Antrophic: estreia sem torcida #SP500
Vou recorrer ao futebol. Não adianta montar um time de estrelas se, em campo, ele não faz gol. Quando isso acontece, a culpa costuma cair no técnico, raramente nos jogadores. No mercado, o jogo é disputado todos os dias, e fazer gol tem uma definição simples: a ação subir. Ponto.
O primeiro laboratório a sentir essa pressão será a Anthropic, que deve abrir o capital no início de novembro. A partir daí, todas as suas contas estarão expostas ao escrutínio público, assim como suas perspectivas de lucro. O momento ideal teria sido algumas semanas atrás. Hoje o ambiente é cético, e o valor pretendido já recuou 30% antes mesmo de a bola rolar: de US$ 2,0 trilhões para US$ 1,4 trilhão. Ainda assim, é muito dinheiro.
O que pesou? A empresa informou aos investidores receita de US$ 16,8 bilhões no terceiro trimestre, com crescimento trimestral de cerca de 50%, contra 140% no início do ano. Nas redes sociais houve quem decretasse que "acabou". Exagero: a 50% por trimestre, as vendas se multiplicariam por cinco em um ano. O difícil é sustentar o ritmo, porque cada trimestre adicional exige bilhões a mais em receita nova.
Mas será que o mercado está pessimista demais? Os bambambãs, os hedge funds, saíram correndo. Segundo a mesa de corretagem do Goldman Sachs, nos cinco pregões até 15 de outubro eles reduziram posições em tecnologia na maior proporção desde 2016, início da série. A alavancagem líquida desses fundos caiu ao menor nível em um ano, 48,6%.
["Goldman Sachs Prime Desk Trading Flow", do artigo "Hedge Funds Cut Tech at Fastest Pace in a Decade, Goldman Says" (Bloomberg)]
Sabem de alguma coisa? Pode ser, mas no mundo atual é difícil acreditar que só eles saibam. E o movimento não foi isolado: o Nasdaq 100 caiu 5,5% na semana, a pior desde abril de 2025, e o índice de semicondutores emendou oito quedas seguidas, a sequência mais longa desde 2008. O mais provável é que tenham ficado com receio — tanto que, mesmo após a venda, a fatia de tecnologia em suas carteiras segue no percentil 90 dos últimos cinco anos.
Outro artigo da Bloomberg levanta uma questão incômoda: o lucro estaria ficando com as gigantes da nuvem — Microsoft, Alphabet e Amazon — e não com os laboratórios. Estes estão espremidos entre o custo crescente de criar modelos e o preço cada vez menor cobrado pelo uso. As gigantes ganham com qualquer modelo que o cliente escolha, seja o Claude, uma versão antiga do ChatGPT ou um modelo aberto chinês mais barato.
Os modelos abertos já respondem por mais de um terço do uso corporativo de tokens, contra 23% um ano atrás. Para piorar, Microsoft e Meta, duas grandes clientes da Anthropic, reduziram o uso interno do Claude para conter custos.
O relatório da Apollo é ainda mais duro. O gasto corporativo com tokens, que crescia 42% ao mês em julho, praticamente estacionou em agosto e setembro. Para Torsten Slok, a demanda por computação só parece infinita quando é quase de graça; diante do preço, as empresas freiam o uso ou migram para alternativas abertas.
Do lado da oferta, o aperto também aparece. O retorno sobre o capital investido das cinco maiores provedoras de nuvem caiu de quase 40% em 2021 para cerca de 20%, porque o capital aplicado cresce mais rápido do que o lucro que ele gera.
Para completar, surgem soluções para economizar o insumo mais caro da festa. A doubleAI, jovem empresa israelense apoiada pela Nvidia, lançou um modelo que otimiza o uso dos processadores e afirma ter cortado em 67% a conta de computação de um cliente. Para os grandes laboratórios, segundo o fundador, uma economia de apenas 10% já representaria centenas de milhões de dólares. Ótimo para quem paga a conta; nem tanto para quem vive de vendê-la.
O ambiente para estreias tampouco ajuda. A coreana Elice despencou 32% no primeiro dia de negociação, a oferta da australiana Firmus desmoronou e os títulos da CoreWeave passaram a render 15%. Como resumiu uma analista, a era do "compre tudo de IA" deu lugar à do "questione tudo de IA".
Com tudo isso, a Anthropic tem jogadores da mais alta qualidade — os Mbappés, os Vinis Juniores, goleadores como Haaland —, mas ainda não entrou em campo. Em breve saberemos se consegue marcar gols.
Enquanto isso, na prática, o S&P 500 não sentiu o golpe. Quem segura o jogo é a defesa: o P/L. Segundo Ed Yardeni, o lucro projetado do índice subiu 31% no ano, mais do que compensando a contração de 14,2% no múltiplo, e o S&P acumula alta de 12,3%. Em tecnologia, o contraste é ainda maior: lucro projetado 65,5% maior, P/L 25,6% menor e preço 23% acima do início do ano.
Os múltiplos recuaram a níveis considerados baixos para empresas de crescimento. Há quem chame este de o mercado em alta mais odiado em décadas — e, quanto mais gente enxerga bolha, menos provável que ela exista. Se o ataque, os lucros, continuar jogando bem, o mercado tem tudo para seguir subindo.
Análise Técnica
No post "michael-saylor-repassando-conta", fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"Aconteceram as duas coisas: a bolsa ultrapassou a máxima, mas em seguida recuou. Estamos próximos de sugerir uma operação de compra, desde que a bolsa nos dê motivos para entrar. Meu cenário tem 50% de chance de estar certo, e há 35% de chance de ocorrer uma correção a níveis a serem definidos."
Refiz a estrutura de forma consistente com uma correção de menor porte, em que a onda ii laranja poderia recuar mais um pouco. Se isso não acontecer e a bolsa continuar caindo, recuando abaixo de 7.508, terei que deslocar a onda 2 azul mais para a direita, como indica o símbolo azul.
Como estão as probabilidades? Minha nova contagem tem 40%; a recontagem, 35%; e a invalidação, 25% (não comentei como seria e deixo isso para mais adiante, se for preciso). Parece que a defesa está tendo muito trabalho para não levar gols.
O S&P 500 fechou a 7.712, com alta de 0,28%; o USDBRL a R$ 5,0195, com queda de 0,27%; o EURUSD a € 1,1235, com alta de 0,21%; e o ouro a U$ 4.123, com queda de 0,42%.
Fique ligado!





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