A solução é expurgar o que atrapalha #OURO #GOLD #EURUSD
A vilã de sempre foi a gasolina, com alta de 9,1% no mês e de 34% em doze meses. O óleo combustível subiu 74% desde setembro do ano passado e as passagens aéreas, 22%. Desde que o conflito com o Irã começou, no fim de fevereiro, a energia não dá trégua ao consumidor.
Existe, porém, um diferencial importante entre a inflação cheia e o núcleo, que exclui alimentos e energia. O núcleo subiu 2,6% em doze meses, acima dos 2,5% esperados, e 0,3% no mês, contra 0,2% previstos. Os especialistas dizem que é o núcleo que deve definir a estratégia dos juros. Concordo, o problema é o que ele mostra.
Basta observar o gráfico: desde 2021, nenhuma das duas medidas voltou a tocar os 2%. Setembro marcou o 67º mês seguido acima da meta. E não é um item isolado: mais da metade das categorias do índice sobe acima de 3% ao ano. Devo dar um desconto ao período da pandemia, pela ruptura na cadeia mundial de produção, mas isso já está longínquo e não deveria mais servir de argumento.
John Authers, da Bloomberg, foi além e retirou apenas a energia do índice. O resultado está abaixo do teto de 3% há mais de dois anos, mas nunca alcançou a meta, e acaba de subir. A média aparada do Fed de Cleveland, que elimina os extremos nas duas direções, também anda na direção errada. O índice de preços rígidos do Fed de Atlanta, aqueles que demoram a subir e são difíceis de cortar, voltou a subir. O chamado "supernúcleo", que mede os serviços sem moradia, está de novo acima de 3%. Não é só o petróleo.
Lembro-me de 1977, quando o ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsen, culpou o chuchu pela alta de preços de um determinado mês e pediu à Fundação Getulio Vargas, que calculava a inflação oficial, um "expurgo" da alta exagerada. Ficou conhecida como a "inflação do chuchu". Assim é fácil chegar na meta: basta ir retirando do indicador o que está atrapalhando. Primeiro sai a energia, depois os alimentos, em seguida os extremos. Sobra o quê?
O consumidor americano não tem como expurgar nada do próprio orçamento. Os salários subiram 3% em doze meses, contra 3,7% dos preços, o sexto mês seguido em que a inflação supera os ganhos. Os 25% que ganham menos já perdem para a inflação cheia. Pior: a pesquisa da Universidade de Michigan mostra expectativa de 4,7% para os próximos doze meses e de 3,5% para cinco anos, ambas em alta. É a receita de uma profecia que se cumpre sozinha.
A Gavekal lembra um precedente que merece atenção. No pós-guerra, a inflação americana chegou a 20% em 1947 sem abalar as expectativas, ancoradas num longo histórico de preços baixos. Quando a inflação voltou em 1950, elas se ajustaram rapidamente para um patamar muito mais alto. Um segundo estouro da meta em menos de uma década poderia convencer o mercado de que inflação alta é o novo normal.
A inteligência artificial também entrou nessa conta. Computadores e periféricos subiram 9,7% em doze meses, a maior alta desde 2006, puxados pela construção de centros de dados. E os juros mais altos pouco devem conter essa fonte de pressão, já que as gigantes da tecnologia continuarão investindo enquanto a promessa de lucros futuros for tão sedutora.
O mercado não gostou do que viu. O Nasdaq 100 caiu 2,02%, o pior dia desde julho, e a queda foi mais forte no setor de tecnologia. A onda chegou à Ásia, com o Kospi coreano despencando 7,8% e os fabricantes de chips na linha de frente. A CoreWeave perdeu cerca de 15% num único pregão.
Já o mercado de juros contou outra história. O título de 10 anos saltou para 5,32% logo após o dado, mas os compradores apareceram e a taxa fechou em 5,18%. Hoje a queda se intensifica na abertura, levando os juros de volta à casa dos 5%. A probabilidade de alta dos juros americanos em outubro chegou a 50% e recuou para cerca de 33% ao fim do dia. Os operadores desses mercados estão se falando?
A explicação de Authers é que, com 5,2% ao ano garantidos por dez anos, muitos investidores preferem ir comprando aos poucos, sobretudo quando a bolsa cai. O mercado de títulos passou a ditar o ritmo, e não o contrário. Enquanto as taxas longas não subirem mais, a urgência para o Fed agir diminui, mesmo com o Livro Bege, o relatório das regionais do Fed, registrando muitas reclamações sobre custos.
Daniel Moss, também da Bloomberg, lembra que a economia mundial resiste, mas Kristalina Georgieva, diretora do FMI, comparou o endividamento crescente a uma escadaria, só que não para o céu.
O movimento de ontem e de hoje nos juros pode estar sinalizando uma recessão. O diferencial entre os juros de 10 e de 2 anos recuou para 30 pontos, ainda positivo. Será esse o temor? Que a inteligência artificial derrape mais adiante e os centros de dados virem galpões vazios? É muito cedo para especular, mas o mercado está incomodado e, daqui em diante, vai exigir que as empresas mostrem que a tecnologia está gerando produtividade.
Podemos viver mais um tempo com lucros crescendo e o preço sobre lucro (P/L) caindo. Ed Yardeni ilustra bem esse movimento: manteve a previsão de lucro do S&P 500 para 2027, mas reduziu o múltiplo esperado de 19,8 para 18,6 vezes. O lucro segue de pé; é o preço que se paga por ele que encolhe.
Em algum momento, porém, ou os lucros entregam o que prometem ou os múltiplos se ajustam, porque esse descompasso não se sustenta pela lógica. E inflação teimosa não se resolve com expurgo.
Análise Técnica
No post "Nervos à flor da pele", fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
"o ouro está no limite, ou seja, a onda B azul não deveria cair mais. Caso a primeira hipótese acima prevaleça, uma reação em cinco ondas deveria ocorrer em breve; caso contrário, teria que assumir que a onda (B) vermelha se desloca para a direita, como indica o símbolo no gráfico."
O que fazer? Absolutamente nada! Por outro lado, o cenário de alta na onda C azul me parece mais provável e, se for isso, há uma latinha a ser aproveitada. Por todas essas dúvidas, vou ficar observando sem viés, embora seja muito difícil; logo passa, e a realidade se sobrepõe. O que não faço, ou procuro não fazer, é me posicionar por hipótese. Acompanhem o Mosca.
"a oportunidade da onda B laranja citada acima tem os seguintes parâmetros: estancar entre US$ 1,1087 e US$ 1,0846, num percurso que tem que ser tortuoso, e não direcional. Visualmente, nota-se que o movimento está bem direcional, o que me deixa desconfiado de que uma queda maior pode estar por vir, embora a grande maioria dos analistas espere uma reversão; afinal, não se pode melar o 'debasement trade', que já caiu no esquecimento."
O S&P 500 fechou a 7.744, com alta de 0,33%; o USDBRL a R$ 5,0861, com alta de 1,16%; o EURUSD a € 1,1214, com alta de 0,51%; e o ouro a U$ 4.174, com alta de 1,68%.
Fique ligado!





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