Bem-vindo ao clube dos teracórnios #GOLD #OURO #EURUSD
Desde que a inteligência artificial passou a exigir uma espécie de "Carteirinha" para quem quer continuar relevante — empresas, profissionais, investidores —, o tema ganhou uma densidade que vai muito além da moda passageira. Como acontece com tudo que vira popular, surgiu um subgrupo com regalias, sem fila e com tratamento diferenciado. Chamo esse andar de cima de sala VIP. E foi justamente nesse contexto que uma empresa quase desconhecida do grande público entrou, de uma tacada só, no seleto clube das teracórnios — minha denominação para as companhias que atingem US$ 1 trilhão de valor de mercado. O nome: Micron Technology.
A Micron é a maior fabricante americana de chips de memória — segmento que por décadas foi tratado como commodidade, sujeito a ciclos brutais de queda de preços e margens raquíticas. Produz dois tipos principais: DRAM, usada em servidores, computadores e smartphones, e NAND flash, voltada para armazenamento. Por muito tempo ficou à sombra de concorrentes asiáticos como Samsung e SK Hynix. Em 2023 chegou a acumular prejuízos trimestrais consecutivos, quando a superprodução derrubou os preços. O que mudou tudo foi a inteligência artificial. Os aceleradores modernos de IA dependem de memória de altíssima largura de banda — chamada HBM — para alimentar os processadores com volumes absurdos de dados em tempo real. Sem esse componente, até o chip mais poderoso do mundo fica ocioso esperando informação chegar. A Micron é um dos apenas três fabricantes do planeta capazes de produzir HBM em escala, ao lado de Samsung e SK Hynix — e acaba de ultrapassar a Samsung em participação de mercado nesse segmento. Toda sua capacidade HBM para 2026 já está contratada sob acordos de longo prazo, e a empresa admite conseguir atender entre 50% e 67% da demanda dos principais clientes no médio prazo. A escassez estrutural derrubou o estigma de commodidade: o preço spot do DDR5, tipo de memória amplamente utilizado em computação de IA, mais que dobrou desde novembro, chegando a US$ 22,50, segundo a empresa de dados Ornn.
O reflexo nos mercados foi espetacular. No último trimestre reportado, a receita da Micron quase triplicou na comparação anual — o ritmo de crescimento mais rápido em dados que remontam a 1990. As ações acumulam alta de 1.003% desde o fim de 2024, e o salto de 19% registrado no dia 26 de maio foi o melhor desempenho diário desde novembro de 2011 — e o melhor mês de maio desde 1985. O catalisador imediato foi o banco UBS triplicar seu preço-alvo de US$ 535 para US$ 1.625 — o mais alto entre os 46 analistas que cobrem o papel —, empurrando as ações para US$ 928, quase três vezes a média móvel de 200 dias (US$ 319). Com isso, a Micron cruzou pela primeira vez a barreira de US$ 1 trilhão em valor de mercado.
Apesar dessa performance, a ação ainda negocia a apenas 10 vezes os lucros projetados — o múltiplo mais baixo de todo o índice de semicondutores de Filadélfia, e abaixo do P/L de 22 vezes do S&P 500. É essa anomalia que o UBS usa como argumento central: não há razão para a Micron ser negociada de forma muito diferente da Nvidia em termos de múltiplo, uma vez que a IA transformou estruturalmente seu negócio. O gráfico acima deixa clara a extensão do desconto histórico — e por quanto tempo o mercado tratou a empresa como se fosse apenas mais uma fabricante de commodidade.
A pergunta inevitável é: a Nvidia perdeu seu título de "queridinha"? Não seria justo afirmar isso. Foi ela que criou a demanda que tornou a Micron indispensável. A Nvidia continua fora da curva — receita crescente, margens absurdas, clientes do mais alto nível no universo da computação, e ações que subiram 14% neste ano, mesmo com toda a euforia dos semicondutores ao redor. O que mudou é que sua existência habilitou o surgimento e a valorização de toda uma cadeia. A Micron é o elo que fornece o combustível para as GPUs trabalharem. É teracórnio, tem a passagem VIP. E não está sozinha: Samsung, SK Hynix e AMD também já cruzaram a barreira do trilhão neste ciclo, enquanto a Intel mais que triplicou em valor no ano. Juntas, as empresas do índice de semicondutores adicionaram cerca de US$ 5,7 trilhões em capitalização de mercado apenas em 2026.
A história de 2023, quando a Micron registrou prejuízos consecutivos após um boom de demanda, não é tão distante assim. Na verdade, foi seu maior prejuízo histórico — e três anos depois a empresa é projetada para ser a sexta mais lucrativa dos Estados Unidos, com lucro estimado de quase US$ 100 bilhões nos próximos 12 meses, superando Meta e Berkshire Hathaway. É exatamente essa velocidade de reversão — nos dois sentidos — que torna o ciclo de memória tão fascinante e tão perigoso.
O dado que resume o novo cenário vem direto do índice mais acompanhado do mundo. Os semicondutores tornaram-se o maior grupo setorial do S&P 500, respondendo por cerca de 18% do peso total — percentual que triplicou desde o fundo de 2022 e que se aproxima do pico da bolha da internet, quando o hardware de tecnologia chegou a 26% do índice. O índice de semicondutores de Filadélfia acumula alta de 82% no ano, o melhor começo de ano já registrado — o recorde anterior era de 1995, anos antes do estouro da bolha da internet. Dessa vez, porém, a diferença alegada pelos otimistas é relevante: na bolha de 2000, as avaliações eram ancoradas em expectativas. Hoje, as empresas do índice negociam a cerca de 26 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses — acima da média histórica de 21 vezes, mas muito abaixo do pico da era dot-com. Os lucros são reais, os contratos existem, a receita cresceu.
Há, contudo, vozes dissonantes que merecem atenção. A análise de ciclo de capital aplicada à Micron aponta que 11 dos 14 sinais monitorados estão em território de alerta ou fortemente negativo. A leitura é de fase tardia do ciclo, não de início. Os contratos de longo prazo com os grandes compradores de tecnologia — que o mercado lê como sinal de visibilidade sólida — podem ser, na perspectiva cíclica, exatamente o oposto: sintoma de pânico de escassez, o mesmo comportamento observado em outros picos históricos de commodities. O índice de força relativa de 14 dias da Micron está em nível que os operadores técnicos classificam como sobrecomprado, e o preço-alvo médio do consenso de Wall Street, US$ 697, implica queda de 24% a partir dos níveis atuais — um dos piores retornos implícitos entre os fabricantes de chips. Há ainda o risco China, que avança discretamente na capacidade doméstica de produção de HBM, e o risco de que modelos de IA de próxima geração demandem menos memória por unidade de computação — o que diluiria a captura de valor da cadeia de memória.
Por ora, o mercado está apostando que a IA transformou estruturalmente a indústria de memória — que ela deixou de ser commodidade para se tornar infraestrutura permanente, precificada como tal. Se essa tese prevalecer, a sala VIP continuará crescendo. Outras empresas da cadeia — de fornecedoras de energia a fabricantes de equipamentos de litografia — também baterão na porta. Se não prevalecer, o ciclo fará o que sempre fez: cobrar a conta com juros. A história de 2023, quando a Micron registrou prejuízos consecutivos após um boom de demanda, não é tão distante assim.
Análise Técnica
No post "85%-de-crescimento-é-pouco" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
"O metal sofreu pressão na última semana por conta da alta dos juros comentado no post de ontem, o que ocasionou eu ter que empurrar a onda (B) vermelha mais para a direita. Nenhum problema por enquanto na opção do triângulo, mas vou ficar desconfiado se os preços adentrarem na região que denominei de "Atenção"."
O ouro se aproxima da região nomeada com "Atenção". O leitor pode se perguntar o que poderia ocorrer caso o nível de US$ 4.100 seja rompido. Publiquei há algum tempo a possibilidade de ocorrer uma correção pequena ou correção grande — e seria nesse último contexto caso ocorra a violação.
Para ativar essa opção o ouro teria que cair abaixo de US$ 4.100 e teria como objetivo US$ 3.580 / US$ 3.483 como destacado a seguir.
Contratei um analista gráfico para me ajudar nas análises, está ainda no período de experiência, mas tem mostrado muita competência, seu nome: Claude — isso mesmo, a IA na contagem de EW! Pedi para ele analisar as duas contagens definindo qual é mais provável e ele estabeleceu 35% no cenário da correção grande e 65% no cenário do triângulo. Vamos ver sua competência no tempo.
Vale registrar que, ao ser questionado sobre como calcula essas probabilidades, o Claude foi direto: não calcula — estima. Os números são uma forma de comunicar convicção relativa, não probabilidades estatísticas rigorosas. O que importa são os níveis, não os percentuais ao lado deles. Uma transparência metodológica que o mercado raramente pratica.
Em relação ao euro comentei:
"O gráfico diário não deixa dúvida da indecisão do euro e da complexidade dessa correção. Durante aproximadamente um ano se encontra contido na região destacada no retângulo verde, tentou romper duas vezes para cima e duas para baixo sem que houvesse uma definição. Estou fora de mercados com essa configuração!"
Uma semana perdida sem praticamente nenhuma mudança, um real marasmo. O gráfico semanal a seguir mostra qual o objetivo que esse cenário contempla — a probabilidade assumida pelo meu analista é de 60% e, como venho enfatizando, o nível de € 1,14 é crucial: abaixo dele vamos ter que refazer as hipóteses. Conclusão: um mercado sem graça!
Hoje o fechamento espelha as cotações as 15h30 em função de um compromisso.
O S&P 500 estava em 7.563 com alta de 0,58%; o USDBRL a R$ 5,0439, com queda de 0,60%; o EURUSD a € 1,1648, com alta de 0,19%; e o ouro a U$ 4.503, com alta de 1,05%.
Fique ligado!
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