Quatro mil quadrilhões de tokens: otimismo ou delírio? #SP500
Hoje apresentei na FEA-USP, no curso de Mercado de Capitais da pós-graduação, a convite do professor Savoia, que conheço de longa data. O tema que escolhi este ano foi o que considero a discussão mais importante que o mercado está tendo agora: os trilhões de dólares que estão sendo investidos em infraestrutura de inteligência artificial vão se pagar? Não entreguei uma resposta de sim ou não — meu objetivo foi oferecer método, não convicção. Os slides completos da apresentação vão anexados para quem quiser conferir cada dado na fonte original. FEA - Apresentação 2026 - A IA vai se pagar?
Comecei a preparar a aula com um número que circulou nas redes esta semana e que resume bem o tamanho do que está em jogo. Um relatório da Evercore ISI, no cenário-base, projeta que o consumo anual de tokens de IA chegue a 4.000 quadrilhões até 2030 — mais de vinte vezes o que o mundo inteiro vai consumir neste ano. E essa conta nem inclui a chamada IA física, robótica, carros autônomos. Quem viu o número circulando no X levou um susto e chamou de "loucura" qualquer um que esteja "chamando o topo" das ações de infraestrutura de IA agora. Talvez tenha razão. Mas números assim também são exatamente o tipo de extrapolação que, historicamente, precede tanto os maiores ganhos quanto os piores estouros.
Para dar escala ao que já está sendo gasto, sem depender de projeção nenhuma: 2025 fechou com cerca de 410 bilhões de dólares investidos em infraestrutura de IA pelas quatro maiores hyperscalers americanas. A projeção para 2026, já revisada, subiu para 748 bilhões — um salto de 82% em um único ano. Somando cômputo, data centers e energia, uma estimativa agregada do setor chega a 7,6 trilhões de dólares entre 2026 e 2031. Isso já representa cerca de 5% do PIB americano — mais que o pico da fibra óptica em 2000 (1,2%) e mais que o pico histórico da eletrificação do país (1,7%). Não é apenas o maior ciclo de investimento em infraestrutura da história recente. É o maior por uma margem considerável.
E aqui entra o segundo gráfico que quero comentar, porque ele muda o tom da conversa. As hyperscalers hoje gastam entre 45% e 57% da receita em capex — proporção que historicamente só se via em setores como utilities e telecomunicações, nunca em empresas de tecnologia com margem de software. O fluxo de caixa livre de Alphabet, Amazon e Meta, que era excepcionalmente positivo há poucos trimestres, virou negativo ao mesmo tempo neste ano. O resultado é que a emissão de dívida por hyperscalers e Nvidia combinadas, como percentual da emissão total de títulos do Tesouro americano, saltou de patamares na casa de 10% até 2023 para algo perto de 70% agora — um salto sem precedente na série histórica desde 2015. Morgan Stanley e J.P. Morgan estimam que o setor de tecnologia vai precisar emitir cerca de 1,5 trilhão de dólares em nova dívida nos próximos três anos só para sustentar essa construção.
"Hyperscaler debt issuance Hyperscalers +Nvidia as a percent of Treasury bond issuance", JPMorgan/Bloomberg, imagem "divida_hyperscalers.png"]
Um cálculo que considero central no debate, de Peter Berezin, estrategista-chefe da BCA Research, ataca o problema pelo lado oposto do que normalmente se vê: em vez de estimar quanto a IA vai faturar, ele parte do próprio capex para calcular quanto seria preciso faturar para justificá-lo. Se as hyperscalers estabilizarem o investimento em 1 trilhão de dólares por ano — patamar já projetado para 2027 — e entregarem o retorno sobre capital que dizem perseguir, a receita anual necessária fica entre 4,3 e 7,2 trilhões de dólares, dependendo da margem que praticarem. Somando SpaceX, neoclouds e laboratórios chineses, a meta implícita sobe para 10 trilhões de dólares por ano. Para dar a escala do desafio: os US$ 175 bilhões de receita real da economia de IA hoje são, majoritariamente, faturamento da camada de laboratórios e aplicativos — quem vende acesso ao modelo ao usuário final —, não das hyperscalers, que são quem faz o capex que essa conta tenta justificar. A fatia de receita que sustenta especificamente a infraestrutura é uma parcela desse total já pequeno — o que torna a distância até os trilhões necessários ainda maior do que os 175 bilhões, sozinhos, já sugerem.
Slide 40, "Quanto a IA precisa faturar para justificar o capex", cascata Capex → Receita necessária, fonte Peter Berezin/BCA Research]
Refiz essa conta trocando algumas das premissas de Berezin — o retorno sobre capital que ele assume, a vida útil da GPU — e cada ajuste move o resultado de forma relevante, às vezes em direções opostas. Não é uma previsão fechada, é um exercício de sensibilidade. O número exato de trilhões importa menos do que o padrão que se repete em toda versão: o preço do token precisaria ficar bem acima de onde está hoje — e a trajetória, como mostro a seguir, é de queda, não de alta.
O que me interessa não é decretar bolha. É separar o que é fato verificável do que é aposta. É fato que Michael Burry aponta distorção contábil na forma como as hyperscalers depreciam suas GPUs, esticando artificialmente a vida útil dos ativos para inflar o lucro reportado. Mas também é fato que essa depreciação é uma despesa que não passa pelo caixa, e que o fluxo de caixa operacional da Alphabet, por exemplo, foi de 165 bilhões de dólares em 2025, independentemente de como a empresa agenda a depreciação de um servidor. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é exatamente por isso que a resposta não cabe num sim ou num não.
O que também é fato, e que trato como sinal de alerta genuíno, é o financiamento circular: uma estimativa de mais de 800 bilhões de dólares em acordos onde o fabricante de chips financia o laboratório de IA, que usa esse dinheiro para comprar chips do próprio fabricante, inflando a demanda aparente em toda a cadeia. O paralelo com 2008 incomoda — não porque o mecanismo seja idêntico ao das hipotecas securitizadas, mas porque o padrão psicológico se repete: a convicção de que espalhar o risco elimina o risco, quando na prática só o torna mais difícil de enxergar.
Fechei a aula de hoje com um alerta sobre os próprios números que acabei de apresentar: de tanto lidar com valores na casa dos trilhões, os volumes são tão grandes que no final qualquer um vai achar 10 ou 20 bilhões de dólares pouco dinheiro. E fecho também com uma nota pessoal, que vale para quem lê o Mosca: há dois anos, na primeira vez que estive na FEA falando desse tema, poucos enxergavam a Nvidia como a aposta central da corrida de IA. Registrei ali um objetivo entre 250 e 320 dólares para a ação até 2026, já ajustado pelo desdobramento. Ela está hoje em 231 dólares. Acertou na mosca — mas o alvo de ontem não é garantia de acerto amanhã. A pergunta certa nunca é "a IA vale a pena". É: este capex específico, alocado deste jeito, com esta estrutura de financiamento, vai se pagar?
Análise Técnica
No post "a-frenesi-dos-bonds" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"O mercado não abriu até o momento em que estou escrevendo, mas é possível que ultrapasse o nível indicado de 7.638. Nesta situação, terei que reclassificar as ondas conforme mostrado no gráfico abaixo.
Destaquei, com o retângulo rosa, os níveis mais prováveis, e acredito que estejam ao redor de 7.500; muito abaixo disso, terei que considerar a opção descrita no post anterior."
Vou trabalhar de forma tentativa com um triângulo, como mostram as linhas vermelhas abaixo, e, se isso ocorrer, a onda 2 azul vai terminar mais abaixo — ou alguma outra coisa pode acontecer.
Tenho que confessar que me empolguei com a pujança da alta daquele dia, sem contudo ficar agora na torcida, caso não tivesse estabelecido o stop loss adequado. Vamos esperar um outro momento para entrar.
Já assumi que errei acima, mas não arrisquei nem temi a minha ideia — usei os princípios de Elliott Wave para saber quando minha entrada prematura se concretizaria e quando ela falharia. Em todo caso, o prejuízo foi mais emocional — frustração pela ideia que não deu certo — do que financeiro, e seria muito pior o contrário.
O S&P 500 fechou a 7.673, com queda de 0,58%; o USDBRL a R$ 5,0863, com queda de 0,79%; o EURUSD a € 1,1623, sem variação; e o ouro a U$ 4.358, com queda de 1,09%.
Fique ligado!
Com certeza foi uma aula muito interessante! Parabéns
ResponderExcluiracredito que a audiência gostou embora foi longa ( 2 1/2 horas). Obrigado!
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