A Carteirinha ficou mais cara #S&P500 - esqueci de postar ontem!
A expressão “só entra
com Carteirinha”, que criei no ano passado, nasceu como uma ironia sobre o
comportamento dos investidores — aquele desejo quase infantil de fazer parte do
grupo certo, de ser aceito pelo mercado como membro do clube das ações queridinhas.
Mas o tempo mostrou que o termo tinha vida própria. A Carteirinha deixou de ser
uma metáfora social e virou um filtro tecnológico. Agora, ela define quem
pertence ao futuro e quem ainda se agarra ao passado.
As empresas que
realmente têm Carteirinha são as que usam Inteligência Artificial de forma
concreta — não apenas em apresentações, mas no funcionamento do negócio. São
aquelas que estão integrando modelos em processos, decisões e produtos; que
aprenderam a transformar informação em vantagem competitiva. É o novo crachá do
capitalismo cognitivo: quem não tem, fica fora da festa.
Um levantamento
recente do Wall Street Journal mostrou que apenas um terço das grandes
companhias americanas já aplica IA em escala real. A maioria ainda está em fase
experimental, testando ferramentas genéricas ou delegando a adoção a áreas de
marketing e tecnologia. Em outras palavras, dois terços do mercado ainda não
têm Carteirinha. Mesmo entre as que afirmam usar IA, menos da metade obtém
ganhos mensuráveis de produtividade — o que separa o discurso da prática. É a
diferença entre ter o crachá e ter acesso à sala.
O mercado entendeu
essa hierarquia melhor do que muitos analistas. Segundo Bobby Molavi, do
Goldman Sachs, quarenta e uma empresas ligadas à IA explicam quase três quartos
de todo o retorno do S&P 500 neste ciclo.
É a comprovação
empírica de que o valor hoje nasce da capacidade de usar a inteligência
artificial como infraestrutura, não como promessa. A IA virou o oxigênio do
sistema; quem não respira por ela, sufoca.
A líder absoluta dessa
revolução é a Nvidia, que em 2014 ainda era lembrada como fabricante de placas
gráficas para games e hoje vale mais de cinco trilhões de dólares. A diferença
é que ela não vende produtos — ela alimenta um ecossistema. Cada empresa que
aplica IA de forma real consome seus chips. A Nvidia é o minerador de dados de
uma nova era, e o mercado inteiro se tornou dependente da sua produção. É por
isso que o preço da Carteirinha subiu: não se trata mais de comprar ações, mas
de comprar acesso à inteligência.
As demais companhias
que fazem parte desse círculo — Microsoft, Amazon, Meta, Google, Oracle e
algumas farmacêuticas — já entenderam que IA não é departamento, é estrutura.
Elas reorganizaram o organograma em torno dos algoritmos, transformando cada
área num pequeno laboratório de aprendizado automático. Enquanto isso, as que
ficaram de fora tentam sobreviver com discursos de eficiência e produtividade,
mas continuam operando com as ferramentas de 1990. São as “sem Carteirinha”:
empresas que ainda falam de inovação em PowerPoint.
O estudo do WSJ revela
também que muitas dessas empresas se escondem atrás de “projetos piloto” que
não saem do PowerPoint. Há um contraste brutal entre o que os executivos dizem
e o que os dados mostram: enquanto 80% declaram “estar investindo em IA”, apenas
15% possuem sistemas integrados aos processos operacionais. O resultado é um
mercado de fachada, onde a Carteirinha virou um símbolo de verdade e não de
marketing.
O capital, como
sempre, migrou para onde há promessa de poder. O investimento diário em IA já
passa de setecentos milhões de dólares, um ritmo que nenhuma revolução anterior
alcançou. A nova corrida do ouro é feita de servidores, data centers e chips.
Só que agora, em vez de picaretas e trilhas de poeira, o mapa é digital. E,
como sempre acontece, quando o ouro é escasso, o ingresso fica caro. Entrar na
Carteirinha exige escala, dados e energia — muito mais energia do que a
retórica ESG gostaria de admitir.
Mas essa seleção
natural também tem efeitos colaterais. O mercado parece saudável, mas sua base
está estreita. O S&P 500 sobe mesmo quando oitenta por cento das ações
caem, carregado por esse punhado de empresas que dominam a narrativa. Molavi
alerta que talvez ainda não seja uma bolha, mas é certamente uma bolha de
expectativa. A economia global está financiando uma infraestrutura de
aprendizado cujo retorno virá — se vier — no tempo da ciência, não da Bolsa.
Mas o mercado não tem paciência para o tempo da ciência. Ele quer resultados
trimestrais, e a IA ainda é um projeto de longo curso. Até lá, o que se
valoriza não é a entrega, mas o pertencimento. E é aí que a Carteirinha ganha
seu verdadeiro peso simbólico: não como comprovação de lucro, mas como selo de
relevância.
A pesquisa mostra
ainda que o investimento em IA cresce, mas de forma desigual. Setores como
finanças, saúde e tecnologia avançam rapidamente, enquanto varejo, indústria e
energia caminham com lentidão. Essa assimetria reforça a nova geografia do
poder corporativo: os setores que dominam dados e modelagem ganham vantagem
estrutural sobre os que ainda dependem de ativos físicos. É a Carta de Alforria
do século XXI — e só quem domina o código tem o direito de usá-la.
Hoje, estar na
Carteirinha é ter direito à sobrevivência. As empresas que a possuem comandam o
capital, atraem talentos e definem políticas públicas. As que não têm, assistem
à festa pela janela. A linha divisória é clara: quem aprendeu a conversar com máquinas
sobe para o andar de cima; quem ainda tenta entender o manual fica preso no
térreo.
A Carteirinha ficou
mais cara porque o mundo ficou mais exigente. A inteligência virou o novo ativo
escasso, e o mercado precifica escassez como luxo. Num futuro próximo, talvez
todas as empresas usem IA de alguma forma. Mas, por enquanto, só algumas falam
sua língua com fluência. E é essa fluência que separa os protagonistas dos
figurantes.
Análise Técnica
No post “para-os-amigos-tudo” fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500: “O S&P 500 fez toda
a lição de casa e ultrapassou a máxima anterior, como eu havia suspeitado.
Segundo essa contagem, o final do movimento deveria estar contido dentro do retângulo
— algo entre 7.000 e 7.200 pontos. Depois disso, uma correção de grau maior —
onda 4 amarela — deveria ocorrer.”
No post acima, “meu amigo” perguntou se não era perigoso estar comprado num momento como esse, onde se aproximam várias ondas 5, como é visível no gráfico abaixo. Veja minha resposta: “É verdade. Na melhor das hipóteses, restaria cerca de +4% de alta. Porém, num mercado de alta (bull market), a contagem pode ser mais dinâmica, impondo uma reclassificação das ondas...”
Temos uma posição em Nasdaq 100 e venho atualizando o stop loss com frequência para evitar estar comprado numa reversão. Vou estudar se aperto um pouco mais até o final da tarde.
Na semana passada, o
S&P 500 parece estar na onda (iv) vermelha, e mantenho o nível de
6.751 como limite para qualquer retração. Vamos
dançando conforme a música.
O S&P 500 fechou a 6.781, com queda de 1,04%; o USDBRL a R$ 5,3937, com alta de 0,69%; o EURUSD a € 1,1484, com queda de 0,30%; e o ouro a U$ 3.961, com queda de 1,00%.
Fique ligado!
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