Brasil metade em luto #SP500


Até a tarde de domingo, tudo indicava que Flávio Bolsonaro venceria por margem estreita. Na véspera, Datafolha e Quaest davam 51% a 49% para ele, e no primeiro turno ele havia terminado à frente, com 47% contra 45%. Para surpresa de quase todos – talvez nem todos –, Lula conquistou o quarto mandato com 51,8% dos votos válidos. Passada a frustração das primeiras horas, é hora de uma avaliação mais ampla e pragmática.

O país saiu das urnas partido em dois, nada diferente da eleição de 2022. De um lado, 51% – sim, já é maioria – formados majoritariamente por quem vive, direta ou indiretamente, às custas do Estado. Nesse grupo incluo também pessoas esclarecidas que, ingenuamente, não conseguem separar o joio do trigo. Do outro lado, 49% compostos em boa parte por empresários e microempresários que empregam gente dos dois grupos. Essa metade está de luto.

Algo inusitado ocorreu nesta eleição. Aos 45 minutos do segundo tempo, minutos depois do horário previsto para o fechamento das urnas, o ministro Zanin, do STF, determinou a prorrogação da votação por mais duas horas. O resultado foi uma bagunça na ponta: seções já fechadas, outras sem saber se deveriam continuar abertas. O próprio ministro esclareceu depois que a decisão valia apenas para as que ainda estavam funcionando.

Em tese, o efeito seria ínfimo, afinal quem não votou até as 17h deveria ter ficado de fora. Mas os números contam outra história. A abstenção caiu de 21,1% no primeiro turno para 19,2%, algo atípico, já que ela costuma subir no segundo turno. Brancos e nulos recuaram de 4,8% para 3,2%. E a vantagem de cerca de dois milhões de votos de Flávio no primeiro turno virou um déficit de mais de quatro milhões.


[“Large Atypical Decline in the Abstention Rate During the Runoff” – taxa de abstenção, 1º e 2º turnos, 2002–2026. Do artigo “Brazil: President Lula Wins Reelection” (Goldman Sachs)]


O presidente do TSE, Nunes Marques – indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro –, reconheceu que o pedido de última hora afetou a apuração, mas não o resultado. Pode ser. Deixo uma pergunta ao leitor: se era necessário estender o horário, por que deixar para o último minuto? Em 2022, o ministro Moraes rejeitou pedido semelhante. Para mim, tudo isso parece calculado.

Talvez o ponto mais importante seja outro: a sociedade brasileira aceita a corrupção quase sem resistência. Os dois candidatos carregam acusações, e cada lado aponta o dedo para o outro. A diferença é que Lula foi condenado e teve a sentença confirmada em todas as instâncias, sem margem para dúvida, até ver as condenações anuladas por uma manobra jurídica. Contra o outro candidato, por enquanto, há apenas acusações.

E como cada grupo lida com isso? Os 51% não se importam, desde que os benefícios continuem. Os 49% fecham os olhos para derrotar o adversário. Não existe indignação geral.

O que isso muda para meus leitores? Pouco. Há muito tempo sou cético em relação aos ativos brasileiros, que hoje devem sofrer bastante. O fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York caía 26% antes da abertura, e o contrato de câmbio na bolsa de Chicago apontava o real a 5,59 por dólar, uma desvalorização de mais de 10%. A B3 precisou alargar os limites de oscilação do dólar, do índice futuro e dos contratos de juros.

Os 49% ficarão cada vez mais receosos com o futuro e limitarão seus investimentos; os 51% só se preocupam em manter o que recebem. Vocês sabem que dinheiro não leva desaforo. Por enquanto, a situação brasileira está longe de ser crítica, mas o que importa é a derivada – e é nela que o cuidado deve ser redobrado daqui para frente.

Os 51% tendem a crescer. Os 49%, frustrados, ainda se agarram à esperança de uma candidatura de Tarcísio de Freitas. Em São Paulo, ele provavelmente teria maioria. O problema é o resto do país, sobretudo o Nordeste, onde a proporção de três para um a favor de Lula dificilmente será revertida. Nesse quadro, um Congresso com maioria de direita – o PL saiu como maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados – é um pequeno alento. Mas não esqueça: vivemos numa sociedade que aceita a corrupção, e o centrão costuma cobrar caro pelo apoio.

Qual a saída para um déficit crescente? O rombo nominal superou 8% do PIB nos últimos quatro anos, e a dívida bruta deve fechar 2026 em 83,5% do PIB, cerca de dez pontos acima de quando este governo começou. Aumentar impostos dos “ricos” é uma solução temporária, pois esse grupo sabe se defender. A outra é seguir ampliando a dívida – e as promessas de campanha somam algo como R$ 290 bilhões.


[“Public Debt Rose Significantly During the Lula Administration” – dívida bruta do governo geral, % do PIB. Do artigo “Brazil: President Lula Wins Reelection” (Goldman Sachs)]


Acrescente a isso um cenário internacional de juros em alta, que empurra os juros daqui para cima. Uma alternativa heterodoxa seria manipular os juros, o que teria efeito acelerador sobre a depreciação cambial.

Aprendi ao longo da vida que uma dívida em crescimento acelerado vive em equilíbrio instável e, de repente, por qualquer motivo, escala de forma desordenada. Veja a França: antes das manifestações já se encontrava em situação semelhante, e esse evento, aliado à alta dos juros, foi o estopim. Quando a deterioração começa, ela é galopante.

Antevejo que, por tudo isso e pelos pontos que venho comentando em diversos posts, em algum momento os 51% perceberão que o que recebem não basta para o próprio sustento. Pouco a pouco, passarão a pensar no futuro da família e se juntarão ao grupo da mudança. Só que será tarde demais: o grande estrago já estará feito.


Análise Técnica

Eu iria escrever sobre o dólar hoje, mas, com os mercados em limite de baixa na Bovespa e limite de alta no dólar, seria de pouca utilidade; vou deixar para postar mais à frente. Espero que o BC atue no câmbio, e de forma lenta, para não levar boa parte das reservas, o que seria o fim do começo. Melhor deixar acertar no preço.

No post "Anthropic: estreia sem euforia", fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500: "Refiz a estrutura de forma consistente com uma correção de menor porte, em que a onda ii laranja poderia recuar mais um pouco. Se isso não acontecer e a bolsa continuar caindo, recuando abaixo de 7.508, terei que deslocar a onda 2 azul mais para a direita, como indica o símbolo azul." (...) "Como estão as probabilidades? Minha nova contagem tem 40%; a recontagem, 35%; e a invalidação, 25% (não comentei como seria e deixo isso para mais adiante, se for preciso)."



A bolsa se aproximou do limite da contagem em andamento; nessa contagem, a bolsa deveria reagir logo, com um movimento de impulso. Mas há muita dúvida nos próximos dias: decisão do Fed nesta quarta-feira e eleições nos EUA na próxima terça-feira, além dos resultados da Microsoft, Google e Amazon esta semana. Me parece difícil ocorrer antes desses prazos. Sendo assim, se a bolsa ultrapassar o nível aproximado de 7.600, a opção citada acima, de deslocamento da onda 2 azul, ganha força. Vamos acompanhar e, como não poderia deixar de ser, sempre: Let the market speak.



O S&P 500 fechou a 7.676, com alta de 0,70%; o USDBRL a R$ 5,4143, com alta de 8,67%; o EURUSD a € 1,1176, com queda de 0,23%; e o ouro a U$ 4.013, com alta de 0,45%.

Fique ligado!

Comentários