Só mais um pouquinho! #ouro #gold


 Acredito que todos já foram ao dentista para fazer um procedimento cirúrgico. Antes de ir, já nos preparamos para momentos desagradáveis — para dizer pouco. Ao nos sentarmos na cadeira, e depois do dentista começar, não passa outra coisa em nossa cabeça a não ser quando vai acabar? Todo dentista, para “ser simpático”, tenta puxar conversa (será que não percebem que não dá para falar com aquele monte de instrumentos na boca?). Em um determinado momento, parece que terminou; ele manda enxaguar a boca e vai olhar de novo como ficou. Aí vem aquela palavra de desalento: “só mais um pouquinho, está terminando”. Que raiva!

Pois bem, foi dessa forma que o mercado encarou, depois do término da reunião do Fomc ontem, quando Powell foi à sessão de perguntas e respostas. Eu acompanho esses eventos há muito tempo e não me recordo de ver um presidente do Fed ficar tão incomodado, pisando em ovos. Porém, numa determinada pergunta, abriu o jogo dizendo que as taxas serão mais elevadas que anteriormente previstas. Isso era o que o mercado não queria ouvir, pois acreditava que o ciclo de alta já estava com os dias contados. A Bloomberg relatou os resultados da reunião da seguinte forma.

O Federal Reserve não surpreendeu ninguém quando elevou sua taxa de política em 75 pontos-base na quarta-feira. A atenção já tinha mudado para o que vai acontecer a seguir. O ritmo de aperto vai diminuir a partir de agora? O Fed está mudando de ideia sobre a altura em que as taxas precisarão ir? Apesar dos esforços do presidente Jerome Powell para responder a essas perguntas, suas respostas deixam muitas dúvidas. E isso é um problema.

Para deixar claro, as futuras decisões de taxa de juros do Fed precisam ser dependentes de dados, como Powell insiste. Se a política monetária é difícil de prever apenas porque o futuro é incerto, tudo bem. O problema é que a incerteza não se limita, no momento, a dúvidas sobre como a economia evoluirá. O que também não está claro é como o Fed responderá às mudanças nas condições.

Os investidores estão compreensivelmente confusos. A maioria espera um caminho mais suave para o aumento das taxas daqui para frente, levando a uma "taxa terminal" de cerca de 5% no próximo ano. Mas a pergunta certa não é se isso é o que o Fed tem em mente; é o que o Fed faria se as coisas forem diferentes do que ele espera. Suponha, por exemplo, que o desemprego suba abruptamente, mas a inflação subjacente não diminua. Isso significaria taxas mais altas, taxas mais baixas ou manter as coisas iguais? No momento, é difícil dizer.

O Fed tem um quadro político que é destinado a lançar luz sobre tais julgamentos. Infelizmente, agora é em grande parte irrelevante.

Em 2020, após uma revisão minuciosa, o Banco Central mudou para uma abordagem chamada meta de inflação com média flexível. Isso pressupunha que lutar contra a inflação era a guerra de ontem. Enfatizou a "orientação para a frente" e a necessidade de manter as taxas mais baixas por mais tempo. Em vez de tentar antecipar um aumento nos preços, as autoridades esperariam até que isso acontecesse. Em relação à segunda parte do "mandato duplo" do Fed, a política visaria o "emprego máximo", e não o "pleno emprego" (ou seja, o maior emprego consistente com os preços estáveis). Isso também sugeriu que o Fed aceitaria errar para o lado de uma economia aquecida.

Foi uma péssima hora para fazer isso — mas não culpe o Fed por não prever a pandemia, ou a invasão da Ucrânia pela Rússia e a subsequente interrupção do fornecimento de energia. Esses enormes choques do lado da oferta atordoaram os formuladores de políticas em todos os lugares. Além disso, dê crédito a Powell e seus colegas por concordarem que eles haviam sido muito lentos em começar a aumentar as taxas quando a inflação começou a subir. Essa franca admissão fortaleceu a confiança de que o Banco Central está determinado a manter a inflação de volta sob controle. No momento, a credibilidade do Fed ainda é forte: que o diga a estabilidade das expectativas de inflação, apesar do ritmo chocante dos recentes aumentos de preços.

Manter essa credibilidade é crucial — mas ela não pode ser dada como certa. Até agora, o Fed já descartou tacitamente grande parte do quadro de 2020, mas isso deixa um vácuo. Para estreitar o escopo da incerteza evitável, é necessária uma revisão mais completa e deliberada.

No mínimo, o novo quadro deve olhar com ceticismo para a orientação futura e outros aspectos das comunicações recentes do Fed, revisitar a questão da política monetária no "limite inferior zero", restaurar a meta de sair da inflação antes de acontecer, reabilitar o "pleno emprego", declarar explicitamente os indicadores que orientam as decisões sobre a taxa de juros e, acima de tudo, esclarecer a resposta política apropriada aos choques na oferta e não na demanda.

Parece que esse comentarista estava posicionado, tamanha a sua surpresa. Na verdade, deve estar preocupado com seu emprego. O que eu diria a esse jornalista é que inflação é difícil de domar: você sabe como entra na hora de subir os juros, mas não sabe quanto nem quando vai terminar — é quase uma arte. Não se pode esquecer que todo mundo olvidou esse problema já que, durante os últimos 30 anos, a situação era a inversa, o de estimular um pouco de inflação.

O Banco Goldman Sachs, que já tinha ajustado suas previsões de juros para uma taxa terminal de 5%, alerta em seu relatório que o gato está tranquilo no telhado — por enquanto.

■ O FOMC apontou um ritmo mais lento de aumentos de taxas a partir de dezembro, mas uma taxa de pico mais alta em 2023 em sua reunião de novembro, como esperávamos. O presidente Powell disse que desacelerar o ritmo não depende de ver dados de inflação mais suaves, mas provavelmente será apropriado porque o nível da taxa de fundos está agora muito mais alta, o aperto acumulado até o momento é substancial, e a magnitude e o momento de seu impacto na economia são incertos.

■ Powell deu a entender que o FOMC provavelmente elevará a taxa de juros para um pico mais alto do que o projetado anteriormente, observando que dados recentes apontam nessa direção e que há incerteza significativa sobre qual nível da taxa é suficientemente restritivo. Seus comentários reforçaram nossa expectativa de que o gráfico de pontos de dezembro mostrará uma projeção mediana mais alta da taxa máxima e que o FOMC acabará subindo em fevereiro do próximo ano. Vemos os riscos para nossa previsão de pico de taxa de 4,75-5% com risco para cima.

■ Em resposta à reunião de hoje, o mercado de títulos precificou chances um pouco mais altas de uma alta de 50pb em vez de uma alta de 75pb em dezembro, mas também precificou um pouco mais de aperto em 2023. O pico mais alto mais do que compensou o ritmo mais lento e nossos índices de condições financeiras subiu.

Embora não diga explicitamente, o Fed também pegou a Goldman de surpresa. Nós brasileiros temos larga experiencia no assunto, e o Mosca tem uma visão mais pragmática, imaginando que a inflação demora para cair, não é “um, dois, três e pronto!” O gráfico a seguir, mostrando a curva de juros durante alguns momentos do passado, mostra como o mercado teve (e talvez ainda tenha) um posicionamento mais imediatista de queda.

Voltando ao paralelo do dentista, é bom pensar em outra coisa, pois parece que o dentista não vai terminar o trabalho logo.

No post profissionais-amadores, fiz os seguintes comentários sobre o ouro: ...” o ouro caiu um pouco mais, de uma forma mais tortuosa, pois no início de outubro ameaçou uma recuperação que acabou cedendo durante o mês. Como podem notar no gráfico atualizado, o objetivo segundo a hipótese trabalhada é ao redor de U$ 1.500” ...


Nesse tempo desde a última atualização, a oscilação do ouro ficou bem restrita, não havendo grande alteração no quadro, apenas adequando o gráfico a esses novos dados. Como comentei no post acima, não pretendo no momento me envolver com algum trade no ouro.


Um artigo publicado por Eddie Spence na Bloomberg tenta desvendar um mistério sobre o metal.  Um relatório de pesquisa normalmente enxuto abalou o mercado de ouro esta semana, quando apontou para compradores soberanos maciços, mas até agora não identificados.

Os bancos centrais compraram 399 toneladas de barras no terceiro trimestre, quase o dobro do recorde anterior, de acordo com o Conselho Mundial do Ouro. Pouco menos de um quarto foi para instituições publicamente identificadas, alimentando especulações sobre compradores misteriosos.

Enquanto a maioria dos bancos centrais informa o Fundo Monetário Internacional quando compram ouro para complementar seus cofres cambiais, outros são mais secretos. Poucos têm a capacidade de realizar a onda de compras no terceiro trimestre, o suficiente para suavizar o golpe dos investidores que vendem à medida que o Federal Reserve aumentava as taxas de juros.

"Com esse peso de venda, fiquei um pouco surpreso que o ouro não ficasse mais fraco", disse Ross Norman, diretor executivo do Metals Daily, um portal de informações focado em metais preciosos. "Mas eu suponho que agora temos nossa resposta."

O WGC, um grupo de lobby para a indústria de mineração, usa dados da consultoria Metals Focus Ltd. para produzir suas estimativas. Por sua vez, conta com uma combinação de dados públicos, estatísticas comerciais e pesquisas de campo para fornecer números de demanda de diferentes setores do mercado de ouro. Suas suspeitas são: China, exportadores de óleo como os mais prováveis.

Os motivos que fazem os bancos centrais comprarem ouro não tem nada a ver como os investidores. Como não são medidos por sua performance, mas seguem mandatos de alocação pré-definidos, é possível que, num mundo com tantos conflitos existentes se sintam mais confortável possuindo ouro a outras moedas e títulos – vejam o caso da Rússia. Por enquanto não se tem notícia que estão usando as criptomoedas para esse fim.

O SP500 fechou a 3.719, com queda de 1,06%; o USDBRL a R$ 5,1162, com queda de 0,51%; o EURUSD a 0,9750, com queda de 0,68%; e o ouro a U$ 1.630, com queda de 0,29%.

Fique ligado!

Comentários