Queima de estoque global #Nasdaq100 #NVDA

 


O leitor do Mosca acompanha comigo, há bastante tempo, a guinada da China depois que as tarifas americanas fecharam parte do seu principal mercado. Naquele momento havia dois caminhos: estimular o consumo interno ou diversificar as exportações. Pequim escolheu o segundo.

O problema é de escala. Quando o maior cliente reduz os pedidos, nenhum mercado alternativo absorve o volume de uma vez. A saída foi espalhar a produção pelo mundo sacrificando preço. Exportar a qualquer custo virou a ordem do dia.

Pouco mais de um ano depois, a eficiência chinesa entregou o que se propôs. Robin Brooks usa uma imagem precisa: um fornecedor com um único grande cliente, que avisa querer depender menos dele, faz bem em buscar novos compradores. A China fez isso na velocidade da luz. As exportações de setembro saltaram 36% em relação a um ano antes. O superávit com os Estados Unidos voltou ao nível anterior a 2025, enquanto o superávit com outros catorze parceiros, entre eles União Europeia, Japão, Reino Unido e Vietnã, disparou na vertical.


[Superávit comercial da China com os EUA (preto) e com outros 14 países (azul), em US$ bilhões, do artigo “China's Trade Surplus Goes Vertical” (Robin J Brooks)]


E não apenas os países ricos. Nigéria, Gana, Marrocos, Paraguai, Colômbia, Hungria e Polônia viram suas importações da China explodirem desde o fim de 2024. A máquina exportadora foi redirecionada para onde houvesse comprador.

O mercado mais fácil foi o automobilístico, afinal carro é carro em qualquer lugar do mundo, e o destino preferido foi a Europa. Para os demais produtos que antes seguiam para os Estados Unidos, o argumento foi o infalível: preço. A China passou a exportar deflação. Para entrar em mercados que nunca compraram seus produtos é preciso dar desconto, e o desconto sai da margem dos exportadores. Pequim aceitou o prejuízo de curto prazo em troca de menor vulnerabilidade às tarifas americanas.

Não foram só os produtos básicos. Como o gráfico abaixo aponta, as exportações de alta tecnologia cresceram quase 64% em doze meses, o dobro do total. A ordem era limpar as prateleiras, e rápido.


[Exportações totais e de alta tecnologia da China, variação anual (dados da alfândega chinesa, LIOR Global Partners)]


O número que resume a história: de janeiro a setembro de 2026, o superávit comercial chinês passou de US$ 900 bilhões, recorde absoluto, depois de fechar o ano passado em US$ 1,2 trilhão. E não se trata de importações em queda, elas também crescem. É a máquina exportadora operando a pleno vapor.


[Superávit comercial da China de janeiro a setembro, 2000–2026, em US$ bilhões, do artigo “China's Trade Surplus Goes Vertical” (Robin J Brooks)]


Seria ingenuidade imaginar que não surgiriam reclamações, e para isso Pequim se preparou com duas armas. A primeira é o domínio das terras raras: quem precisa delas para sua indústria aceita comprar os produtos chineses. Funcionou contra as tarifas americanas e virou moeda de troca diante da Europa. A segunda é mais sutil: compra-se mais matéria-prima do parceiro e vende-se a ele produto acabado, de modo que a balança comercial pouco se altera.

É o caso do Brasil. O governo entrou ingenuamente nesse jogo e ainda se vangloria da estratégia, sem perceber que está decretando a morte lenta da própria indústria exportadora.

A Europa, enfim, acordou. O déficit comercial do bloco com a China mais que dobrou em uma década e chegou a cerca de US$ 1 bilhão por dia no ano passado; em volume, cresceu mais de cinco vezes. Só em setembro, as vendas chinesas para a União Europeia subiram 25%. Christophe Barraud mostra o estrago: nos oito primeiros meses de 2026, a zona do euro acumulou déficit comercial de € 0,75 bilhão, contra superávit de € 95,8 bilhões um ano antes. Energia cara de um lado, China corroendo do outro justamente os setores que sustentaram o modelo europeu: automóveis, máquinas, equipamentos elétricos e química.

A resposta veio em forma de cota, no máximo 350 mil híbridos chineses por ano, menos da metade do volume atual. Pequim aceitou para ganhar tempo. Um assessor de Ursula von der Leyen resumiu a mudança de postura: reequilibrar não é mais vender mais para a China, é a China vender menos para nós. França e Alemanha já discutem um instrumento nos moldes da Seção 301 americana. Os fabricantes chineses, por sua vez, erguem fábricas na Espanha e na Hungria, onde não há cota nem tarifa.

Para a própria China, a consequência é recorde atrás de recorde na balança comercial, apoiado numa política cambial administrada. O yuan até subiu cerca de 4% neste ano, mas o FMI estima que continue subvalorizado em até 25%, e o banco central segue controlando a cotação pela fixação diária. Enquanto isso, a bolsa paga a conta. O CSI 300 está no menor nível em mais de um ano e o ChiNext acumula queda superior a 13% em 2026. Margens esmagadas, consumo fraco e a onda vendedora global em tecnologia levaram Pequim a acionar a “equipe nacional”, pedir recompras às empresas e orientar seguradoras a não realizar prejuízos.


[CSI 300 e ChiNext na mínima em mais de um ano, do artigo “China Moves to Prop Up Stocks With Selling Curbs, Buybacks” (Bloomberg)]


Isso não pode acabar bem. Acrescente-se o rumo que o mundo está tomando com a inteligência artificial. A discussão sobre o grau em que ela vai substituir mão de obra é acalorada, mas ninguém duvida da direção: serão necessários menos trabalhadores. Some a enxurrada chinesa, que destrói indústrias, à IA, que elimina postos de trabalho, e o resultado é excesso de mão de obra justamente nos países atacados pela China. Ou seja, todos.

Quais são os prognósticos de solução? Não tenho a menor ideia. Parece-me apenas razoável supor que esse excesso de mão de obra vai acontecer e, se olharmos a história, quando isso ocorre o final não é bom.


Análise Técnica

No post “hedge-fund-26-anos-para-provar”, fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq 100:

“Acima de 31.361, a alta está em curso e não há discussão. Caso contrário, se o preço ficar contido na área demarcada em verde-água, posso considerar uma mini correção, tanto em extensão quanto em tempo; se chegar à área vermelha, eu a nomeio como média correção. Se o preço continuar caindo abaixo do aviso ‘não pode cair’, terei de atualizar minha premissa.”



Vocês não sabem quantas vezes tive vontade de entrar no mercado, mas felizmente me contive. É verdade que meu assistente técnico, o Claude, me ajudou bastante ao associar os riscos e os cenários alternativos. Ele faz a análise considerando muitos fatores ao mesmo tempo, atribui uma probabilidade a cada um e em nenhum momento apontou uma barbada.

O mercado entrou na área que denominei Média Correção e atingiu seu limite. Ontem, acabou se recuperando ao longo do dia. Por enquanto, nada a fazer, pois a onda ii laranja pode ser deslocada para a direita, como mostra o símbolo dessa cor.



Em relação à Nvidia, comentei:

“A Nvidia ultrapassou a máxima histórica, mas por pouco tempo: um verdadeiro ‘false break’. Observando a porção do gráfico destacada com a parábola azul, nota-se uma semelhança com o movimento da Nasdaq 100. Ficam válidas as mesmas observações acima. No gráfico a seguir, aponto os níveis para cada situação.”



A Nvidia acabou recuando da mesma forma que a Nasdaq 100 e ficou muito próxima de eliminar a contagem i – ii laranja, no nível de US$ 208,93. Se isso ocorrer, teremos de deslocar a onda 2 azul para a direita, conforme mostra o símbolo da mesma cor, o que corresponderia a uma queda estimada de 10%.



Mas não são só os preços dos produtos chineses que caem. Os custos da tecnologia estão caindo de cabeça, sem nada que se compare de perto a outros momentos de mudança que afetaram a economia.


[“Technology cost index over time”, do relatório “AI boom or doom: what will superintelligence feel like and when will we get there?” (Deutsche Bank Research, 12/10/2026)]


Para dar a dimensão: a eletricidade levou 80 anos para ficar cerca de 50 vezes mais barata, e as baterias de lítio, mais de três décadas para cair a um centésimo do custo inicial. A inteligência artificial reduziu seu custo mais de cem mil vezes em apenas cinco anos, de 2021 a 2026.

Mesmo assim, a próxima etapa é gigantesca. Pelas estimativas citadas pelo Deutsche Bank, treinar os modelos de ponta de 2026 exigiu entre 1026 e 1027 FLOPs, que é o número total de operações matemáticas que os computadores realizam para “ensinar” um modelo. Uma inteligência artificial geral, capaz de superar o ser humano, exigiria mil vezes mais: 1030 FLOPs. Com toda a infraestrutura americana atual dedicada a isso, o treinamento levaria quase quatro anos. Para fazê-lo em quatro meses com os chips mais avançados da Nvidia, seriam necessários 7,8 milhões de chips, 26 GW de energia e US$ 900 bilhões. A queda de custos ajuda, e em 2030 a mesma tarefa exigiria cerca de US$ 200 bilhões em equipamentos. O gargalo passa a ser físico: conexão à rede elétrica, turbinas e transformadores que levam até três anos para ficar prontos.



O S&P 500 fechou a 7.659, com queda de 1,09%; o USDBRL a R$ 5,0749, com queda de 0,44%; o EURUSD a € 1,1239, com alta de 0,17%; e o ouro a U$ 4.167, sem variação.

Fique ligado!

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