O mercado não deixa dinheiro na mesa #USDBRL
Certa vez, tive a oportunidade de visitar a mesa de operações da Merrill Lynch, quando a instituição ainda existia. De uma janela em andar superior, a cena era impactante: aproximadamente 500 operadores, cada um diante de seus terminais e telefones, formavam uma multidão densa e disciplinada. A pessoa que me acompanhava fez questão de enfatizar a dimensão da estrutura. Naquele momento, pensei: é quase impossível que uma ineficiência persista por muito tempo diante de tanto capital humano e tecnológico concentrado num único espaço.
A partir daí, sempre fui cético quando alguém me apresentava uma ação que "o mercado não estava enxergando". Como assim, o mercado não via? Além daquela mesa, havia centenas de estruturas similares ao redor do mundo, repletas de analistas dedicados exclusivamente a isso. O argumento da oportunidade ignorada raramente se sustenta. Agora, se a premissa sobre o futuro da empresa for sólida e bem fundamentada, aí sim a conversa muda de patamar — não porque o mercado errou, mas porque alguém chegou a uma conclusão diferente sobre o que ainda está por vir.
Essa reflexão ganha relevância especial quando se observa o cenário atual. Um relatório recente da Yardeni Research aponta que, mesmo após a forte recuperação das bolsas americanas, as ações ficaram mais baratas do que estavam no final de 2024. O Preço/Lucro projetado do S&P 500 recuou para 20,9 — significativamente abaixo do pico de 23,0 registrado ao término de 2025. As empresas de menor capitalização apresentam múltiplos ainda mais comprimidos: o índice de médias empresas opera em torno de 16,3 e o de pequenas empresas, em 15,9. Esses números, isolados, parecem atraentes — mas voltamos à pergunta inicial: por qual razão estão assim?
A resposta, neste caso, é construtiva. Os lucros projetados do S&P 500 atingiram um novo recorde histórico, superando US$ 346 por ação. As estimativas de consenso para 2026 e 2027 seguem em trajetória ascendente, e as empresas que já divulgaram seus resultados do primeiro trimestre de 2026 entregaram crescimento de lucros na casa de 18,5% — muito acima das expectativas iniciais. Ou seja: as ações ficaram mais baratas não por deterioração dos fundamentos, mas porque os preços subiram menos do que os lucros cresceram. Esse é o tipo de barateamento que qualquer investidor racional deveria celebrar.
Tenho uma preferência declarada por esse raciocínio. Quando uma ação apresenta momento favorável, isso significa que mais investidores estão convergindo para a mesma tese — seja ela baseada em valor, em qualidade ou em perspectivas futuras. O preço se move porque há convicção crescente. Já a ideia de garimpar sozinho uma empresa que "só eu enxerguei" me parece uma aposta de humildade excessiva frente à eficiência do mercado. Não é impossível que alguém chegue antes — mas as chances são muito menores do que parecem à primeira vista.
A Research Affiliates vai além e propõe que valor, qualidade e momento não devem ser usados de forma isolada, nem simplesmente empilhados. Devem ser integrados. A diferença é relevante: um portfólio que combina três estratégias separadas pode acabar carregando empresas caras dentro da carteira de "qualidade" ou empresas frágeis dentro da carteira de "valor". A integração, ao contrário, seleciona apenas as empresas que são simultaneamente atraentes nas três dimensões. O resultado, comprovado por simulações de décadas, é uma carteira mais robusta, com quedas menores nos períodos de estresse e retornos superiores ao longo do tempo.
Análise Técnica
No post "o-mercado-continua-errado", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"Nesta semana, não aconteceu nada de significativo para alterar minha análise. Daqui em diante, ou a queda rompe o nível de stop loss indicado em R$ 4,6983, ou, "de repente", a alta ganha pulso, retirando todo o pessoal que está vendido no dólar. Nesta situação, resta apenas observar qual desses cenários irá prevalecer."
Se o dólar continuar recuando, esses clientes farão as contas em reais daqui a algum tempo e poderão se arrepender: perdem no câmbio e abrem mão dos juros domésticos. Dito isso, diversificação é um processo de aprendizado contínuo. Minha sugestão é que cada investidor escolha uma moeda de referência para medir seu patrimônio — e o dólar, nesse contexto, seria a escolha mais adequada. Com esse critério, a parcela mantida em reais terá se valorizado de forma expressiva ao longo do tempo.
Voltando à parte técnica: o que mais poderia ser acrescentado ao que já foi dito? Nada.
O S&P 500 fechou a 7.200, com queda de 0,41%; o USDBRL a R$ 4,9880, sem variação; o EURUSD a € 1,1689, com queda de 0,27%; e o ouro a U$ 4.512, com queda de 2,23%.
Fique ligado!
O que adianta os lucros subirem e imediatamente os preços ajustarem e P/E futuro continuar elevado? Quando essa roda parar de girar, esses P/Es futuros se mostraram extremamente levados (mais do que são atualmente). Veja o caso da PLTR hoje. Teve um bom resultado, mas do que adianta se ainda é um resultado minúsculo com um P/E (futuro e presente) extremamente esticado? Hoje essas big techs estão fazendo dividas enormes e o que acontecerá se os juros subirem e as receitas com IA não chegarem? A cada dia que passa, eu vejo menos motivos para comprar, apesar dos lucros crescentes, com valores minúsculos.
ResponderExcluirvou postar um gráfico no post de hoje dê uma olhada, vou te citar
Excluir*mostrarão
ResponderExcluiro seu exemplo é especifico a uma companhia e em especial a PLTR é absurdamente elevada, agora, o post menciona o P/L dos indicies e neles esse indicador é menor do que era, sendo assim, os lucros correram mais rápido que o que vinha se projetando, isso é um fato! Se vão se concretizar ou não é outra história.
ResponderExcluir