. O P/L mediano das ações de infraestrutura caiu de 32 vezes em abril para 22 vezes hoje. As fabricantes de memória negociam a 4 vezes o lucro projetado para dois anos, metade da média de 15 anos. Já as gigantes da nuvem estão no menor P/L em mais de uma década, apenas quatro pontos acima da empresa mediana do S&P 500 — o menor prêmio da série.


["Hyperscaler valuations have de-rated to lowest level in 10 years", do artigo "AI capex, required revenues, and what's priced in the AI trade" (Goldman Sachs)]


Aqui está o paradoxo. A desaceleração do investimento, que assusta quem vende pás e picaretas, é boa notícia para quem as compra: menos gasto e mais receita significam fluxo de caixa livre voltando ao azul. Tampouco há euforia no índice: a expectativa de crescimento de longo prazo embutida nos preços está só um pouco acima da média histórica de 9%, bem longe dos 16% da bolha da internet.

Tenho ouvido vários podcasts recentemente, com opiniões às vezes divergentes. Sem entrar em detalhes, meu sentimento é que a velha frase "desta vez é diferente" talvez seja, enfim, verdadeira. Foram tantas as vezes em que ela terminou em enorme frustração que é natural reagir com desconfiança.

Os números de ontem reforçam essa impressão. A SpaceX divulgou o balanço do terceiro trimestre: receita de US$ 14,6 bilhões, 15% acima do esperado, com o segmento agora batizado de "Super Inteligência" multiplicando por nove o faturamento em relação ao mesmo trimestre do ano passado. A empresa reverteu um prejuízo de US$ 1,1 bilhão para um lucro de US$ 4,4 bilhões, e o lucro por ação ajustado foi de 45 centavos, contra 13 esperados.

O pré-mercado reagia bem até esta manhã. Ken Griffin, da Citadel, havia afirmado que os investidores estão "quase certamente" numa bolha de IA. Em Berlim, Christian Sewing, do Deutsche Bank, e Larry Fink, da BlackRock, rebateram: para Sewing, o temor de bolha não se justifica, o que existe é volatilidade; para Fink, quanto mais rápido se construírem centros de dados, mais rápido o custo da computação cai. Ainda assim, bastou uma voz dissonante — relevante, sem dúvida — para o pré-mercado recuar. Isso mostra o quanto o mercado está suscetível.

Então, a IA vai se pagar? No papel a conta fecha, mas o relógio corre: cada ano de investimento forte eleva a régua do ano seguinte. O estádio está sendo erguido com dinheiro emprestado, e a torcida ainda não comprou todos os ingressos. Mas, se as empresas continuarem entregando resultados como esse e a tão falada bolha se revelar apenas um temor, o P/L seguirá caindo. Quanto mais o mercado patinar com essa sensação de bolha, maior a chance de uma alta vigorosa à frente. Quem compra barato não precisa de goleada. Basta vencer.


Análise Técnica

No post "o-porteiro-do-salão", fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"A bolsa oscilou muito pouco depois de atingir a máxima de 209,7 mil e recuou a uma mínima de 206,1 mil; como podem ver no gráfico a seguir, é imperceptível" (...) "o mercado deve ficar em estado de espera nesses últimos 8 dias úteis. Por ora, mantenho as recomendações, e a queda que houve não altera a relação risco x retorno, como mencionei".



Na última semana, a vantagem de Flávio ficou ameaçada, embora ele não tenha ficado atrás do oponente em nenhuma pesquisa eleitoral. Nesta semana, a bolsa se recuperou e chegou quase aos níveis máximos. Faltam poucos dias e, caso essa tendência se estenda, acredito que a bolsa não vai esperar a contagem dos votos: o Ibovespa poderá atingir novas máximas rumo ao objetivo entre 221 mil e 232 mil, antecipando a vitória de Flávio.

Acho que estou um pouco (muito) positivo hoje — também nasceu meu terceiro neto —, mas no mercado é importante conter essa mini euforia. Só me resta "Let The Market Speak".



O S&P 500 fechou a 7.757, com alta de 0,58%; o USDBRL a R$ 5,0283, sem variação; o EURUSD a € 1,1233, sem variação; e o ouro a U$ 4.135, com alta de 0,24%.

Fique eligado!

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