Em busca do Clone #S&P500
Sempre que uma ação provoca um estrondo, com suas cotações
subindo de forma astronômica, deixa alguns investidores que ficaram fora da
festa em busca de novas estrelas. A Nvidia representa o caso mais recente desse
fenômeno. Parece que a China se tornou o local onde essa busca está em curso,
como comenta o artigo da Bloomberg sobre a alta acentuada das ações chinesas
impulsionada pela inteligência artificial, que não se assemelha à subida
insustentável de 2015. Depois do ocorrido, estava evidente que só poderia subir
dessa forma, mas retrospectivamente é fácil opinar sem risco – isso ocorre
muito raramente, e ninguém pode ter ideia qual será a nova Nvidia, se é que vai
existir. Vai, vai, mas pode demorar muito tempo.
Por que os investidores escolheram a China na busca por uma nova estrela? Como destaca o relatório da Gavekal Research, intitulado "A Negociação Anti-Involução", quem está preocupado com o mercado imobiliário, que continua em queda, deveria observar o mercado industrial. As forças deflacionárias ainda permanecem enraizadas, colocando em risco uma "japonização" da economia chinesa. O embargo dos Estados Unidos em 2018 sobre exportações de semicondutores alterou o rumo econômico da China nos últimos sete anos, forçando o país a priorizar a autossuficiência industrial como questão de segurança nacional. Bancos chineses foram orientados a redirecionar empréstimos do setor imobiliário e de consumo para a expansão da capacidade industrial, resultando em avanços em indústrias como automóveis, baterias e geração de energia, mas também em deflação prolongada e excesso de capacidade.
No final, o que irá prevalecer: a velha economia, com inúmeros problemas afetando o crescimento e a saúde financeira, ou a nova economia, com investimentos na área industrial? A Gavekal sugere que a campanha "anti-involução" – termo que critica a competição excessiva e desordenada – pode marcar um ponto de virada. Planejadores chineses estão desconfortáveis com essa "competição cega", e agora visam não só empresas, mas governos locais. Três cenários são possíveis: o governo fala mas não age, para evitar riscos ao produto interno bruto; tenta, mas o capitalismo chinês resiste; ou cumpre promessas, como costuma fazer, reduzindo capacidade excessiva e promovendo reflação global.
Se o terceiro cenário se concretizar, isso impactaria ativos globais. Com o dólar americano tendendo à baixa devido a déficits recordes em conta corrente, e a China controlando excesso de capacidade, o mundo seria altamente reflacionário. Margens de produtores industriais nos Estados Unidos, Europa, Japão, Coreia e até China poderiam surpreender positivamente. Interessantemente, após anos de consolidação, industriais globais estão apresentando desempenho superior ao índice mundial MSCI em 2025.
Misturando isso à alta acentuada das ações chinesas, o artigo da Bloomberg "A Alta Acentuada das Ações Chinesas Não É uma Repetição de 2015" argumenta que a subida atual é catalisada pela inteligência artificial, não por cortes de juros como em 2015. O índice CSI 300 subiu 9% em agosto, e o índice ChiNext, 18%, superando o S&P 500. Apesar da deflação de produtores por quase três anos, o governo discute acabar com guerras de preços que erodem lucros. Operações com margem estão em alta de década, mas o foco está em infraestrutura de inteligência artificial: empresas como DeepSeek lançaram atualizações em modelos de linguagem, adaptados a chips nacionais, enquanto a Nvidia pausou produção do H20 por ordens de Pequim.
Uma narrativa "China compra China" ganha força. Empresas como Cambricon Technologies e Hygon Information Technology, compatíveis com DeepSeek, viram ações disparar – Hygon subiu 51% no mês, com receita crescendo 41%. Entre 65 empresas de tecnologia no índice CSI 300, 28 reportaram resultados do segundo trimestre com crescimento médio de vendas de 11,4% e lucros de 15,5%, o melhor em um ano. Isso contrasta com a economia mais ampla, que desacelerou em julho, como relata "A Economia da China Desacelera Abruptamente como Mordida da Guerra Comercial": produção industrial cresceu só 5,7% (contra 6,8% em junho), varejo 3,7% (menor do ano), e investimentos fixos 1,6% nos primeiros sete meses, com desemprego urbano em 5,2%.
A guerra comercial de Trump morde, com tarifas e repressão a preços destrutivos lançando sombras. Homin Lee, da Lombard Odier, vê isso como "desaceleração relacionada a tarifas", demandando ajustes fiscais. No entanto, a subida em empresas de tecnologia sugere que investidores buscam a "próxima Nvidia" na infraestrutura de inteligência artificial chinesa, onde avaliações como 66 vezes vendas da Cambricon parecem elevadas, mas justificáveis em estágio inicial – Goldman Sachs avalia a empresa em 9 vezes vendas de 2030.
Vejo nisso uma oportunidade audaciosa: a transição chinesa para autossuficiência em inteligência artificial e indústrias chave pode redefinir equilíbrios globais, mas com riscos de deflação persistente. Em minha carreira no mercado financeiro, lidando com ciclos de commodities e bolhas tecnológicas, aprendi que clones raramente replicam o original sem adaptações locais – a China, com sua campanha anti-involução, pode surpreender ao equilibrar excesso e inovação. No entanto, a desaceleração recente alerta para cautela: se Pequim falhar em estimular demanda, a subida pode evaporar como em 2015. Ainda assim, apostar em industriais globais, especialmente se o dólar enfraquecer, parece uma jogada sofisticada para quem busca além do óbvio.
A interseção entre inteligência artificial, guerras comerciais e políticas anti-deflacionárias sugere que a busca pelo clone da Nvidia na China não é mera especulação, mas uma resposta estratégica a embargos. Se a Gavekal estiver certa, e a campanha anti-involução entregar, margens industriais globais poderiam inflar, beneficiando portfólios diversificados. Por outro lado, a fraqueza econômica de julho, com varejo e investimentos em baixa, reforça que a velha economia ainda pesa. Arrisco dizer: invista na nova economia chinesa, mas com proteções contra uma japonização prolongada – o equilíbrio entre audácia e prudência define os vencedores nesse jogo.
Análise
Técnica
No post “Contenha o Medo”, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500: “Com o texto de hoje, o leitor pode achar que eu me tornei imprudente ao entrar no mercado no pico e descartar minha contagem mais conservadora. Podem ficar tranquilos, pois não foi o caso, embora eu tenha assumido riscos, e essa entrada contempla o cenário mais audacioso”.
A onda 4 azul parece ter seguido o padrão de correção plana em execução, no qual a onda c laranja é mais curta. Essas configurações surgem quando o mercado demonstra um ímpeto ascendente acelerado, revelando uma urgência em avançar. Ontem, o índice aproximou-se da máxima histórica, recuando ligeiramente no fechamento, o que sugere uma pausa momentânea antes de uma possível retomada. Se esse padrão se confirmar, o S&P 500 deve retomar a trajetória de alta e superar o nível de 6.480 com convicção. Acompanhemos os próximos dias com atenção; o objetivo projetado está destacado no retângulo entre 6.990 (+8,5%) e 7.130 (+10,5%), representando um potencial de valorização significativo. Por ora, mantemos o curso estratégico, equilibrando otimismo com vigilância.
O S&P 500 fechou a 6.465, com alta de 0,41%; o USDBRL a R$ 5,4319, com alta de 0,36%; o EURUSD a € 1,1635, com alta de 0,15%; e o ouro a U$ 3.389, com alta de 0,72%.
Fique ligado!
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