A matemática da euforia #S&P 500
Toda grande onda
tecnológica carrega consigo uma característica invariável: os números
projetados pelos protagonistas desafiam qualquer parâmetro histórico. Não é
arrogância — é a natureza da narrativa. Para levantar capital, atrair talentos
e intimidar concorrentes, as empresas precisam vender um futuro grandioso. O
problema é quando os investidores confundem a grandiosidade da narrativa com a
probabilidade do sucesso.
A inteligência artificial generativa é o epicentro dessa dinâmica hoje. Desde que a OpenAI lançou o ChatGPT no final de 2022, o setor entrou em modo de corrida armamentista. Bilhões são investidos em infraestrutura, chips e centros de dados. As projeções de crescimento que emergem desse ambiente são, para dizer o mínimo, ambiciosas.
A OpenAI, em meados de 2025, projetou receitas de 145 bilhões de dólares para 2029. Sua receita em 2024 foi de 3,7 bilhões de dólares. Isso implica uma taxa de crescimento composto anual de 108% por cinco anos consecutivos.
Um estudo recente da Morgan Stanley, de autoria de Mauboussin e Callahan, fez exatamente essa pergunta com rigor estatístico. Os pesquisadores levantaram dados de quase 19 mil observações de empresas americanas com receitas entre 2 e 5 bilhões de dólares ao longo de 75 anos — de 1950 a 2024. O resultado é devastador: nenhuma empresa nesse universo jamais cresceu à taxa que a OpenAI projeta por cinco anos seguidos. Literalmente nenhuma.
A Oracle não fica atrás. Sua divisão de computação em nuvem projetou crescer de 10 bilhões de dólares em 2025 para 166 bilhões em 2030 — uma taxa composta de 75% ao ano. O mesmo exercício histórico revela que nenhuma empresa com receita inicial acima de 5,6 bilhões de dólares jamais alcançou esse ritmo de crescimento por cinco anos nos últimos 75 anos.
É importante ressaltar o que esses dados não dizem. Não dizem que a OpenAI e a Oracle vão fracassar. Não dizem que a inteligência artificial não vai transformar a economia global. O que dizem é que as projeções apresentadas estão muito além de qualquer precedente histórico, e que investidores que as incorporam como cenário base estão pagando por uma probabilidade que a história classifica como próxima de zero.
Há argumentos para ajustar essa probabilidade para cima. A adoção do ChatGPT foi a mais rápida da história: 100 milhões de usuários em apenas 2 meses, contra 9 meses do TikTok, 28 meses do Instagram e 4,5 anos do Facebook. E a receita de 2025 da OpenAI, de aproximadamente 13 bilhões de dólares, já representa crescimento de 250% sobre 2024 — bem acima da taxa composta implícita na projeção. Esses são dados concretos que justificam algum otimismo.
Mas existe uma segunda camada de risco que o estudo explora com igual precisão: a execução dos megaprojetos de infraestrutura necessários para sustentar esse crescimento.
O pesquisador Bent Flyvbjerg compilou um banco de dados com 16 mil grandes projetos em 136 países ao longo de décadas — desde o Túnel do Canal da Mancha até o Big Dig de Boston. Os resultados são sóbrios. Menos de 48% dos projetos são concluídos dentro do orçamento. Menos de 9% são entregues no prazo e dentro do orçamento. E apenas 0,5% — metade de 1% — cumprem simultaneamente orçamento, prazo e entregam os benefícios prometidos.
Há ainda uma dimensão estratégica nessa corrida de anúncios que merece atenção. Michael Porter, o maior teórico de estratégia competitiva da era moderna, descreveu o que chamou de 'estratégia de antecipação (ou preventiva)': uma empresa anuncia investimentos vultuosos em capacidade, não necessariamente porque acredita que vai concretizá-los, mas para sinalizar ao mercado e aos concorrentes que o espaço está ocupado. O objetivo é desestimular a entrada de novos concorrentes e induzir cautela nas empresas já estabelecidas.
Essa leitura explica muito do que se vê hoje. Parte dos anúncios grandiosos do setor de inteligência artificial pode ser tão estratégica quanto sincera — e os investidores que tomam cada número ao pé da letra estão cumprindo exatamente o papel que a estratégia preemptiva espera deles.
A conclusão não é pessimista. A inteligência artificial é uma tecnologia transformadora, e algumas das empresas que hoje lideram a corrida vão, de fato, gerar riqueza extraordinária. Mas a história de outras ondas tecnológicas — da ferrovia ao cabo submarino, das telecomunicações à internet — mostra sempre o mesmo padrão: a tecnologia transforma o mundo, mas a maioria dos investidores da fase de euforia perde dinheiro. O que distingue os que ganham não é a capacidade de identificar a tecnologia vencedora — é a disciplina de pagar o preço certo por ela.
A matemática da euforia é sedutora. A matemática da história é implacável.
Análise Técnica
No post “procurando-porta-de-saída” fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
O gráfico abaixo ficou um pouco carregado, mas vou explicar. A alta poderia encerrar em qualquer dos níveis indicados pelo colchete vermelho — 7.246 ou, mais provavelmente, 7.373. Concluída essa fase, uma correção deveria se suceder, levando o índice ao intervalo indicado no retângulo avermelhado, entre 6.934 e 6.694, para só então retomar a alta.
Nas sugestões em andamento, estamos com risco dobrado nas bolsas — e, dado esse cenário, estou com o dedo no gatilho.
Se você não está confortável, saia da bolsa e aguarde um momento mais claro — e não se esqueça de que isso pode ocorrer em nível mais elevado. Paciência tem preço. Você pode perguntar por que não faço o mesmo. Primeiro, porque é muito mais fácil para mim apertar o gatilho e, nesse caso, você só saberia, na melhor das hipóteses, ao final do dia. Além disso, como essa contagem é de curto prazo, pode estar equivocada: a onda (5) vermelha pode ter se completado onde está a onda (3) vermelha, e estaríamos na parte mais potente da alta.
Amanhã haverá anúncio de resultados de grande relevância ao final do dia: Microsoft, Amazon, Google e Meta — e isso pode movimentar o mercado em qualquer direção.
Além disso, haverá a decisão do Fed — que provavelmente manterá os juros inalterados — e pode ser anunciado também se Powell continuará no colegiado até 2028, ainda que não mais como presidente, tendo em vista que Trump retirou a ação contra ele.
Lembro das nossas
caminhadas. Eu era sempre o primeiro contato do dia. E, mesmo ansiosa pela
comida, nunca nos acordou quando atrasávamos. Sabia esperar. Sempre soube.
Mas,
dessa vez, foi rápido demais. Em poucos dias, o brilho no olhar foi embora. E
quando um Golden perde o apetite, a gente sabe que algo mudou de verdade.
Fique ligado!
Minhas condolências pela perda.
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