IA: buracos na estrada #USDBRL
Meu associado Alberto Dwek gentilmente comenta o conteúdo do post todos os dias e, de tempos em tempos, produz material para publicação aqui, invertendo nossos papéis. Temos opiniões divergentes sobre a IA. A divergência não está em ela representar ou não uma mudança global. Está nas expectativas de lucro dos vários segmentos e, principalmente, dos laboratórios que se aproximam da abertura de capital com avaliações já na nova medida financeira: os trilhões. Espero que gostem do conteúdo de hoje.
Quatro meses depois de nosso artigo sobre os riscos dos investimentos em IA (IA: As pedras no caminho), já apareceram vários obstáculos na trajetória da revolução digital em curso. Desde o fim do mundo anunciado por um jovem imberbe até o crescimento de soluções de IA alternativas, passando pelos pepinos financeiros da Oracle, tudo indica que estamos cada vez mais perto de vários pontos de definição.
Boomers e Doomers
Nada como um bom Fla-Flu para acirrar os ânimos. De um lado, os chamados “boomers” — não confundir com a geração mais velha — que apostam na superinteligência dobrando a esquina e nos robôs colonizando Marte até 2050. Já os “doomers”, que querem frear o avanço da IA, distribuem previsões do Apocalipse como bombons em festa de criança. O interessante é que ambos, assim como na Teoria da Ferradura que aproxima os extremos políticos da direita e da esquerda, baseiam-se na muito discutível hipótese de que os modelos de linguagem (LLMs) estão crescendo exponencialmente em inteligência, quando na verdade estão apenas aumentando sua capacidade, volume de parâmetros e rapidez. E ambos convenientemente ignoram os verdadeiros e atualíssimos problemas do uso indiscriminado dos LLMs.
Outro ponto em comum das duas facções é o discurso interesseiro dos inescapáveis Altman e Amodei, que hoje dependem criticamente de uma captação histórica de investimento. É importante para ambos que seus modelos sejam vistos como os mais valiosos precursores da superinteligência. Por isso estão sempre nas manchetes da mídia, anunciando uma nova e melhor versão a cada mês, ou alertando para as piores consequências caso não governem o monopólio da IA. Não surpreende que sejam admirados pelas duas torcidas.
Os limites dos LLMs
Muita gente ainda confunde IA com modelos de linguagem, e grande parte da mídia ajuda nessa confusão. Vamos deixar claro: a Inteligência Artificial é muito maior que um ChatGPT, um Claude ou um Gemini. Modelos de mundo e inteligência espacial, reconhecimento visual de padrões, sistemas simbólicos de lógica e redes neurais gráficas têm muito mais aplicações importantes, na física, na biologia e na medicina. Já os LLMs são hoje usados como meros mecanismos de busca por 80% dos interessados. E ainda que os programadores adorem delegar seus códigos à IA, não é o Claude que vai ensinar um carro autônomo a dirigir ou um robô a realizar tarefas domésticas.
Os usos mais frequentes não são os mais rentáveis
Isso importa porque hoje o discurso está dominado por OpenAI e Anthropic, e os trilhões do mercado também. Fica parecendo que o destino da IA como um todo depende de seus IPOs, e isso simplesmente não é verdade. O mundo tem muito mais a ganhar com o sucesso de quem investe em aplicações práticas da IA do que com modelos de linguagem que são úteis, sim, mas para tarefas limitadas. E os limites podem não ser apenas tecnológicos...
Agentes? Aqui não
Em recente entrevista, Rick Wurster, CEO da Charles Schwab, explicou por que sua empresa fechou as portas para agentes de IA de outras origens, como o Muse da Meta. Mesmo sabendo que seus clientes já usavam a IA para tomadas de decisão, a questão da segurança foi fundamental, e a empresa simplesmente desenvolveu seu próprio agente (com o mimoso nome de Charley) e com isso controla qualquer risco operacional dentro de casa. Desconfio que muito mais empresas vão investir em modelos próprios para fugir ao domínio da OpenAI ou da Anthropic.
O que nos leva a outro processo crítico para os atuais gigantes do mercado: a comoditização.
Uma IA em cada computador
Não é apenas o open source que ameaça os pioneiros. A distribuição de dispositivos com chips dedicados a IA vai atender a imensa maioria dos consumidores que não precisam de um modelo com trilhões de parâmetros para suas tarefas diárias básicas. Nada mais impede que modelos menores rodem localmente a custos insignificantes, o que acaba resultando em dupla perda para a OpenAI e a Anthropic: a receita e os dados que alimentam seus modelos.
PC com IA: você ainda vai ter um
É claro que sempre haverá clientes para as versões mais sofisticadas do ChatGPT ou do Claude. A questão é que a comoditização, os modelos abertos e o uso local inviabilizam a estratégia de atenderem o mundo inteiro e seus 30 trilhões de dólares. O business plan dos senhores Altman e Amodei, ao que tudo indica, não parece valer os bits do PowerPoint da apresentação.
Tempestade perfeita
O plano dos investidores não era ruim: colocar o que fosse necessário para garantir a supremacia dos modelos da OpenAI e da Anthropic e vender sua participação com IPOs a múltiplos históricos. Esqueceram-se de combinar com alguns russos.
Os usuários, por exemplo, continuam batendo o pé. Não aceitam aumento de preço e já estão procurando ativamente alternativas no mercado aberto. A esperança de dominar o mercado e cobrar caro foi por água abaixo.
Os financiadores, na ausência de novos investidores, estão cobrando cada vez mais para entrar na dança. Bastou a Oracle declarar “força maior” e informar que seu gigantesco data center iria atrasar para que o gato de sua dívida já subisse no telhado. O mercado aumentou os juros de 5,5% para 8,3% (uma enormidade) e seu seguro de crédito já a coloca em 20% de probabilidade de calote. E a Coreweave, locadora de data centers, perdeu 22% de seu valor em uma semana pelo descasamento entre seus custos imediatos e suas receitas que ainda demoram para chegar.
Está cada vez mais caro se proteger de um calote
E por falar em atraso e dependência: calcula-se que quase 300 mil chips da Nvidia foram entregues mas ainda não estão funcionando. Os usuários pagaram e já receberam os chips, só que não estão ganhando nada com eles porque os data centers não estão prontos. Estamos falando de uma bagatela entre 10 e 20 bilhões de dólares, muitos deles custando juros cada vez mais altos.
Onde está o data center que eu encomendei?
E Jensen Huang, criativo como sempre, já arrumou mais dinheiro para seus compradores: pediu a seguradoras de crédito e outros financiadores que emitam fianças para facilitar empréstimos a seus clientes menos favorecidos. A cereja no bolo é que Huang prometeu absorver 25% do risco de não-utilização dos chips vendidos. Ou seja, mais alavancagem circular e um sinal claro de esgotamento na dança das cadeiras.
O que vem pela frente
Uma das dúvidas em nosso artigo de junho referia-se ao potencial sucesso dos IPOs à vista. O da SpaceX foi bem-sucedido na avaliação definida, embora a ação tenha demonstrado grande volatilidade desde então. Já o da OpenAI foi adiado para o ano que vem e o da Anthropic está tendo mais reviravoltas do que novela da Globo. Amodei já anunciou o fim dos empregos e o risco de Apocalipse, e fez pé firme na avaliação de 2 trilhões. O mercado já pediu 500 bilhões de desconto: não estamos mais na euforia desregrada de meses atrás.
Mesmo os mais céticos analistas e observadores recusam-se a prever qualquer prazo, mas está ficando claro que os buracos na estrada estão cada vez mais visíveis. Minha opinião mudou pouco: há uma tamanha multiplicação de riscos e tanta esperança depositada numa performance perfeita da OpenAI e da Anthropic que basta uma pequena variação nas condições do mercado ou da economia para derrubar as duas torres. E as nuvens negras já apareceram.
Análise Técnica
No post “A culpa é do mercado” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“No gráfico diário, nota-se até o momento três ondas, destacadas com o retângulo. Acredito que, até o resultado final das eleições, não existe muito o que possa ocorrer, a não ser que as pesquisas mostrem um aumento da vantagem de Flávio, o que poderia antecipar a queda, ou, caso contrário, Lula recuperando o terreno perdido.”
O S&P 500 fechou a 7.690, com alta de 0,41%; o USDBRL a R$ 5,0471, com queda de 0,31%; o EURUSD a € 1,1210, com queda de 0,26%; e o ouro a U$ 4.141, com queda de 0,58%.
Fique ligado!






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